Inspirei, e tinha algo estranho no ar. Não é que algo cheirava mal, ou parecia queimado. É aquele alarme que começa a piscar quando há alguma coisa de errado nas entrelinhas. Como estava na cozinha, fui ver o fogão – tudo normal, desligado. Abri a porta da geladeira, e a crosta de gelo que tinha nascido na parede nos últimos meses me encarou, solitária, me censurando por não haver produto algum fora as últimas garrafas de Coca-Cola; até a cerveja já tinha acabado.

Respirei novamente, tentando entender o que acontecia, passei pela sala, impecavelmente bagunçada – os livros e todo material da pesquisa revirados, mas nada que fosse estranho, o apartamente já tinha se acostumado com aquele estado das coisas, no corredor não seria possível que fosse a lâmpada.

Temendo o pior, não quis passar perto da porta do banheiro, seja lá o que poderia haver lá dentro, fui direto ao quarto. Impressionante como a sensação de algo errado aumentava a cada passo. A escrivaninha, com a mochila, e nada dentro dela; as estantes com algumas revistas e os livros que ainda não tinham sido sequestrados pela mesa de estudos improvisada da sala.

Como se estivesse desistindo, me joguei na cama, só para ter certeza que o problema estava ali. Era o colchão. Não, não o colchão, debaixo dele. Levantei-me de um pulo, joguei o colchão no chão, e contemplei o estrado da cama. Nada. Meio empoeirado talvez, mas nada que chamasse a atenção. Exceto… aquele porta-retratos 3×4, quase caindo para o chão.

A incerteza me dominou, não sabia se poderia simplesmente invadir a solitude daquele porta-retratos suicida, que estava prestes a dar cabo de si mesmo; ou se o deixava realizar seus propósitos.

Fui egoísta, admito. Antes que ele entendesse o que estava acontecendo, agarrei-o, puxei, e o abri. E lá estava. Lá estava aquilo que tinha me incomodado, de longe, lá na cozinha. Eu a encarei, e foi como se estivesse lembrando de um passado muito distante. Como se eu não tivesse dividido minha cama com ela, há pouco tempo atrás. Como se ela não tivesse  colocado sua escova de dentes na pia há alguns meses atrás, e não tivesse se apossado do sofá nos jogos do timeco dela. Como se nada daquilo tivesse acontecido, como se a pia da cozinha nunca tivesse presenciado nenhum momento íntimo nosso, ou como se nenhum vizinho reclamasse da trilha sonora que escolhíamos para uma terça feira à noite.

Ela tinha estado ali, monopolizado os porta-retratos de toda a sala, deixado sua marca de batom em todos os quatro copos de alumínio que ainda estavam secando, como se eles mesmos não a tivessem superado. Ela estava na escrivaninha, enquanto eu tinha ficado de cama por causa de uma gripe, e daquela outra vez, quando um bastardo resolveu que a vida de um motoqueiro não era tão importante assim.

Ela tinha passado mal naquele banheiro, tinha varrido aquela sacada, pintado aquele corredor. E, contemplando tudo isso na sua face, eu não me sentia lá.

Não me sentia lá quando as coisas começaram a parecer estranhas. Quando o seu mau-humor tomou conta da mesa de jantar, quando o seu silêncio me levou à dormir no sofá de meu próprio apartamento.
Não sentia que tinha estado lá nem mesmo quando ela juntou tudo, inclusive aquela escova de dentes, da pia, e foi embora. Mas, ela esqueceu aquele porta-retratos.

Aquele porta-retratos que guardava tudo aquilo que ela passara, mas eu tinha, de certa forma, me escondido. Todos fatos estavam ali, me encarando. A dor, a melancolia, o vazio.

Mas, de uma certa forma, nesse dia, o dia que senti algo de errado, e encontrei esse porta-retratos, aquilo não me incomodou – de fato, até soltei um sorriso.

Porque, inesperadamente, eu a tinha superado.

 

Daquela sensação que há algo de errado, em algum lugar.

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3 comments

  • “Porque, inesperadamente, eu a tinha superado.”e

    Não precisamos dizer mais nada…
    e apesar de triste, por um lado, é uma sensação tão gratificante, por outro.
    Não sei em quê acreditar ou exatemente o que dizer. Sei apenas que é uma das melhores sensações do mundo, esse tal de ‘alívio’.

  • Que triste =/

  • Vim comentar de novo porque fiquei realmente chateada, hauahuahau

    Que triste!

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