Ontem foi daqueles dias que a gente sai cedo do serviço com um monte de planos na cabeça e milhares de coisas pra fazer que vão facilitar a vida daqui pra frente – aquela hora que a gente acha que tá entendendo mais ou menos como as coisas funcionam e temos algumas certezas sobre o que queremos e o que temos que fazer.

Mas aí caminho pra casa fui assaltado. Levaram celular, surgiu uma leve pancadaria por ali, mas tá tudo bem. Um dos motoristas que parou pra tentar ajudar ligou pra Polícia (ainda bem que eu nunca manifestei contra a existência da polícia ostensiva) e em pouco menos de cinco minutos que os três ladrões saíram correndo, uma viatura chegou falando que tinham enquadrado um grupo de moleques que a descrição batia, uns sete quarteirões pra cima de onde rolou a confusão toda.

Subi na viatura e fomos pra lá, dos quatro que tinham sido juntados, só um fazia parte do grupo que me assaltou, e outro parecia um pouco, mas eu acreditava que não estava, mas as características que passei pra PM na ligação, logo depois da correria batiam como uma luva. Por via das dúvidas, ele foi encaminhado pra PM também, junto com a mãe – claro que os três eram menores de idade.


Escrevo aqui não porque roubaram o meu celular, ou porque três ladrões decidiram começar uma briga contra um cara (que ainda não sou o Jack Chan, então levei a pior), ou porque eles eram todos menores de idade e não vão ficar presos.

O que me deixou esquisito mesmo foi ver a mãe de um dos guris, descendo a rua, desesperada, perguntando DE NOVO? pra ele. Eu vi todo aquela agonia que eu já vi várias vezes na cara das mães que acompanhei em alguns bairros da cidade com a igreja, senti aquela tristeza de já ter ido buscar menor em vários cantos da cidade – por estar na hora errada, com as companhias erradas – e sim, dessa vez ele não tinha culpa, não era esse guri mesmo.

Mas chegando na DP o PM me passou a ficha dele. Foi apreendido com uma arma paraguaia, que ia repassar pra uma boca-de-fumo, já foi pego com carteiras variadas – e a lista continua. Olhar pra mãe daquele guri, de cabelos brancos, mãos ásperas de quem fica na vassoura e rodo o dia inteiro, e o olhar de quem já não sabe mais o que fazer, mas ainda não desistiu do seu filho.

Não sei, isso me deixou ruim. O que fazer? Como fazer? Existe uma solução? Como trabalhar com uma família tão destruída, nessa altura do campeonato? Não sei, mas isso não sai da cabeça.

Os tapas que a vida dá.

Categoria: Igreja
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