O passado é uma das maiores armadilhas que podemos encontrar. Ninguém quer se prender nele, a grosso modo – o que não nos impede de lamentar por tudo que aconteceu. É como sonhar: não é proibido (inclusive faz bem quando feito na medida certa e é acompanhado de atitudes). É preciso se lembrar do que se foi, revisitar memórias antigas e refazer caminhos, escolhas e decisões, de tempos em tempos.

Nos lembra de quem somos, das escolhas que fizemos e das nossas motivações que nos levaram até onde estamos – e para onde queremos ir. Não adianta terminar um processo sem se lembrar de porquê começamos, ou qual nosso objetivo com tudo aquilo.

Mas é perigoso relembrar de tudo que aconteceu, dar de cara com nossos erros, com nossos escorregões e falhas. Olhar pra trás tem os seus segredos, dizia Biquíni Cavadão[bb], foi bom o que passou, não me arrependo dos meus erros. Pode parecer contraditório, mas não é. Afinal, os meus erros e (principalmente) a maneira com que lidei com eles me tornou quem sou hoje – e foram as melhores escolhas que eu poderia ter feito na época, por mais que hoje não façam mais tanto sentido numa análise fria.

A nossa história precisa ser útil. O que passamos precisa nos influenciar de maneira a não cometer mais o mesmo erro – e a ajudar outros a não cometê-los; e não ser motivo de depressão ou angústia. Por mais difícil que pareça, temos que reconhecer que nem tudo (na verdade, sob uma certa ótica, quase nada) dependia de nós ou da nossa boa-vontade.

E se remoer por coisas que fogem à nossa capacidade – uma oportunidade de emprego perdida, uma viagem cancelada, um não recebido, uma vontade nunca posta em prática, uma chuva que veio na hora errada ou até mesmo um sorriso que não veio, bom tudo isso não depende só de nós. E por melhor que fôssemos, não iríamos conseguir.

Eu preciso me sentir mal por ter feito besteira – ficar constrangido por machucar pessoas, por alimentar meu ego, por desejar cegamente algumas coisas, e realmente me sinto. Mas esse sentimento, essa dor me constrange a agir diferente. A buscar um novo caminho, uma nova saída.

Se essa dor que sinto não provocar um desejo intenso de ser diferente, ela é inútil, e só mais uma parte do meu ego, machucado por não conseguir o que eu desejava. E de arrependido, eu passo a ser um reclamão – minha dor se transforma num mimimi.

Sim, meu passado me dói. Sim, gostaria de poder ter agido diversamente em muitas vezes – mas elas estavam fora da minha capacidade naquelas horas, seja quando me envolvi em brigas na sexta série, quando fugi das responsabilidades do meu primeiro relacionamento, quando perdi a cabeça com a faculdade e quando estourei com aqueles que eu deveria cuidar e me responsabilizar. Ah, e muitas dessas decisões me matam, não pelas consequências que eu sofri, mas pelas consequências que eu causei.

Mas isso tudo me constrange a hoje ser diferente, me guia a uma nova forma de vida que independe do meu passado. Que me anima a melhorar, e que me satisfaz pelas injustiças que sofri, assim como conforta pelas que cometi.

Homo homini lupus.

Parar, pensar, agir.

Categoria: Opinião
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