Quando eu era pequeno eu acreditava em muitas coisas. A gente gosta de acreditar cegamente quando é criança, né? É incrível como a curiosidade insaciável de uma criança consegue conviver pacificamente com a lenda de uma fada que troca dentes caídos por presentes. A criança não acredita que o fogo machuca, mas acredita sem a menor sombra de dúvidas de que existem monstros horripilantes que surgem magicamente no escuro e vão, sem motivo algum, comê-las – ou pior, levá-las embora pra um lugar completamente desconhecido.


Quando eu era pequeno eu acreditei numa história dessas. Não dessas de Papai Noel, Fada dos Dentes, isso é normal, faz parte da vida. Eu acreditei, cara, eu nem sei como eu consegui acreditar nisso – mas um dia eu já acreditei que a predestinação era uma posição confortável. Já acreditei que o calvinismo fosse uma desculpa pra deixar rolar, já que tudo tava definido mesmo.

Ah, ser eleito – como se tivesse algo de especial, ou algo de bom em mim que fizesse não só o sacrifício de Cristo valer a pena, mas que eu merecesse ser reconhecido por Ele – eu não tinha entendido nada. E ainda tem gente que acredita que o calvinismo é esse conto de fadas. O problema, amigos, é sempre o mesmo – foco.

A questão da predestinação não está focada na meritocracia, como nós estamos condicionados a acreditar. Não é o que fazemos ou o que deixamos de fazer (Efésios 02:8,9) que nos coloca ou nos tira do Livro da Vida, que já tá escrito desde o princípio dos tempos.

Não importa o que eu faço, eu continuo podre o bastante para ser lançado no inferno de cabeça pra baixo – mas mesmo assim Ele me amou a ponto de se entregar para me salvar. Esse amor constrange. Saber que não vale a pena sob nenhuma ótica de justiça humana e tentar entender a perfeita compaixão e amor deste Deus que se entregou pelas suas próprias criaturas – para que pudéssemos chamá-lo de Pai e contemplá-lo em sua plenitude.

O Sacrifício não foi para que fôssemos santos, mas para que pudéssemos sê-lo. Vamos pra um ponto a ponto da coisas mais idiotas que o senso comum diz sobre o Calvinismo.

1-    A Predestinação Calvinista tira a responsabilidade do homem.

Responsabilidade de quê? De sua salvação? O homem não é capaz de se salvar, sob uma perspectiva calvinista. O homem é um animal totalmente depravado, incapaz de fazer algo de bom por si só. É por isso que as crianças são egoístas e tendem a não compartilhar suas coisas; por isso que tendemos a garantir a nossa vida, mesmo que isso signifique a morte de (muitos) outros. Então sim, o homem não tem a menor responsabilidade sobre a sua salvação – ela é totalmente vinda de Deus, e se não há nada que nós podemos fazer para pagar por ela, sendo então o sacrifício de Cristo ABSOLUTO, e não desnecessário.

2-    Quem está predestinado não precisa fazer mais nada para ser salvo.

Essa é uma visão parcial – e como toda visão parcial ela é, no mínimo, tendenciosa. Depois que nós somos invadidos pelo Espírito Santo, tomamos consciência de como o sacrifício de Jesus é grande, é forte e poderoso e que só Ele pode nos salvar, e o reconhecemos como Senhor e Salvador das nossas vidas, nós não precisamos fazer nada mais para sermos salvos. Isso é bíblico, não calvinista. A necessidade de se obrigar as pessoas a fazerem algo não é bíblica, é costumeira de uma igreja que necessita de estar em constante crescimento, com salão sempre cheio e cada vez movimentando mais dinheiro para sobreviver e poder atualizar suas planilhas de metas. Nós fazemos o que fazemos não porque somos obrigados por Cristo. Mas porque somos constrangidos pelo seu Amor a fazê-lo. A nossa gratidão não nos deixa falar de outra coisa a não ser do Reino – mas á algo que vem de nós naturalmente, porque estamos cheios do Espírito.


3-    Jesus não morreu por todos, só por alguns.

Se apenas alguns vão ser salvos, e são só os eleitos, Jesus morreu por alguns apenas, e não por todos. Claro que não. Essa lógica não faz o menor sentido. Todos serão salvos? Não. O sacrifício de Cristo paga por todos? Sim. Cristo morreu por todos para que alguns sejam salvos. O Sacrifício dele é perfeito e basta para todos, mas apenas aqueles que reconhecerem que Ele é o Salvador etc etc etc.

4-    Considerar que existem eleitos e não eleitos é dizer que alguns irão para o inferno – e isso é negar o Amor de Deus.

Calma lá. Deus é Amor, e é Justiça. A Justiça é o sacrifício, sacrifício feito por Cristo pelos nossos erros. Assim como um ladrão precisa passar pelo processo jurídico e cumprir sua pena perante os homens para ser livre novamente, assim o sacrifício era requerido pela Lei – e foi oferecido por Cristo. Justiça de Deus seria mandar todos para o inferno, porque somos todos merecedores da condenação eterna – pela nossa depravação carnal. Não existe nada de bom em nós sem Ele. E a compaixão é oferecida pelo sacrifício de Cristo.


O calvinismo não é uma doutrina perfeita. Nenhuma é. É preciso criticar e julgar todas as coisas, mas para isso é preciso conhecê-las.

Quatro Meias-Verdades e Mentiras sobre o Calvinismo

Categoria: Igreja
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