Quando um status quo já está definido há muitos anos é um pouco difícil você chegar e mostrar pras pessoas que aquilo que existe é um paradigma, e não um dogma – mudar o hábito das pessoas, um hábito confortável, que dá tranquilidade e segurança não é uma tarefa simples, e dá muita dor de cabeça.


Primeiro que o reflexo das pessoas quando são confrontadas não é refletir sobre a veracidade dos fatos e argumentações, mas adotar uma postura passivo-agressiva quanto às conclusões que você está apresentando, independente do processo que você apresentou a elas. E eu vou comentar sobre isso em duas frentes, que quem acompanha o blog há um tempo já sabe bem quais são: a política e a igreja – e vou comparar com, veja só: o direito.

Na política eu tive duas experiências bem distintas, e hoje estou no PIRATAS!, não por acreditar em todos ideais do Partido e considerá-lo como o perfeito, mas por acreditar no modelo de democracia proposto – algo que nem a Marina Silva, a Messias que não usa kippah dos crentes descolados ousa propor: democracia líquida – ela pára no centrismo.

Querendo ou não, por mais de esquerda que uma pessoa seja, uma vez ou outra na vida, ela vai adotar, por menos que admita, lá dentro do coraçãozinho dela, uma postura de centro (vou nem falar de direita), e vice-versa. Não adianta, não tem como ser 100% direita/esquerda sempre extremo – afinal, a posição de um centro-esquerda sempre vai soar pra um stalinista como uma posição direitista e reacionária.

O problema da política bipartida, esquerda-direita é que se você é de direita, precisa concordar com todos os posicionamentos do Fernando Henrique Cardoso, precisa ser fã do Itamar Franco e discordar da existência de uma Privataria Tucana. Se você é de esquerda então, nunca existiu mensalão, a Dilma é linda e o problema de São Paulo são 20 anos de governo direitista, e fazer o que, né?

Democracia fluida pressupõe que o partido pode tomar e apoiar projetos de esquerda e de direita que levem para os objetivos aos quais ele se propôs na sua constituição e nas assembleias, independente de quem propôs o projeto de lei. Ou vai falar que nunca viu parlamentares votarem contra um projeto de lei só porque ele era do partido X ou Y? Quantas vezes não ouvi comentários do tipo Ah, fulano tem boas ideias, pena que é do PXXX.

Claro, você falar nisso pra quem é envolvido com política é a mesma coisa que atirar uma pedra no filho da pessoa – é impossível não ser da direita ou esquerda, você está claramente querendo se beneficiar da minha bondade e buscando meu apoio sendo que você está com eles (eles no caso é o grupo oposto ao da pessoa, sempre).

A mesma coisa é com a igreja. Você tem dois grupos bem definidos, sempre. Sejam tradicional/underground; conservador/libertário; calvinista/arminiano, em nenhum deles o meio termo é bem-vindo. Ou uma posição que pegue um pouco de cada pra buscar o seu caminho.  Não existem meios-termos, e se você não for tão radical quanto um grupo, será avacalhado pelos dois, independentemente de quão fundamentado na Palavra você esteja, se você não é A… Amigo, você está errado.

O incrível é que o Direito, apesar de ter uma íntima relação com a política, e ter uma hermenêutica sistemática parecida com a da teologia, é exatamente o contrário desses dois ramos da vida. Sempre que surge um posicionamento A e necessariamente o B no outro extremo, mais do que rapidamente brota um C, que é o meio-termo entre A e B e parece ser mais palatável para todo mundo. Não é que todos sejam extremamente felizes com C, claro que não, e vivem tentando puxar pro A ou pro B, mas todo mundo consegue conviver pacificamente em C e em suas redondezas – não precisamos concordar, mas não é por isso que precisamos necessariamente sempre discordar.

Quebrar paradigmas: A Política, A Igreja e O Direito.

Categoria: Opinião
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