Hoje, enquanto você trabalhava, uma coisa inédita aconteceu no esporte brasileiro: pela primeira vez o Brasil ganhou uma medalha de ouro no campeonato mundial de judô. Se você acha que não tem nada a ver com isso,  eu digo você conhece essa história há muito mais tempo do que pensa. Você pode não conhecer ou ter ouvido falar da Rafaela Silva até hoje (ou até as Olimpíadas de Londres, pelo menos) – mas você conhece o lugar de onde ela veio.


Sabe quando dizem que tudo passou tão rápido que mal dá pra ver? Foi exatamente isso que aconteceu nessa luta histórica de hoje, mas foi exatamente mesmo. Em pouco mais de 30s o Brasil ganhou a sua primeira medalha de ouro e abriu caminho pra uma luta que começou há muitos anos.

Rafaela, uma guria com 21 anos não se destacaria no Rio de Janeiro, de aparelho com borrachinhas verde-amarelas, não precisou sair de sua casa para  conseguir seu ouro mundial, ela é uma daquelas crianças que poderia estar no set de filmagem de Cidade de Deus, lugar que ela nasceu e onde conheceu o Instituto Reação,  e daquela vida que todo mundo já ouviu muito falar mais poucos foram de fato ver como é na comunidade, Rafaela hoje se sagrou campeã mundial, pelo treinamento no Instituto Reação, que eu, pessoalmente, não tinha ouvido falar até hoje.

Tão emocionante quanto vê-la desabar no choro depois da confirmação de sua vitória, vou ouvir o choro de um dos comentaristas do SporTV, que acompanhou sua trajetória desde que ela ainda tremia nos tatames da comunidade. Acompanhar um crescimento, uma evolução, uma mudança de vida assim é para poucos.

Me mandaram fazer outra coisa, por quê o judô não era o meu lugar.

(Rafaela Silva, sobre a eliminação nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012)

Eu fico muito chateado quando eu vejo pessoas que dizem que ensinar artes marciais nas comunidades, nas favelas é perda de tempo – quantas vezes você já não entortou o nariz pra mais um projeto que queria ensinar capoeira, porque isso não dá futuro? Essa questão de dar futuro é muito intrigante, porque percebe-se que a gente não quer que a comunidade seja melhor, a gente quer que a comunidade nos sirva bem.

Não queremos que os pobres, os marginais se deem bem na vida, nós queremos que eles parem de roubar, matar e destruir e façam um curso técnico pra trabalhar em algumas fábricas pra que possamos ser seus chefes e andar mais uma vez com as janelas abertas sem aquele bando de pedintes. Rafaela inclusive, diria uma jornalista no Facebook, poderia ter cara de doméstica. Nós somos muito podres, e isso porque nem temos dinheiro direito. Imagina se tivéssemos.

Esse é um trabalho do Instituto Reação, na comunidade Cidade de Deus – mas existem vários outros projetos menores que tiram, ocupam, disciplinam e trabalham com crianças e adolescentes no Brasil inteiro, inclusive na Vila das Torres, em Curitiba, com o Cléber Sá. Não conhece a CENA? Descubra e saiba como ajudar. O que o mundo precisa é só um empurrãozinho na direção certa.

Agora pra quem acreditou em mim eu mostrei que posso estar em algum lugar

Rafaela S.


Rafaela Silva, campeã mundial de judô e a nossa babaquice.

Categoria: Opinião
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