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Quando você perguntava a um estudante de Comunicação o que o tinha atraído pra sua área de estudo, o que ele mais tinha gostado e queria fazer, você invariavelmente ouvia a resposta – a redação jornalística. Mistificada por milhares de filmes e produções dos anos 80 e 90, em que super-heróis viviam em meio a colegas jornalistas e gente como a gente destruía governos e corporações, a ideia de redação como ela foi criada, já desapareceu há muito tempo: e só há dois tipos de pessoas que insistem em não perceber isso: estudantes de jornalismo e sindicatos.

Estudantes não quererem perder a visão romantizada de um jornalista correndo atrás de uma pauta com nada mais do que o seu bloquinho (nos últimos anos o smartphone) e um faro apurado para notícias  é perfeitamente compreensível. Todo estudante ou profissional em começo de carreira romantiza a profissão: estudantes de Direito fantasiam suas defesas em Tribunal de Júri, estudantes de Medicina sonham em salvar a vida de um caso perdido, ou pegar um parto impossível e conseguir salvar a mãe e o bebê, estudantes de Engenharia sonham com construções megalomaníacas – tudo isso faz parte. O que não dá pra entender é porque os sindicatos e associações de jornalistas estão fazendo até o momento.


Vamos aos casos:

Dá pra entender, pelos nomes envolvidos e pelas circunstâncias, que não é uma crise de mercado. A Folha passa muitíssimo bem.  O Portal Terra nem se fala. Mas porque essas demissões? E mais importante: Porque as associações de jornalistas estão tão provincianas quanto a OAB? Reserva de mercado pra um mercado que não existe?

O que os jornalistas não perceberam ainda é que não adianta lutar pra obrigatoriedade de diploma e exclusividade de jornalistas em redação – até porque não adianta ter um diploma se não há nenhuma redação para trabalhar. Aí eu te pergunto: porque os Sindicatos de Jornalistas batem tanto na “obrigatoriedade de diploma”? Porque você não ouve nenhum pronunciamento oficial sobre as demissões e sobre “perspectivas de futuro”? Será que o único modo de se fazer jornalismo continua sendo atrás de uma mesa, sendo pago por um único chefe e entregando todas as notícias pra ele, alcançando o sonho da CLT?

Se assim o fosse, o jornalismo não estaria morrendo de pouco em pouco. O que jornais (e aparentemente jornalistas) não entenderam é que sociedade da informação exige um pouco mais do que o mercado de trabalho nos anos 80. Se isso é bom, se é ruim, depende de o que nós vamos fazer com as informações que temos e como vamos planejar o futuro do jornalismo – e isso se faz desde logo, em sala de aula e em assembleias de sindicatos. Preparar alunos para um mercado de trabalho inexistente é hipocrisia, fingir para associados que os velhos tempos vão voltar é sacanagem com quem tá começando agora e tem milhares de sonhos. Não dá pra ensinarmos empreendedorismo? Freelancer? Fazer cursos de reciclagem e aprendizado em equipe? Dinamismo? Precisamos mesmo que todos os jornalistas dependam financeiramente de alguém e não consigam sobreviver como PJs? Se essa é uma possibilidade de futuro, porque não ensinamos isso -dentre várias outras coisas0 aos estudantes, ao invés de fazer a eterna discussão ‘vontade de publicar’ vs ‘medo de perder o emprego’?

Ou é sério que vocês vão ficar todos parados olhando isso acontecer e debatendo em sala de aula como o mundo é injusto?

Redações jornalísticas: ainda há vida nesse passado?

Categoria: Opinião
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