Nesse princípio de conflitos ucranianos, olhar para trás e para o que outros conflitos pós-modernos trouxeram é algo além de estratégico. Conhecer vítimas de conflitos internacionais e ver como e onde elas estão hoje é essencial para que possamos formular melhores opiniões sobre o impacto social do que virá pela frente. A invasão ao Afeganistão está quase a completar 15 anos e até hoje produz consequências devastadoras para os afegãos, tanto os que continuaram no país como para os que fugiram de lá.


No final de fevereiro o fotógrafo François Lenoir, da Reuters divulgou imagens de refugiados afegãos que foram acolhidos por uma igreja em Bruxelas, capital da Bélgica. Na reportagem, recheada de imagens das mais de 200 pessoas hospedadas pelo padre Daniel ali mesmo – no salão da igreja, entre os bancos e o altar da igreja, Lenoir colheu relatos de gente que está muito além do que o papel da lei pode ajudar.

São várias famílias que fugiram do país desde antes da invasão norte-americana. Pessoas torturadas e expulsas do país pelo regime talibã, outras que abandonaram suas casas em várias fases diferentes da guerra da libertação imposta, e começaram, famílias inteiras a vagar pelo mundo sem documentos, sem nomes, sem direitos. Mulheres que perderam o marido e precisam ser fortes pelos filhos, homens que nunca lidaram com crianças antes e não tem notícias de suas esposas, crianças que foram adotadas por compatriotas que nunca tinham visto.

Como você pode imaginar, estar ilegalmente em um país, principalmente quando você está fugindo de uma confusão do caramba em sua terra natal não é uma situação fácil – você simplemente não tem a quem recorrer, não tem uma embaixada ou consulado que compre a sua briga ou que você pode colocar o rabo entre as pernas e voltar. Quem abandonou o país em casos de guerra geralmente é tratado como desertor, e a burocracia não é muito amiga de desertores. A única esperança dessas pessoas é que o governo desses países que ela se encontrem estendam asilo e reconheçam a sua condição de refugiados.

Claro, o asilo para refugiados é um paliativo, mas um paliativo que vem muito a calhar. Garante ajuda humanitária: tratamento médico, enterro digno para os mortos, possibilidade de arrumar bicos, educação para os filhos e chance de conseguir um teto. Qualquer teto. Após vários meses simplesmente vagando pelo país à espera da concessão do asilo esses afegãos foram surpreendidos com um sonoro não das autoridades belgas, que negaram refúgio e gentilmente convidaram os afegãos a se retirarem do país – até que o padre Daniel os colocou para dentro.


São mais de duzentas pessoas vivendo em barracas tendo à disposição dois banheiros. O que pode soar um retiro espiritual de carnaval tem sido o dia-a-dia dessas pessoas há pouco mais de quatro meses – as doações ajudam, claro, mas a situação é tão precária que os banhos são semanais – e é tão difícil lavar as roupas com uma semana de uso que é mais humano jogá-las fora e usar roupas novas.

Por enquanto, nesses dias, a situação está resolvida. Eles tem comida, não em abundância, mas para passarem um dia para o outro. Eles tem teto, não conforto, mas suficiente para protegê-los. Eles tem higiene, não para ficarem limpos, mas para não se contaminarem. O que assusta é o futuro. São crianças que estão crescendo sem suas raízes e não aprenderam a língua de seu país de origem – portanto nunca se dariam bem de volta à pátria dos país. São crianças que não tem educação formal, então não se encaixam com as crianças belgas, embora tenham certa fluência no francês e o flamengo (mistura de francês e holandês falada na bélgica). São crianças sem raízes culturais, que não conhecem a história do seu país e não tem memórias de suas famílias que ficaram para trás.

Lenoir termina a reportagem dizendo:

Não importa para onde vão, serão sempre estrageiros. Durante o tempo que fiquei lá, conheci um povo gentil e carinhoso. A única coisa que eles não querem é voltar para casa.

 

Confira a reportagem completa, assim como todas as imagens aqui. Todas as fotos que ilustram o post são do fotógrafo François Lenoir.


Refugiados de guerra: um santuário para os afegãos.

Categoria: MundoOpinião
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