Community - Season 3

Conflitos como esse, entre Ucrânia e Rússia poderiam ser precedidos de uma música-tema como de um filme de James Bond, ou qualquer um da série Missão Impossível. Num revival imaginado somente por Tom Clancy, escritor que não vai ver uma de suas obras começando a tomar vida “Command authority” onde descreve o início do conflito até a invasão russa da Criméia, com perfeita acuracidade.

Com o desenvolvimento do conflito e a expectativa da ação da OTAN e dos Estados Unidos, muitos começaram a se questionar sobre a proporcionalidade deste conflito, temendo uma terceira guerra mundial – e eu venho falar sobre parte disso: porque devemos temer que este conflito não tome proporções mundiais.


Não vou discordar: guerras são ruins para todo mundo, ninguém (a não ser quem faz dinheiro com elas) é fã de guerras e todos viveríamos mais em paz sem uma dúzia de conflitos estourando em todo o globo durante o ano inteiro. Vamos aos fatos:

Um dos pré-requisitos para o desarmamento do arsenal nuclear ucraniano foi  a assinatura do Tratado de Budapeste, no qual a OTAN se comprometeu a proteger o território ucraniano de possíveis invasões. Não é que os países sempre tenham mantido a palavra empenhada sobre todos os tratados e acordos feitos entre si, mas não dar a devida atenção (e ação) à Ucrânia agora causaria sérios prejuízos à imagem de, principalmente, Estados Unidos, Inglaterra e França, três países historicamente envolvidos em conflitos internacionais (para o bem ou para o mal).

O ponto é que ignorar o Tratado de Budapeste trará um cenário de instabilidade internacional grande a tal ponto que nenhum dos países protegidos se sentiria muito confortável – afinal, até que ponto eles começarão a ser tratados como danos colaterais de uma política econômica?

Digamos, pois, que os Estados Unidos comprem a briga, e passem por cima de recomendações da ONU, manifestações de paz e pedidos de negociação. Digamos que eles sejam proibidos de se envolver no conflito e mesmo assim se envolvam. Como aconteceu aqui e aqui, além de outros casos extremamente discutíveis que ainda não foram muito esquecidos pelo Oriente Médio. A entrada dos EUA vai garantir um nível de tranquilidade quanto aos acordos e tratados já firmados, além de voltar à tona a posição do país como garantidor da paz e ordem mundial. 

O medo é que a Rússia não é um país esquecido do Oriente Médio ou uma ditadura religiosa com sérios problemas de reconhecimento eleitoral. Na verdade, em vários quesitos a Rússia (e a Ucrânia) seriam muito mais internacionalmente relevantes que qualquer outro conflito que os Estados Unidos adentraram desde a virada do milênio – daí o medo generalizado de um conflito maior.

O problema de outras nações não intervirem no conflito, condenando energicamente os Estados Unidos ou apoiando energicamente é, novamente, a imagem que toda a situação vai passar para.. bom, para si mesmos. O silêncio durante a invasão ao Afeganistão, a falta de postura diante das mais de vinte críticas que a ONU fez quanto ao embargo submetido à Cuba, o fechar de olhos quanto aos abusos cometidos no Iraque acrescidos desse silêncio a uma das maiores nações que até então sorria e acenava para os Estados Unidos será bem difícil de engolir.


Se nenhum dos países tomar postura e o possível conflito EUA x Rússia não tomar proporções mundiais:

  1. Nenhum país estará de fato seguro. Oras, a Rússia faz parte do comitê de segurança da ONU, atacá-la seria como atacar França, Inglaterra, Alemanha ou China;
  2. A desconfiança será impactante em territórios de conflitos históricos, o que poderá incendiar ainda mais os conflitos locais em metade do continente africano, na região basca, na Irlanda e ali no meio da antiga Iugoslávia, quando depois de mais de dez séculos de guerra finalmente as armas foram baixadas;
  3. Setores políticos extremistas serão reforçados em muitos países (não só nos historicamente instáveis por quesitos como religião ou estados totalitaristas), fortificados com a maior arma usada contra o povo e uma democracia: o medo;
  4. Juntando os três fatores anteriores: o medo de um povo já acostumado a alienação e a uma série de medidas desesperadas, acrescido da instabilidade no cenário internacional e em relações diplomáticas causaria uma corrida de cada-um-por-si que, embora suportável enquanto se trata de indivíduos, num cenário internacional seria desastroso em todos os âmbitos, do comércio à justiça.

O problema é que estamos nos tornando cada vez mais indiferentes. Se não intervimos quando vimos um motorista fugir de um acidente, se damos passos pra trás ao ver um batedor de carteiras fazer uma vítima, se fechamos os olhos pra vítimas de estupro e tudo que fazemos é cada vez mais nos cercarmos de regras e condutas para não ser mais uma das estatísticas (liga o alarme, guarda o carro no estacionamento, pague o flanelinha, não mexa no celular em público, não fotografe, não converse, ande rápido, mão no bolso), porque histórias d’além-mar nos comoveriam?


Rússia x Ucrânia: porque devemos temer um conflito que não tome proporções mundiais

Categoria: Opinião
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