Aqui se torce pra ganhar. Time que não ganha, logo é esquecido, e a gente vê isso com raras exceções, como os torcedores regionalistas e os do XV de Piracicaba – são poucos que mantém apenas um time pequeno no seu coração e não tem espaço para os grandes.


Aqui se torce pra quem vence, e quando começa a perder, logo se abandona, se xinga, se troca. Aqui se torce pelo genial, não pelo sentimento de torcer. Se torce pela certeza que vai ganhar. É por isso que a Fórmula 1 é detestada, aqui não se aceita piloto que fica em segundo lugar. É por isso que o tênis foi abandonado, se não for pra ser campeão de todos os torneios em todos os pisos, não se perde tempo torcendo.

Com o futebol, está ficando assim também. Desde que eu acompanhei a primeira Copa do Mundo de verdade, tendo noção de tudo que acontecia e tudo que é ser brasileiro do país do futebol, o saudosismo impera – não, essa Seleção não é boa, boa era aquela de [insira a copa anterior aqui]. O mais engraçado foi ver que em 2006, logo na copa seguinte ao pentacampeonato, o pessoal chorava de saudades da seleção de 98, aquela mesma que era uma vergonha durante a Copa da França.

Hoje não adianta o Brasil jogar contra a Itália e empatar em 2×2. O Brasil precisava ter humilhado a Itália, qualquer coisa que não tivesse 3 gols de diferença seria um absurdo. A Seleção poderia ter feito 4×0 na Rússia, com 2 gols e uma assistência do Neymar que ainda reclamariam do time.  Ah, ganhar do [insira time que a Seleção acabou de jogar] é fácil, quero ver ganhar do [insira qualquer outro time aqui].

O problema é que essa cultura do se-o-Brasil-não-vencer-eu-boicoto, é que estamos levando isso pra vida inteira. Não suportar derrotas em discussões, não suportar perdas na vida e tentarmos criar um jeito de determinar a vitória quando acreditamos ter uma meia dúzia de direitos que por algum acaso não foram respeitados. Aí torça-se a bíblia, acabem-se amizades e torçam-se palavras dos outros pra se mostrar superior.

Nessa brincadeira, Jean Wyllys já se tornou não só um homossexual deputado, mas um pedófilo, anti-cristão e porque não, arminiano. Nessa brincadeira, gostar de um certo tipo de música não é só ter uma preferência musical, é ser puta, vadia e fácil. Nessa brincadeira, nos afastamos cada vez mais uns dos outros, nos irritamos profundamente e perdemos a noção do que realmente está acontecendo – mas pelo menos somos superiores: boicotamos a seleção, odiamos funk e o cristianismo está a salvo.

Se não for campeão, nem perco tempo.

Categoria: Opinião
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