Já viu que todo mundo odeia seu trabalho? A coisa anda tão feia que a frase do Seu Madruga virou mantra “o ruim é ter que trabalhar”. Há tanta explicação para isso como ódio em relação ao trabalho. Algumas vão desde o histórico da palavra (que tem algo a ver com dor ou escravidão, não me lembro bem) até à psicológica necessidade de se receber salário como recompensa pelo que se faz.

O problema é que nunca se odiou tanto o trabalho (ou pelo menos se reconheceu isso), e nunca houve tanto stress e lutas para se combater o stress. É academia, jogos, videogames, baladas, exercícios terapêuticos, yoga, reiki, remédios, calmantes, relaxantes, mil e um cultos dos mais variados, feriados, chácaras, fazenda, ficar offline –ah. Quantas coisas pra se fugir do estresse de… trabalhar.

No Estadão saiu, há pouco tempo uma pesquisa dizendo que a rotatividade de emprego (pessoas que se demitem ou são demitidas) aumentou desde 2001, 53% – e 5% das empresas do país concentram 60% desse fluxo de funcionários. O que isso quer dizer?

Ninguém trabalha onde gosta. Trabalhamos em empresas que odiamos, fazendo coisas que detestamos e numa rotina que nos mata. Pelo quê? 10% a mais de salário e um vale-qualquer-coisa.

Não há mais perspectiva de crescimento nas empresas – pode ver o currículo da maioria dos lojistas/atendentes de telemarketing/frentes de caixa de supermercado. Todos acumularam várias experiências, mas poucos cresceram numa mesma empresa e ficaram íntimos da estrutura dela.

O que isso traz? Para a empresa, instabilidade. Não se pode contar com um funcionário, e não vale a pena investir treinamento numa pessoa que a qualquer momento estará cumprindo aviso. Não há mais a figura do funcionário que é pau pra toda obra, ou a pessoa que começou na empresa lá embaixo e está há 20 anos, chegando às mesas de diretoria. Poucas pessoas sabem como a empresa funciona de verdade, conhecem os clientes de verdade e sabem como tratar as pessoas que tem preferência e que estão lá há mais tempo.

Para o funcionário, traz a mecanicidade. Se a empresa não investe nele, o trabalho fica tedioso, e bater o cartão passa a ser cada vez mais trabalhoso – e ao invés de trabalhar, começa uma contagem regressiva para o final de cada expediente (faltando 15 minutos para ir embora, tá com tudo guardado e empacotado e não se atende mais ninguém). Como em três meses não há mais novidade no serviço, já começa a busca por algo mais desafiador, algo novo, que acorde para a vida. Ou que dê cinco reais a mais pra balada de sábado, que já tá bom, é quase uma dose de tequila.

Enquanto isso, a vida vai passando, oito horas a menos por dia.

Se trabalho fosse bom, não começava com TRA, de trave no seu olho, irmão

Categoria: Opinião
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  • Curiosamente biblicamente o homem foi feito para o trabalho. O sofrimento de depender dele para sobreviver é que é consequência do pecado.

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