Aquele romance que começou meio sem sentido, assim como aquela aeromoça que tinha medo de voar. Era como a relação do diabético com melado, aquele sentimento mútuo de respeito e de desejo comedido. Ambos se apreciavam, se desejavam, mas não sabiam como expressar o que queriam.

E foi assim, tentando, disfarçando, evitando conversar sobre o assunto que se aproximaram, se buscaram – dando às vezes um tapa na testa um do outro, ou escorregando e fazendo muita besteira; mas cada vez mais pareciam adquirir a consciência de que um realmente gostava do outro. Percebiam que os machucados feitos e as feridas que eram abertas não eram por culpa do outro, mas apenas cicatrizes que precisavam ser formadas se eles queriam estar juntos.

Foram aparando as arestas um do outro, lixando suas pontas com todo o carinho que se pode machucar ao outro (e a si mesmo pelo sofrimento alheio). Cada vez que eles se viam, se encostavam, se inspiravam, fazia valer a pena.

Não era um simples valer a pena como se no final fosse tudo fazer sentido – naquele momento, durante a dor, durante o crescimento e amadurecimento, até ali tinha consciência de que estava valendo a pena. Talvez por isso perseverassem, lutassem e se amassem como poucos fizeram.

Talvez tivessem descoberto o segredo dos casais que duram para sempre; mas não iriam responder se alguém perguntassem. Não por maldade ou alguma piadinha interna que só quem entrasse no clubinho descobriria – é porque não sabiam que tinham descoberto.

E provavelmente é isso que faz todo bom casal um casal bom. Não saber que o são; talvez se soubessem, ou se tivessem buscado essa perfeição conscientemente, nunca teriam chegado ali.

Porque, no final das contas, se descobre que o amor não é o final, mas o meio.

Sem sentido, mas na direção.

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