Toda disputa é, necessariamente ideológica. E ideias são mais dependentes de símbolos do que de atos propriamente ditos. A simbologia é ideal para que um ideal, um princípio vença o outro, no imaginário coletivo.

Na Revolução Francesa, o símbolo de poder máximo era a Bastilha. Na entrada dos EUA na 2ª Guerra era Pearl Harbor. Na Turquia, uma praça centenária. Em São Paulo, a av. Paulista.

A Bastilha era o símbolo do poder do Rei – era para lá que iam os presos políticos, aqueles cujo crime era discordar das políticas do Reino; Pearl Harbor era uma base no Havaí, dos EUA, atacada por forças japonesas quando o país mantinha-se neutro na guerra. A praça na Turquia, seria demolida para dar lugar a um complexo empresarial; e a Paulista é a principal avenida de uma cidade conhecida por ser o motor da economia de um país, onde há a maior concentração de riquezas – e onde começou a ser cunhado o termo coxinha.


A queda da Bastilha nada significou de fato para a Revolução Francesa – a prisão era quase abandonada, segundo relatos históricos; com sua queda, porém, o ânimo do povo que mantinha-se neutro se aqueceu – e a Revolução Francesa obteve êxito.

Pearl Harbor era apenas mais uma das bases das forças armadas dos EUA, uma entre milhares, cuja perda não significava muito em valores ou vidas para o país; porém o ataque a um país que se mantinha neutro até então – foi o suficiente para um levante popular que impulsionou o país a entrar na 2ª Guerrra, e ter um papel e tanto para a vitória dos Aliados.

A praça na Turquia não passa de um punhado de árvores no meio de uma cidade que se industrializa rapidamente, e não significa muito em caráter de área de lazer ou manutenção do meio ambiente, mas se tornou um símbolo da luta contra o avanço do capital estrangeiro no país, e estourou numa revolta de milhares de pessoas que chocou o mundo por vários dias.

A Av. Paulista é uma rua larga. Só. Leva as pessoas da Consolação ao Paraíso, com aprox. 2,5km de extensão. São esses 2,5km que fazem a mesma diferença da Bastilha na França, de Pearl Harbor nos EUA e de uma pracinha numa cidade da Turquia.

Os manifestantes sabem disso. O governo sabe disso. Por isso em todos os momentos, a Tropa de Choque pôs tudo a perder para proibir os manifestantes de chegar à Av. Paulista. É por isso que isolaram a av. Paulista do público. Porque toda vez que manifestantes conseguiam alcançar a Avenida, os jornalistas prendiam a respiração, os twitteiros arregalavam os olhos e um suspiro ficava preso em cada um dos que acompanhavam a manifestação.

Corro o risco de perder a credibilidade, mas cito aqui Jogos Vorazes.

“Um pouco de esperança é eficaz, muita esperança é um perigo. Uma centelha boa, contanto que controlada. Então, controle-a.”

Sobre ideologia, manifestações e símbolos.

Categoria: Opinião
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