Tem algum tempo que eu precisava escrever esse texto aqui – e acho que demorei demais. Até que, por uma lembrança da minha ex-cunhada, palmeirense, resolvi resolver essa questão de uma vez por todas.

Para quem não sabe, eu tenho um passado negro – alvinegro. Nascido em São Paulo, plenos anos 90, pós-conquista do Brasileirão, meu coração foi dividido entre Bragança Paulista e o time do povo. E cresci assim, alvinegro, até que um dia eu cansei do futebol – não, não foi um dia qualquer, foi logo no final da década de 90 – mais especificamente na pancadaria que rolou na final do Paulistão, em 1999. Não foi um descontentamento com Edilson, nem com os palmeirenses, pra mim está todo mundo errado, e continua até hoje.

E foi isso que me afastou definitivamente dos grandes clubes, aos 9 anos de idade. Estava cansado de não poder ir aos estádios ver jogo, estava cansado do medo generalizado, das crises de torcida que viravam brigas até dentro de sala de aula – e me resignei. Logo depois disso, ainda aconteceu a cagada do Clube dos 13 em cima do São Caetano, com a Copa João Havelange.

Continuei acompanhando futebol até 2004, quando mais uma vez, veio outra crise no Corinthians, a MSI. Foi logo depois disso que me declarei bragantinense de coração, e até comprei uma camisa oficial (coisa que nunca tinha tido).

Porquê? As conversas no Orkut, a amizade entre as torcidas da série B e C do Campeonato Brasileiro, o companheirismo (várias vezes vi gente de Barueri – Grêmio Barueri, rival do Braga – hospedando bragantinenses em casa durante os jogos, churrascos em comum) e pombas. Muito mais legal do que a matança que (ainda está) rolando na primeira divisão.

Foi quando eu fui apresentado ao futebol gaúcho. Por insistência de amigos, comecei a acompanhar o Internacional, a acompanhar os jogos, a ir no estádio, a participar de provocações, de discussões – e meu Deus, que coisa saudável.

Converse com um colorado sobre um gremista, ou vice-versa. Aliás, junte os dois numa conversa. É muito diferente do que você, minha ex-cunhada está acostumado no sudeste. Eu não preciso afirmar minha fé no meu time falando mal do Grêmio, não preciso ficar feliz porque um jogador do Grêmio quebrou a perna ou algo do tipo.

Inclusive, história recente: jogadores e torcedores do Internacional foram visitar Sorondo (ex-Internacional, que estava jogando pelo Grêmio no começo deste ano) no hospital, quando ele teve problemas no tornozelo. Em São Paulo, no mínimo, iam falar bem-feito e zoá-lo nas redes sociais.

Eu não preciso estourar fogos de artifício na porta do hotel do Grêmio, como virou moda no Rio, já que eu sei que meu time é capaz de vencê-los; e se perdermos, eu sei reconhecer que eles jogaram melhor (como foi na semifinal da Taça Piratini deste ano), e não porque o juiz fez isso ou o jogador tal fez aquilo.

Na verdade, nós, colorados, nos preocupamos até um tanto com o Grêmio – porque sabemos da importância do Grêmio para o futebol gaúcho – o Grêmio afundar numa crise (como a que rolou ano passado, e parece estar sendo superada esse ano) só traria prejuízos a nós. Precisamos de um adversário forte, que nos faça melhorar, que nos faça lutar para provar que essa terra, sim, essa terra tem dono.

Eu não odeio o Grêmio. Eu não debato sobre os trinta e seis campeonatos gaúchos ou as libertadores deles. Eu falo sobre os quarenta campeonatos gaúchos do Internacional e as nossas libertadores. Eu não quero que o Kleber Gladiador (por mais que ele seja um idiota) se ferre ou pare de jogar. Eu quero que o D’Alessandro se recupere, e que o Oscar saia desse imbróglio.

Para mim, palmeirenses, santistas, corinthianos, são-paulinos, flamenguistas são todos farinha do mesmo saco e igualmente desprezíveis pelos seus jogos de valores idiotas e brigas inúteis. Porque, por mais que você não brigue fisicamente no estádio, é igualmente intolerante nas redes sociais e nas amizades que têm.

É uma coisa muito mais positiva, apaixonante e divertida do que o futebol Rio-SãoPaulo. Que me perdoem os envolvidos.

Sobre o futebol de Rio-São Paulo

Categoria: Opinião
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