Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

Os aposentados querem sobreviver com seus trocados. Os funcionários querem ter aumentos salariais. Os universitários querem trabalhar. Os estudantes de Ensino Médio querem passar no vestibular. Os alunos do Ensino Fundamental só não querem repetir de ano. Queremos ser especiais fazendo nada além do esperado. Queremos brilhar fazendo nada além do mínimo. Queremos ser notados por sermos mais um no meio da multidão. Não é preciso ser nenhum especialista no assunto pra saber que não vai dar certo.

É meio chato, mas sem foco, a única coisa que vamos conseguir é andar em círculos enquanto somos empurrados por uma multidão que sabe tanto do destino quanto adolescentes de 18 anos sabem de logaritmos – e não se engane, quase ninguém no Ensino Médio sabe de logaritmos. Então, na boa? Aproveite, e mude logo!

Então, para se organizar, seguem algumas ideias que, se no ano que estiver chegando não te ajudarem, você pode aplicar no seu dia-a-dia – afinal são simples regras de organização pessoal que todos já cansamos de ouvir. Mas atenção: essas ideias não são pra quem tem uma grana disponível ou que não tem obrigações. Só pessoas que tem que dar os corres pra chegar no fim do mês, que precisam fazer trabalhos e estudar pras provas enquanto tentam algum freela em alguma área do universo, podem compreender essa lista.



(1)    Estabeleça prioridades

Não é aquela lista de quatrocentas coisas que você quer fazer da vida. Você não vai conseguir ir pra Paris, comprar um carro e passar no concurso público que quer no mesmo ano enquanto faz as coisas que precisa fazer – você precisa ter apenas um grande objetivo e um ou dois de médio alcance. Escolha despreocupadamente – sempre dará tempo de mudar de ideia ou fazer coisas novas nos próximos dias; não se precipite em objetivos profissionais.

Viajar, conhecer uma língua ou aprender alguma outra coisa (qualquer coisa, por sinal) é um um objetivo interessante. Sinceramente, não perca muito sono pensando no que fazer. Ponha um foco, pode ser até o sonho infantil que perdeu um pouco do sentido, tá valendo.

(2)    Planeje

Não, não é um cronograma pra tentar alcançar aqueles objetivos em tanto tempo – esqueça prazos, esqueça deadlines. Só vai gerar pressão e angústia quando a ideia é exatamente o contrário, o prazer.

Planeje como vai conseguir o que precisa conquistar aquele objetivo. Você precisa de quê? Dinheiro (quanto?), horas de estudo (quando?), treinamento (onde?), contatos (quem?), tudo isso precisa estar pelo menos rascunhado pra você não sair batendo a cabeça pelas paredes.

(3)    Força, foco e fé

Com o tempo vai ficar difícil dedicar aquele horário sagrado, mil coisas e oportunidades vão aparecer e você vai querer desistir tantas vezes quanto um gordinho de dieta deseja um cupcake de chocomenta. Até aqui foi brincadeira de criança, qualquer um pode fazer sem comprometimento. Então, algumas vezes na semana, nem que seja meia hora por dia, finja que está na academia e repita o mantra daquela galera estranha da academia – mas não precisa postar foto no instagram todo dia não, tá? Na moral.

(4)    Não desista

A maioria das pessoas desiste ali entre o terceiro e o sétimo mês de planejamento. Já passaram de ano, passaram de período na universidade, muita coisa andou e ainda não conseguiram atingir aquele objetivo que queriam.

Não seja tão impulsivo. A impulsividade, o desejo de ter tudo agora é que nos faz ser medíocres – aceitamos o médio, o comum porque não queremos esperar, treinar e lutar pelo melhor, com medo de perder. Se você definiu um sonho, corra atrás dele, não faça com ele com faz com o resto da vida. Deixe pra procrastinar nas outras 23h30 do dia.



Opinião

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O patinho feio ficou bonito. A órfã pobre se tornou princesa. Crescemos e amadurecemos ouvindo histórias sobre pessoas completamente perdidas, no fundo do poço, que se reergueram. O adolescente que sofria bullying e era trancado no armário da escola se tornou um multi-milionário. A mulher com obesidade quase mórbida que é triatleta. Nos inspiramos nessas histórias do ensino básico ao superior. O jovem advogado que pegou uma causa milionária quase perdida e fez sua fortuna de primeira. O gestor que revolucionou a empresa onde trabalha e quadruplicou seus ganhos pessoais numa trajetória ascendente fenomenal. O ator de uma peça da esquina que tropeça e cai num musical da Broadway.

À nossa volta as pessoas estão sempre ganhando, vencendo. Perdeu 35kg usando Herbalife e foi pago por isso. Investiu 100 dólares no eToro e hoje tem retornos semanais que beiram os quatro dígitos. A riqueza, a beleza, a vitória, todas elas ao nosso alcance. O mito capitalista da meritocracia vive forte, mas vive tão forte a ponto de fazermos questão de fingirmos que acreditamos nele – e de tando fingirmos que acreditamos, acabamos acreditando mesmo. Acreditamos piamente que tenhamos que vencer, independente do que seja esse algo, e que uma vez vencendo, seremos melhores daqueles que nós ultrapassamos pelo caminho. Na riqueza, na beleza, na santidade, nos relacionamentos.

Nos enganamos dizendo que iremos começar a dieta, que iremos economizar dinheiro, que iremos fazer isto ou aquilo, mas no fundo no fundo, ficamos chateados por não estarmos lá no fundo do poço para podermos subir na vida. Se não somos ricos, pelo menos é mais belo ser miserável do que ser medíocre. O miserável conseguiria se reerguer, o medíocre tem medo de perder o que já conquistou na tentativa de ganhar mais.

Conseguimos tornar a mediocridade o pecado mais sujo da pós-modernidade. É mais feio ser o cristão de banco do que o cristão glutão, ou o cristão prostituído – um apelo contra a rigidez da igreja consegue muito mais adeptos do que um apelo contra a insensatez de seus membros, ou contra a violência doméstica. Porque mais do que ter medo que descubram nossos defeitos, temos medo de sermos reconhecidos como conformados.

Nessa gincana pela vida mais bonita, mais vencedora, alçamos à cargos maiores na igreja, buscamos ir mais profundamente nos nossos relacionamentos, damos voltas e voltas para conseguir uma melhor posição no mercado de trabalho, fazemos dívidas para ir um pouco mais longe na viagem de férias (mesmo que tenhamos que vender quase metade dessas férias) e acabamos largando mão das frivolidades da vida.

Na busca pela vida melhor que a dos meus vizinhos, um sorvete não é apenas um pote de sorvete. São 17 reais a menos na conta poupança, são 3cm a mais na cintura, são 18 likes a mais no instagram. Ao postar uma foto de namoradinhos, são cento e tantos likes, uns 16 comentários e 3 ou 4 pedras do recalque alheio das inimigas. Uma foto de estudos, já são pelo menos umas 80 curtidas e 7 ou 8 mensagens de força, além de todos os pontos ganhos em respeito e confiança alheios. Vivemos uma vida de RPG. Fazemos nossas escolhas frente ao nosso destino como rolamos os dados para o Mestre que comanda o que acontecerá. Fazemos escolhas baseadas em benefícios e retornos sociais. Esquecemos que somos, vivemos, convivemos, namoramos e criamos seres humanos. Não estatísticas. Não reais. Não quilômetros viajados. Não memórias – muito menos as falsas, que insistimos em plantar em nós mesmos.

Um apelo à mediocridade, como única salvação em contraponto a uma sociedade utilitarista. A uma sociedade de vencedores. A uma sociedade de vidro.

Um apelo à mediocridade, como única reveladora do nosso verdadeiro caráter. Da nossa verdadeira face. E que uma vez reconhecidos como medíocres, possamos nos ajudar a caminhar, uns aos outros, uns com os outros, uns como os outros. Todos os patinhos feios que não eram cisnes, mas apenas patos de péssima aparência física. Todos os quatro-olhos espinhentos que não eram gênios, nem se tornaram milionários, mas quatro-olhos com rostos esburacados e famílias comuns. Todos os advogados com carro popular que, advogando, conquistaram novos carros populares com o passar dos anos. Todos atores suburbanos que apresentaram peças não-tão-boas assim para um público não-tão-grande-assim e não-tão-refinado-assim. Mas que consigamos olhar a vida que temos com orgulho do que fazemos. Das pipas que soltamos, quando pequenos, mesmo que por 5 minutos. Das vezes em que não perdemos de maneira nã0-tão-humilhante assim no MMORPG, e da fase 78 no Candy Crush. Da paçoquita de sobremesa e das mãos que nos recebem quando encontramos alguém que nos tem como queridos. As amizades conquistadas, todas tão medíocres como nós, e o passado que não-nos-dá-tanto-orgulho-assim.

Sejamos felizes conosco mesmos. Pelos 100 gramas que perdemos em dois meses. Pelo bombom da Erlan que ganhamos de um tio. Pelo lugar vago no coletivo. Pela linha de código que salvou o dia no trabalho. Pelos sorrisos conquistados entre a saída de casa e o retorno. Sejamos felizes com nossa mediocridade. E que ela nos leve aonde nós vamos, e queiramos de fato, ir. Não empurrados, constrangidos. Mas livres.


boo


Ciúmes é uma coisa engraçada. Tem aparência de bonitinho, quem sente sempre diz que é uma forma de amar, e às vezes, é até uma consequência obrigatória de amar. Ciúmes é uma coisa fofa, que nos faz desconfiar e duvidar da pessoa que a gente ama até a última instância (e sempre guardar os casos na memória).

Até porque, de fato, ciumentos confiam nos seus respectivos cônjuges e namorados. Só não confiam no senso de normal deles, nem no senso crítico de amizade que eles têm. Ciúmes é uma insatisfação gostosa, uma maravilhosa sensação de achar que a pessoa que amamos é profundamente retardada por não ver o óbvio, ou quiçá, cretina, por estar se aproveitando de uma situação e se fazendo de besta.

Ah, o ciúmes. Como é bom ser ciumento, acreditar que nosso relacionamento é perfeito (desde, é claro, que a pessoa saiba fazer exatamente o que queremos, da forma que queremos e quando queremos).

O ciúmes nada mais é do que a nossa derradeira tentativa de não se meter no problema dos outros. A última chance que temos de acreditar que todos os outros seres humanos são frios e babacas, e nós somos pobres inocentes azarados em matéria de amor. Afinal, se ele(a) está de conversinha com outra pessoa, é claro que está nos traindo ou fazendo algo que não poderia fazer na minha frente.

Ciúmes é uma coisa maravilhosa. É o que nos deixa distante daquela pessoa que juramos amor eterno (desde que…) e que nós queremos pra sempre na nossa vida (até que…) porque no fundo, no fundo, não queremos mesmo depender de ninguém.

Afinal, crescemos acreditando que os outros só servem para zoar conosco.

Annie :(


Seja como for pra você, é um começo. Não importa se é um novo dia, ano, ou conjunção estelar. Independente da data ou das marcações, o sentimento e a importância são os mesmos. Você está num começo.

Todo mundo se recicla, isso é fato. Muitos usam seus aniversários. Outros preferem o Natal. A maioria de nós faz isso quando começa um relacionamento. Provavelmente faremos novamente quando trocarmos de emprego, ou nos mudarmos de casa. Alguns cristãos reciclam suas vidas no Natal – é tudo uma questão de perspectiva sobre o mesmo fato: nós cansamos de nós mesmos, mais rápido do que conseguimos suportar.

O nosso problema é que nós estamos em contato 24h conosco mesmos, por mais que tentemos evitar. O desespero de conviver com as más-escolhas e com as consequências de tudo que fizemos, julguemos serem as nossas ações boas ou más. Essa culpa existencial que atormenta desde o mais desesperado suicida ao mais convicto dos monges.

Criamos a tecnologia. Não nos desconectamos do mundo. Trocamos amizades, vemos nossos velhos amigos o mínimo possível e somente em ocasiões especiais – porque os conhecemos muito bem, e a recíproca é verdadeira. Enchemos-nos de afazeres: sociais, acadêmicos, religiosos; tudo para não ver nossas próprias construções derrubadas por falta de resistência.

E então chegamos no ponto que você está agora – no início. Um novo dia. Um novo respirar, um ar mais puro. Cheios de planos e intenções. Dispostos a enterrar toda aquela bagagem que nos tira toda a força, dia após dia. Sabemos que vamos falhar, assim como você sabe que vai ser soterrado pela própria bagunça, mas continua com fé de que vai tudo funcionar.

Não estou falando isso como alguém que já está na sua frente e vê o que será de você – nenhum profeta do caos ou da depressão, como muitos tem borbulhado na internet. Não, eu sou alguém que ainda não está aí. Sou você, ontem, ou ano, conjunção estelar passada.

Eu falo como alguém que já cansou de olhar para a pilha de destroços e sucatas que fui acumulando. Pendências, satisfações, consequências, dores, histórias inacabadas, rancores – eu falo como alguém que já viu tudo isso.

E te adianto: não adianta esconder o lixo. Você pode cavar o buraco mais profundo – mas assim como na natureza, o chorume desse seu lixo vai escorrer e contaminar aquilo que você se alimenta hoje, e que é seu conforto.

Como eu disse, não sou um profeta da desgraça – não trago só o problema, trago a solução: nada.

Isso, nada. A pilha de lixo estará ali até o último dia da sua vida, te confrontando sobre o ser humano que você acha que é. Quando você tiver filhos e eles te desapontarem, você vai levar um tapa na cara por todas as vezes que você desapontou seus pais. Quando você cometer mais um erro, ela estará ali, para te mostrar como você é insignificante, e seria bem melhor que nem tivesse tentado começar.

Alguns chamam de karma. Outros invocam nomes de demônios para se referirem a ela. Eu prefiro chamá-la do que acredito que seja – consciência.

Uma consciência limpa não é um senso de ter feito tudo perfeitamente. Consciência limpa é ter a certeza de que, em algum momento da vida, decidimos que deveríamos fazer o melhor que pudéssemos, e realmente começamos a fazer isso.

É só quando deixamos de carregar esse lixo, ou tentar enterrá-lo, que de fato, o encaramos sob a perspectiva de quem ele realmente é – um lembrete do pior que podemos ser, e do que queremos nos afastar.

Você precisa, urgentemente, parar de se desesperar pelas consequências dos seus atos. Você precisa, mais do que nunca, sair desse ciclo vicioso que é a sua vida, de viver cada dia tentando consertar os erros do dia anterior. O que está feito, está feito. Assuma isso para a sua vida, e tente viver melhor que puder frente a isso.

Encare essa pilha todos os dias. Lembre-se dela a cada instante. Conviva com todos os seus erros com um único objetivo: não acrescentar mais nada a eles. Você vai errar mais vezes, claro. Essa pilha, invariavelmente, vai aumentar, eu e você sabemos que sim – mas você não pode perder o seu foco. Mantê-la estável o máximo que puder. Para que ela não te esmague. Para que você não a tema. Para que você não se veja, mais uma vez, no desespero do qual acabou de sair, quando tudo deu errado.

Porque ego, você sabe que alguma coisa vai dar errado.


*Ego (psicanálise): concepção que o indivíduo possui de si mesmo na realidade; figura que o indivíduo faz de si mesmo frente aos outros.

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Esqueça o viver de glória em glória. O máximo que a gente faz hoje, é escorregar de treta em treta, tentando sobreviver e não fazer muita besteira no meio desse caminho. A vida feliz, completa, satisfatória que nos prometeram mostrou ser mais do que um simples caminho estreito. É uma ponte bamba, escorregadia e sem nenhuma cordinha lateral para se equilibrar – e a queda, além de perigo constante, provou-se humilhante.

Pode ter sido por influência da TV, como sempre tem uma galera ávida por culpar algo superior e exterior por todos os problemas do universo, mas nos acostumamos a viver como se estivéssemos dentro de seriados. Vivemos uma vida cheia de dramas, pontos altos e baixos, numa montanha-russa inebriante que precisa constantemente de atualização e reformas para não ficar repetitiva e cancelarem no meio da terceira temporada por falta de audiência. Queremos viver Californication. Queremos ser a pária de The O.C. ou a mente malévola de Revenge.

É estranho perceber que em boa parte do tempo as pessoas estão preocupadas com problemas que já foram resolvidos ou que não podem ser solucionados. É impressionante a quantidade de voltas que damos para evitar um simples constrangimento de foi mal, cara, eu realmente não curto o que você escreve, então vou te dar unfollow, mas a rua é nóiz. Tudo, para nós, precisa ter algo a mais.  Nos tornamos os paranoicos que veem ameaças escondidas em notícias de jornal.

Precisamos de segundas, terceiras opiniões – e de segundas opiniões sobre as terceiras opiniões que nos deram. Somos o centro do universo: tudo conspira para nos derrubar. Fulano não deu bom dia com sorriso? Tem treta aí.

Devo dizer que minha vida melhorou bastante quando eu percebi que eu não era um personagem de série. Quando me disseram que eu não precisava me meter em todos os problemas, eu não entendi. Mas quando eu vi que as tretas só vinham até mim porque eu era o personagem principal da trama, eu abri mão do roteiro e abandonei o estúdio de filmagem.

Você não é Jackson Teller. Você não é Ryan Atwood. Você não está apaixonada Hank Moody, nem é Louis Lane. Então tire esse peso das suas costas e perceba que você não precisa salvar o mundo. Não a atacado.  Comece a viver isso, o pouco, e você verá que existe um viver de glória em glória. Provavelmente não te dará uma coroa de louros, mas te dará uma família pela qual vale a pena lutar.


Respeite seus limites, saiba que brigas comprar, e principalmente: saiba quando você está lutando uma batalha perdida, e como sair dela. Se existe uma série que você poderia atuar, é Community. Mas só pelas guerras de paintball.


Quando cheguei ela já estava lá, naquela posição que todo mundo detesta. Deu um sorrisinho sem-graça, sabendo do pensamento de qualquer pessoa que a visse naquela posição, não sabendo como ignorar a verdade ou disfarçar que aquilo também a incomodaria.

Tinha vindo desde Fortaleza, e ia para Belo Horizonte, e quando entrei no avião, já em Recife, ela estava lá, na poltrona do meio, sem escapatórias. Eu sentaria do lado dela, mas pelo menos era janela.

Não que ela em si fosse desagradável. Era uma senhora, com seus cinquenta e poucos anos, um casamento duradouro e uns três ou quatro filhos. Vestia-se de maneira sóbria demais, quase resquício de uma época que viajar de avião era uma ocasião especial – seu jeito contrastava com o meu de mil maneiras diferentes.

Eu estava com uma calça jeans velha, já rasgada em alguns pontos do joelho e com a barra esfarelando – meu tênis já fora azul e branco, e estava num azul e marrom que denunciava de longe o tempo que estava sem lavar, meu moleton com escritos em fontes vindas do norte da Noruega denunciava o que tocava nos meus fones de ouvido, e pra completar o pacote, ainda estava com uma bandana de caveiras que fazia todas crianças olharem para mim como se fosse um personagem saído de uma de suas revistinhas em quadrinhos.

Mas mesmo assim, ela me recebeu com um sorriso, e ainda segurou meu livro pra que eu pudesse guardar a mala no bagageiro já superlotado do avião. Conversamos brevemente sobre como as companhias aéreas mudaram, como o almoço uma vez ficou ruim, tornou-se um pacote de amendoins e de repente foi embora, como se nunca tivesse existido.

Quando dei por mim, estava conhecendo mais daquela senhora, que saiu do interior cearense pra tentar a vida em São Paulo e acabou parando em Campinas do que de muita gente que esteve por muitos meses ao meu lado.

E toda história. Ah, toda história é uma história que bagunça com a gente de maneiras espetaculares.

Ela estava voltando da cidade que nasceu – tinha comprado a passagem logo antes de abril, num daqueles saldões de internet, para ver a mãe, que estava pra fazer 98 anos. Ficaram meses conversando, sonhando, planejando com o dia que iam se rever, depois de quase cinco anos. A mãe dizia já contar as horas para receber a filha que tinha ido embora, quando, faltando uma semana pra viagem, no dia 22 de julho, quase cinco meses depois da compra da passagem, confirmação da viagem e liberação para as férias, faleceu.

Foi faltando quatro dias para viajar, com as malas quase arrumadas e todos os presentes já comprados e organizados que esta senhora que estava do meu lado, recebeu a notícia. Que a sua mãe, a guerreira, a última pessoa de sua família, faleceu. Logo agora tão perto, e tão longe.

Eu não sabia o que fazer. O que dizer. Olhava para ela, com os olhos cheios de lágrimas, desabafando pra um desconhecido que sentou do seu lado sobre como foi chegar na cidade que cresceu, olhar para a casa vazia e ter perdido a última pessoa que contava desde a infância e o aperto que me deu no coração foi de uma agonia impressionante. Demos as mãos, conversei um pouco com ela, a tranquilizei, e depois de um sorriso e algumas palavras de oração, ela se cobriu. Fechou os olhos e dormiu.

E eu não consegui me concentrar mais em nada.

Não adianta, se as pessoas querem vender seus valores, elas vão vender, independente do obstáculo que você coloque. Veja advogados, por exemplo. Advogado não pode fazer propaganda na TV, não pode distribuir panfletos, não pode anunciar serviços jurídicos de qualquer forma, não pode divulgar preços (quem dirá fazer promoções), não pode mercantilizar a profissão de forma alguma em nome de uma honra que… não existe.

Todos impedimentos, obstáculos, dificuldades impostas não conseguiu acabar com a má-fama de advogados, assim como não proibiu a entrada de espertinhos nos quadros da OAB (que são responsáveis por tudo aquilo que falam dos advogados – se são maioria ou minoria ninguém sabe dizer).

Não adianta você tomar relatórios, vigiar alguém na internet, as pessoas que ela tem contato, a vida profissional, fazer orações diárias com a pessoa e tentar circundá-la com todos cordões, proibindo-a de ouvir músicas que fariam mal, de se relacionar com pessoas de fora da igreja, ou até de namorar alguém que não seja pré-aprovado por um conselho. Se ela quiser fazer outra coisa, e jogar todos esses valores que você forçou nela no lixo, ela vai jogar, sem pensar duas vezes.

Jogue fora as rédeas, o controle remoto e pare de se iludir. Lembre-se que você também é uma ovelha.

Sabe aquele dia que você acorda feliz porque teve um sonho bom? Aquele dia que pode acontecer de (quase) tudo – mas que você não vai perder o seu humor[bb], porque sonhou com algo bom e aquela lembrança fica contigo o dia inteiro – mesmo que você não lembre o conteúdo do sonho?

É estranho acontecer isso – você ficar feliz por uma lembrança de algo que você não sabe o que é, mas sabe que é bom.  E aí você fica com aquele gostinho bom, e não importa muito o que foi sonhado, ou o que aconteceu – o que importa é que foi bom.

Se a gente consegue ficar assim com sonhos que a gente não sabe o que foram, não fazemos a menor ideia do que era nem como realizá-los, porque não ficar assim com os sonhos que a gente sonha acordado?

Tão estranho quando ficar feliz com algo que a gente não sabe o que é, é ficar triste com algo que a gente sabe o que é – só não sabe como chegar lá. Afinal, saber qual o destino é quase metade do trabalho (para quem está perdido, qualquer caminho é um bom caminho).

"I have a dream"

Pegue seus sonhos, pegue aquilo que você quer fazer – o mais bizarro que você já imaginou e tente fazê-lo (mesmo que você tenha que aprender coreano ou guarani pra isso). Vá, meta a cara a tapa, faça o mochilão pela Ásia, conheça os lugares onde foi filmado Senhor dos Anéis, faça aulas de parapente[bb], de acupuntura[bb], sei lá, cara. Pira na batatinha aí e se vira. Faça, aja, viva.

Ore. Se não der certo, não fique triste. Faça outros planos, continue agindo por eles, continue orando e buscando o caminho certo – agora que você sabe pra onde ir, não vai fazer qualquer coisa idiota (só algumas).

Pedir um conselho fica mais difícil a cada dia. Parece que ninguém quer dar, todo mundo foge de uma certa responsabilidade na vida de outra pessoa – ou sai batendo os dentes tagarelando pra todo mundo aquele segredo que bem, se fosse pra publicar, você teria twittado, e não conversado.

O problema é que, num meio cristão, o suportai-vos uns aos outros, significa também, aconselhar, estar junto, como pressupõe a própria comunhão. Como sair dessa?

O fato é que todo mundo que pede um conselho já sabe o que quer – mas não sabe que sabe ou não quer fazê-lo. Quando uma pessoa pede conselho ou ela está confusa ou ela quer uma desculpa para fazer algo que ela sabe que não é certo, mas não quer reconhecer. O problema de apoiar esse tipo de decisão é que opiniões mudam – e você pode acabar como o malvado da história

Eis então um manual super-prático dos principais pedidos de conselho mal-intencionados e como fugir deles (para sua própria segurança!).