Utilidade Pública

É tão comum ter uma farmácia ao alcance das mãos que se virar sozinho sem ir em um médico tornou-se um hábito não só aceitável pelos seus amigos como recomendado. Você se queixar de uma dor de cabeça é um convite pra receber uma listagem de nomes incompreensíveis de remédios e fórmulas de laboratórios que você nem imaginava que existiam. Resfenol, Doril, Paracetamol, Neosaldina, Dorflex, Advil, Aspirina, Tylenol, Naldecon (que não é bem dor de cabeça mas serve) e mais uma infinidade de nomes bisonhos.



Cheguei na farmácia esses dias porque já estava há mais de 48h com uma dor atrás do ouvido e fui apresentado a um cardápio tão completo de remédios que me deixou até perdido – até que eu resolvi perguntar pra atendente qual daqueles remédios não tinha cafeína. Ué. Sim, a cafeína funciona como um estimulante, um catalisador da reação que faz o remédio ter efeito mais rápido, mas… a minha dor de cabeça era exatamente por falta de dormir. Tomar um remédio que vai me impedir de dormir por uma dor de cabeça que chegou porque não consigo dormir é, pelo menos, contraproducente.

No fim, consegui um. A velha dipirona – “vai demorar de uma a duas horas pra fazer efeito”, me alertou a moça como se eu fosse mergulhar numa piscina de água oxigenada depois de sofrer um acidente de moto.

Parando pra pensar, o aviso dela até faz sentido. Parte da auto-medicação é a necessidade urgente de se sentir melhor agora – nesse momento. Com as filas gigantescas para uma consulta médica pública, as dores de cabeça com convênios e os constantes atrasos em clínicas particulares, é compreensível que ninguém queira se submeter a uma consulta pra receber o mesmo diagnóstico do seu amigo hipocondríaco – é uma dor de cabeça (eu sei que é uma dor de cabeça, por isso que vim aqui!), e pegar a receita de um analgésico para tomar de 8 em 8 horas.

Você sabe que auto-medicação mata – tá, não é um Diazepam uma vez na vida que vai te dar esquizofrenia – mas vocês já ouviram os dados algumas vezes na vida:

  • 50% dos remédios vendidos no mundo são dispensáveis ou inadequados para o tratamento (OMS/2002               *);
  • Os medicamentos são os maiores responsáveis por casos de intoxicação no Brasil, seja pela superdosagem ou pela adesão a tratamento não-indicado por especialista (SINITOX/2000*);
  • 70% dos pacientes de UTI não conseguem absorver completamente os princípios ativos ministrados por terem se submetido à automedicação durante toda a vida (Fleury/2010*)
  • 20 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por complicações decorrentes da automedicação (CASA GRANDE et al/2004*)

E, porque não, um vídeo feito pelo Conselho Federal de Farmácia sobre automedicação:

 



Referências (por ordem de aparição no texto):
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas sobre medicamentos. Ginebra, 2002;
SINITOX – Sistema Nacional de Informações Tóxico – Farmacológicas. Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento: Brasil, 1999. Fundação Oswaldo Cruz/ Centro de Informação Científica e Tecnológica. Rio de janeiro, 2000;
FLEURY, Marcos. Os riscos da automedicação. Disponível em: <http://marcosfleury.wordpress.com/2010/01/23/os-riscos-da-automedicacao/>. Acesso em 02 de julho de 2012;
CASA GRANDE, E.F., GOMES, E.A., LIMA, L.C.B., OLIVEIRA, T.B., PINHEIRO, R.O. Estudo da utilização de medicamentos pela população universitária do município de Vassouras(RJ).Infarma,v.16, n.5/6, p. 86-88, 2004;

Opinião

Já se faz um ano que eu vim para o Mato Grosso do Sul, e deixei a minha Minas Gerais, depois de passar por tantos cantos desse Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, o Distrito Federal. E nesses dias, eu nunca me senti tão vulnerável. É simples, não existe Estado no Mato Grosso do Sul.



Já precisei do Estado como advogado, no caso de uma grávida precisava de um remédio para sobreviver, ela e o bebê. Já faz três meses que o que era um feto se tornou um ser humano, nascido e vivo e, com uma liminar, um embargo de declaração e uma execução processual, ainda não se viu a cor do remédio – nem mesmo resposta alguma do Estado, ausente em todos procedimentos fora a contestação da inicial.

Não é só o Estado representado pelo Procurador – é o Judiciário Estadual, cujo juiz não move o processo sem que haja um pedido para fazê-lo. Não há o menor respeito pelo princípio da celeridade ou da economia processual. Não há a menor intenção de se fazer algo de ofício. Tive petições apagadas por acidente no cartório do Fórum, e mesmo com protocolo, ninguém soube me dizer o que aconteceu por uma semana com o pedido de uma medida liminar. Tive petições que demoraram mais de uma semana para entrar no sistema, que é completamente digital.

Já precisei do Estado policial, de várias maneiras distintas. Com uma oficina de som automotivo, cujo som era ensurdecedor a três quarteirões de distância, com uma denúncia de tráfico, com uma denúncia de violência contra a mulher, com uma denúncia de quadrilha de assaltos à mão armada. Uma das vezes, cheguei a ir no destacamento policial duas vezes. Na segunda, pra avisar que não havia mais necessidade – o sargento responsável teve a cara de pau de olhar no meu rosto e dizer que a viatura tinha se descolado para lá. Não, não tinha. Nem mesmo a denúncia de uma gangue realizando assaltos à mão armada provocou alguma resposta. A Polícia Militar afirmou que não era da alçada deles por estarem em rodovia federal, a Polícia Rodoviária Federal, que tinha um posto há 30 km do local não tirou o carro da garagem pra dar um rolêzinho e ver se cruzava com a galera. De todas as vezes que alguma polícia foi acionada enquanto estive presente, não dá pra contar na mão o número de vezes que uma viatura foi ao local: exatamente, zero.

Caetano cantava que o império da lei há de chegar no coração do Pará, mas bem que os bandeirantes da Constituição Federal poderiam fazer uma escala no Pantanal.



Utilidade Pública

Denver-Human-Trafficking

Semana anterior eu comentei aqui da treta envolvendo Luciano Huck, com sua afirmação muito descabida sobre tráfico sexual e como faltou não só tato, mas olfato, visão, audição e qualquer outro sentido que seres humanos tenham no apresentador e sua equipe de assessoria. Fazer só o post parecia pouco, até meio perdido no meio de tantas informações aqui do blog, então resolvi voltar ao assunto de uma maneira pouco convencional para o blog.

Trago aqui dois casos que saíram na mídia mas não foram tão explorados quanto poderiam. O primeiro, mais próximo, ainda é sobre ela mesma, a Copa do Mundo:


(1)

Foto: Ivan Pacheco / Veja.COM

Enquanto tentava se aventurar sem ingresso no Castelão, Dantas, do jornal O Povo, deu de cara com uma situação… complicada. Ele diz:

Um homem se aproxima de Larissa. “E aí, mudou de ideia?”, pergunta. “Você podia vender seu ingresso baratinho para mim, mas você não vende”, responde a garota.
Fica claro que o homem, usando uma camisa da seleção brasileira e um relógio aparentemente caro no pulso havia assediado Larissa anteriormente. “Não te vendo, mas te fiz uma proposta. Você topa?”. “Não quero namorar, não. Não vou ficar com você”, respondeu a menina. A resposta do homem não podia ser mais cruel: “então não posso te dar os ingressos”, e saiu sorrindo e mostrando os bilhetes para a garota.

Não vou entrar em detalhes de exploração sexual/prostituição, ou sobre quem ganha quem perde com a venda de seu próprio corpo, mas soa no mínimo estranho que em plena luz do dia, num dos eventos mais vigiados que já foram realizados nesse país (tá, no Maracanã deu treta com os chilenos, mas a presença ostensiva de policiais é intimidadora), um sujeito tenha a audácia de tentar cooptar uma mulher, se aproveitando da sua situação financeira, para vender seu corpo – em troca de um ingresso que pode ter valido.. R$30.

Mas aí você me diz que prostituição não é crime. Pois é, amigo. Prostituir-se, seja você homem ou mulher na sua carteira de identidade não é crime. Mas a história não termina aí. Diz o menino Código Penal lá pro art. 228:

Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Trocando em miúdos: se uma prostituta se oferece pra você, na lei tá tudo certo, tudo tranquilo. Mas se você joga a ideia para uma pessoa, meu amigo – xilindró. Não vou ser hipócrita com o Dantas, comprar briga naquelas alturas do campeonato seria contraproducente para ele, para o trabalho dele e até para a garota.

Mas chega a ser surreal que alguém cometa um crime que tem mais que o dobro que a pena de desacato (alegação que levou milhares para a cadeia durante as manifestações, cuja pena máxima é DOIS ANOS) no meio de tantos policiais e profissionais de mídia. Não se levante de raiva ainda não – tome um chá, pegue esse comprimido e acompanhe esse outro caso que te trago.


(2)

Foto: Governo Malaio

Talvez não tão impressionantemente assim um caso que chocou o mundo não saiu na mídia brasileira, nem online, nem de papel, nem mesmo em blogs. Digo ainda mais: nem mesmo uma postagem pública no Facebook foi feito no Brasil noticiando esse tema. Chato, né?

Vou resumir a parada toda: Dia 9 de maio, sexta-feira. O diplomata da Malásia na Nova Zelândia, Muhammad Rizalman bin Ismail, achou que seria uma ideia sensacional seguir uma mulher, nove anos mais nova que ele, estuprá-la e assaltá-la. Questionado pela Justiça, alegou imunidade diplomática e fugiu de volta pra casa. Simples assim.

A situação é tão esdrúxulam que o Ministro de Relações Exteriores da Malásia (país do diplomata) foi obrigado a dizer o óbvio para redes internacionais: “Só porque ele é um diplomata não quer dizer que vai sair impune, imunidade diplomática não serve para cometer crimes”. O governo malaio, embora possa se tornar responsável pelo processo em seu país está pensando seriamente (notícia divulgada hoje, pelas mãos do Ministro de Relações Exteriores, está pensando seriamente em devolver o diplomata para que o processo judicial corra na Nova Zelândia – e olha que isso envolve extraditar um cidadão nacional e que, se não bastasse isso, ainda é de alta hierarquia do governo federal.


A questão é que não dá mais para discutir abuso sexual como se fosse algo da cultura de países distantes, como a Índia, ou discutir prostituição como se fosse algo apenas brasileiro. Os trilhões que o tráfico de seres humanos movimenta começa aqui nos R$30 de um ingresso pra ver um jogo qualquer da Copa e deixar um irmãozinho mais feliz, e permeia toda uma sociedade que aparenta não ligar e não ter limites.

Não é possível se discutir sobre liberdade sexual quando pedir sexo em troca de qualquer outra coisa se torna corriqueiro – ninguém consegue se tornar sexualmente livre sob essa demanda. Essa cultura precisa, urgentemente, ser combatida. Precisamos, desesperadamente, integrar quem vende o corpo para sobreviver à sociedade. É um ser humano. Parte de uma família. Despedaçada, abusada, transtornada – mas gente como a gente. Que corre, que dá um jeito e faz o que pode e o que não pode para viver um dia depois do outro. E não merece ser usada como mercadoria para lucro alheio, sob hipótese alguma.

E se isso acontece, a culpa é cada vez mais minha e sua, que não presta atenção no que acontece no mundo – nem do outro lado dele, nem do nosso outro lado.

História do Sorvete

Myrian Rios, Rachel Sheherazade, Zezé Perrella, Jair Bolsonaro, Romero Jucá, Luiz Carlos Heinze, Eduardo Azeredo, Cibele Baginski

Todos esses nomes evocam histórias que chocaram, às suas maneiras e em seu devido tempo. Todas essas histórias compartilhadas num misto de impotência, incredulidade e revolta, que geraram notas oficiais de repúdio, manifestações populares, desabafos de personalidades e apuração da mídia, seja ela a imprensa ou alternativa durante dias e até alguns meses.

Em todos os casos dos indivíduos em questão, foram exigidas muito mais do que explicações: foram exigidas ações das autoridades competentes. Passou o tempo. A imprensa cansou. Os blogs cansaram. Até mesmo os militantes arrumaram outros motivos para perderem a cabeça em seus discursos de padaria matinais – sim, discursos de padaria.


A livre manifestação política, o direito de opinião e os debates políticos cada vez mais parecem aquele discurso de padaria do interior em novela, no qual aquele candidato eterno à oposição ataca quem está no poder com frases de efeito e caretas, com direito a xingamentos variados, enquanto uma porçãozinha de pessoas bate palmas e concorda com tudo que o candidato diz em seu palanque improvisado. A partir daí todos vão para os seus trabalhos, comentam um pouco o assunto na hora do almoço e nada mais acontece, e no outro dia de manhã, todos estão lá novamente, ouvindo outro discurso, nem sempre tão brilhante ou condizente com a verdade assim, mas concordando e fazendo murmúrios de aprovação.

Nada muda, esperamos que o mundo ajeite as coisas por si mesmo – se foi pelo jeitinho que uma pessoa duvidosa entrou num cargo eletivo, por um jeitinho ela não vai conseguir causar muito estrago. Uma lei sem pé nem cabeça foi criada? Ignoremo-la, logo todos esquecerão que ela sequer existiu. Um presidente de Comissão é manifestamente contra os interesses dessa mesma comissão? Deixemo-lo lá, em breve haverá nova divisão de cadeiras e a gente cuida dele. Um helicóptero cheio de cocaína? Deixa rolar, um dia a Justiça descobre de quem é, meia tonelada a mais ou a menos no país não vai fazer tanta diferença assim. Querem voltar com um partido da ditadura? Essa juventude, viu, alguém precisa falar com eles…

E assim seguimos, responsabilizando uns aos outros, ao Estado, à Polícia Militar, às forças divinas ou até mesmo ao karma. Mas seguimos. Para algum lugar, para onde eu não sei. Rumo à justiça? Talvez. Não dá pra ver daqui. Somos um rebanho de ovelhas sendo levados por alguém com algum destino. Um dia encontraremos o matadouro – ou não. Quem sabe? Quando a gente chegar lá, a gente descobre.


O que, vai ser tarde demais? A gente vê.

A primeira coisa que precisa ser eliminada é o pensamento de “se você discorda de alguma coisa, você é contra nós”. Como os próprios manifestantes dizem, não é por 20 centavos, é por vários motivos (que vão desde o descaso com os serviços públicos até à corrupção, todos válidos) – então todo mundo vai discordar em um ou outro ponto, isso não importa.

A existência de milhares de pautas não torna o protesto ilegítimo – na verdade, pelo contrário, quando não há líderes definidos, não há a quem comprar, e os políticos no poder estão sempre ameaçados.


Segunda coisa: O ódio pela mídia. Até agora 90% das coberturas (incluindo as 4 nacionais) sempre separaram manifestantes de vândalos. Alimentar ódio pelas 4 “grandes” (Globo, Record, Band e SBT) vai trazer mal-estar a um instrumento poderosíssimo que está em nossas mãos.

Terceiro: Ódio pelos policiais. Claro, há babacas no meio dos PMs, óbvio. Mas também há muitos babacas na manifestação. Se os babacas da manifestação são “vândalos” e não manifestantes, os babacas da PM não são policiais.


Havia uma rentável poupança (aquela que na época de Sarney a inflação chegava a 1300% ao dia), havia uma Eletrobrás do povo (mas só os 70% dele que tinham acesso à energia), e uma próspera Telebrás (quando uma linha de telefone usada era trocada por automóveis 0km).

Não está fácil ser rico no Brasil.

Manipular informações é algo usual na nossa convivência – e nem sempre é necessariamente mentir, é visto quase como uma visão positiva ou dependente do ponto de vista. Os números existem a rodo, e as estatísticas hoje podem ser muito mais completas com a possibilidade de se acessar quase todos os bancos de dados oficiais com meia dúzia de cliques.


Todo mundo quer mostrar um paradigma melhor pro cliente, ou pro chefe, mesmo que para isso tenha que mudar um pouquinho qual seja esse paradigma. Isso na publicidade é mais normal do que dar cano em gráfica – desde os 9 em cada 10 dentistas que recomendam uma certa pasta de dentes (e esconder o fato de que eles recomendam QUALQUER TIPO de pasta de dentes), até aprovação em vestibulares.

Cursinho pré-vestibular é mestre em trabalhar com isso. Se existem muitos alunos, trabalham com o porcentual de alunos aprovados/vagas do curso: 75% das vagas de Direito são nossas, mas são 100 vagas pra direito, tiveram 75 aprovados. Claro que eles não avisam que tinham aproximadamente 350 alunos prestando Direito, e a porcentagem mais realista de aprovação deles foi de 21% dos alunos que prestaram.

O marketing digital também é cheio disso. Hoje mesmo vi um dado de que apenas 5% dos brasileiros reclamam das empresas nas redes sociais. Nossa, que povinho parado, né? O problema é que só 45% dos brasileiros tem acesso à internet. Desses 45%, apenas 38% acessam a internet diariamente, o que é um tempo além de jogar CS e Farmville. Isso quer dizer que apenas 17% dos brasileiros tem acesso constante na internet para ter tempo de reclamar sobre empresas. Oras, o dado final é que praticamente 30% dos brasileiros que tem acesso diário à internet reclamam nas redes sociais. Um terço é muita coisa, não?

E qual o problema dessas manipulações de dados? Com a informação errada, ou pelo menos com o ponto de vista errado, investimentos tidos como certos vão por água abaixo, publicidades para atingir um público-alvo falham miseravelmente e a empresa vira vilã ao invés de ser consumida e campanhas políticas e evangelísticas inteiras não tem resultado nenhum.

Ter a informação e não saber geri-la pode ser pior do que não ter informação alguma e ser cauteloso. Cuidado no que for falar pro seu chefe, ou pro seu cliente só pra poder cobrar um pouco mais no serviço.

Uma característica dos movimentos sociais, assim que começam a crescer e as diferenças entre os seus membros começam a ocorrer e se tornarem mais palpáveis são os rachas. O MST se divide praticamente a cada três anos, dando origens a movimentos mais radicais e mais conservadores ao mesmo tempo. Os partidos políticos vivem se mesoclisando e não há muitas chances de conversa entre partidos que defendem superficialmente a mesma coisa, como o PV, o quase-criado PEN e a quase criada Rede, todos partidos (e projetos de partidos) criados para lutar pelo meio-ambiente (e otras cositas más). Da mesma forma acontece nas igrejas que foram engolidas por suas ações sociais e políticas, que começam a se dividir acerca de ações, ou de teorias e justificações para fazer o que fazem.


Toda essa divisibilidade acarreta em alguns problemas, principalmente quando essa cultura chega ao poder. (1) Nunca há uma base definida de aliados, ou pessoas que você pode contar, já que para atingir o objetivo final que foi pressuposto lá no começo, começam a surgir mil e um requisitos que não existiam quando se uniram por uma causa comum, requisitos estes que costumam ser contraditórios entre si; (2) Uma política pulverizada se torna uma política inconsistente com alianças feitas de última hora e concessões maiores do que deveriam ter sido feitas originalmente, o que gera; (3) Esvaziamento dos objetivos primordiais de cada grupo ao ser criado já que tiveram que abrir mão de alguns pontos antes considerados essenciais para chegar a algum lugar.

E é um movimento como este que chega ao Congresso Nacional e precisa lidar com todas as dificuldades de satisfazer sua base (aqueles que construíram e vivem pelo ideal proposto) à necessidade de se fazer algo (com alianças moralmente complicadas) – e vemos coisas tão bizarras como o PSOL se aliando ao PMDB no Rio Grande do Sul.

Mas o problema não pára aí. Quando tudo é resolvido pela divisão e pelo ajuste de opiniões e condutas, as pessoas perdem a vontade ou pelo menos a prática do debate e da luta. Quando o PSOL se alia ao PMDB pra conseguir mais cadeiras na Assembleia ou algumas secretarias públicas, ele não está apenas se esvaziando, mas está perdendo todo o seu significado de luta.

E quando um partido deixa a luta em segundo plano, em favor de acordos e posições, acontece algo como aconteceu na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Durante as eleições para a Comissão, que foram abandonadas pelo até então presidente Dutra (PT) e vários outros deputados (Carvalho, Janete Rocha Pietá, Luiz Alberto, Luiz Couto, Padre Ton e Dr. Rosinha), surgiu um movimento, dentre eles o deputado Jean Wyllys (PSOL) e a deputada Erika Kokay (PT) pretendendo fundar uma Frente Parlamentar dos Direitos Humanos, numa belíssima manifestação de sexta série de não-brinco-mais-com-vocês-da-Comissão.


Mas porquê a criação da FPDH é um retrocesso, e o que isso tem a ver com todo o texto acima? Por que o Marco Feliciano foi o ÚNICO candidato à presidência da Comissão, sabe por quê? Porquê nenhum partido, nem o próprio PT nem o PSOL quiseram quebrar suas alianças na base governamental e levantar outro candidato. A politicagem, os acordos e os cargos ficaram na frente da luta e dos princípios dos partidos mais uma vez.

Daí saem com discursos impressionáveis, de luta, de indignação com o sistema que eles mesmos ajudam a manter. É muita cara de pau.

Culpamos o politicamente correto por um monte de coisas. Pela hipocrisia, pelos discursos exagerados e pela chatice do mundo, o descaso com o meio ambiente, a má-fase do Rubinho na Fórmula 1 e qualquer outro evento tão trágico como qualquer um desses no mundo.

Acho um pouco vazio esse discurso de que a culpa é do politicamente correto, e as falhas dele se mostram óbvias em fatos que sucederam nos últimos dois dias. Pouco menos de 12 horas depois da confirmação de morte do Hugo Chávez, descobriram Alexandro Magno, o Chorão, morto em seu apartamento.


Dois eventos trágicos, dois eventos fortes e que mexem bastante com os ânimos brasileiros. Primeiro porque a morte de um político nunca é um fator biológico, mas político. Não demoraram a pular pessoas exaltando todos os momentos de esquerda de Hugo Chávez e menos ainda pessoas fazendo piadas acerca da morte. E no caso do segundo porque bom, Charlie Brown Jr. era uma banda bem específica, e como toda banda popular atraiu nos últimos anos uma porrada de haters – afinal, tudo que é pop, é ruim. Enquanto fãs choravam e lamentavam a morte, novamente milhares de piadas surgiram.

E toda morte é a mesma coisa. Gente chorando, gente que brinca e que ri, e gente que reclama de quem faz piada – e dessa vez, muitos dos que faziam piada com Chávez pediram respeito ao Chorão, e muitos que pediam respeito ao Chávez, fizeram troça com a morte do vocalista.

Será que existe um limite pra piadas? Existe uma linha divisória que mostre com o que se pode brincar e o que não se pode? Até onde vai a necessidade de se abster de comentários por causa de um respeito? Qual o limite pra buscar popularidade – e, talvez, o mais importante, o que separa uma piada de bom gosto de uma de mau gosto?


Não é fácil estabelecer uma linha. E nem é tão simples como dizer a internet é livre; ou as pessoas são assim mesmo; ou ainda apelar pro a morte é sagrada. Existem comentários que você vai rir, e vão parecer quase uma homenagem, dependendo de quem é o falecido. A questão é que sempre vai ter alguém que vai ser inconveniente – inconveniente a ponto de detestar qualquer piada, inconveniente a ponto de não ter tato e soltar alguns comentários mal-vistos.

Na dúvida, não faça nada na internet que possa te prejudicar. Não é raro pessoas serem demitidas ou processadas por comentários totalmente desnecessários no Facebook ou no Twitter. Teve uma sacada genial? Pense duas vezes. Mostre pra amigos. Se pá, se rolar, poste. Se não, fica com seus bróderes. Eles vão se chatear, mas logo passa. A internet pode até ser um lugar de liberdade que você pode fazer coisas que não poderia ou teria coragem de fazer ao vivo, mas isso não quer dizer que seja um lugar que não existem consequências.

Afinal, mais detestável que qualquer piada é a tiradinha comercial pra tentar captar clientes. Unhas fúnebres em homenagem ao Chávez e aproveitando para o Chorão é pegar muito mais pesado do que qualquer piadinha de mau gosto do Twitter gente, por favor.

Pelo outro lado, se você está em luto, ignore. As pessoas tem liberdade pra não gostar da pessoa que você gosta, e nem todo comentário é injusto ou sacana. Falar que Fulano nem era tão bom assim ou Não gostava das músicas/políticas/bafo dele não é falta de reverência para com um morto. Tenha menos mimimi e viva o seu luto no seu canto.

Renan Calheiros e Marco Feliciano são dois expoentes que refletem perfeitamente o que é o jogo político. Um tem o conhecimento, sabe os podres dos outros e a quem favorecer para continuar no poder, o outro tem uma massa de manobra gigantesca que até poucos anos era impensável na política.


Renan Calheiros é filho da política dos anos 90, aquela de Sarney e de Collor que ainda funciona. Aquela mesma que legitima Paulo Maluf até hoje, e faz a opinião deste último ser considerada e importante para se entrar e se estabilizar na política nacional.

Já Marco Feliciano é um dos desbravadores de uma não-tão-nova política messiânica, que exalta os seus líderes como se fossem os Salvadores do Universo –assim como fez JK, Jango e o próprio Getúlio Vargas; o que ele trouxe de novo é o público. Enquanto antigamente se baseavam em massas políticas, e ficavam presos (ou relativamente presos) aos seus valores políticos, como Lula o ficou na década de 90, até conseguir se desvincular da imagem de metalúrgico comunista, os líderes religiosos têm uma liberdade maior de transitar entre esquerda, centro e direita – o que se reflete na variedade de partidos que forma a Bancada Evangélica, como conversamos no Prognóstico para 2014.

Um não é menos pior que o outro, e ambos devem ser combatidos arduamente pela política. O velho lobby e a nova alienação não podem estar no Poder para que novas ideias possam chegar e paradigmas possam avançar. Não podemos ser um país que pensa como pensava há 30 ou 50 anos atrás, nem buscar por uma libertação pelas ideias de líderes espirituais que não admitem suas falhas.

Não podemos fazer alianças escusas ou nos vender para nos livrar dos velhos cânceres – isso só irá trazer os mesmos velhos problemas de volta com outra cara. Não podemos fazer oposição burra simplesmente pela legenda partidária, precisamos nos conscientizar da democracia líquida. Não podemos aceitar que só existe esse modo de fazer política, abrindo mão de nossos ideias, precisamos concentrar as nossas forças pela limpeza, pela Lei da Ficha Limpa e pela transparência do Congresso.

Precisamos submeter os congressistas às vontades do povo, não de seus financiadores – não são os financiadores de campanha que pagam seus salários e lhes dão emprego, somos nós. É o povo. Somos nós.


Por isso somos piratas. Por isso não conseguimos registrar o nosso partido até hoje. Nós não nos vendemos. Nós não nos venderemos – piratas não se submetem à forma de se governar vigente. Conheça-nos, aliste-se e entre pra tripulação! ARR!