A sociedade avança, né? Aprendemos a conviver com várias coisas desde que a humanidade surgiu, desde que nós nascemos, crescemos e (alguns de nós pelo menos) amadurecemos. Evoluímos, fomos pra frente, estamos em outro nível.

Nossa sociedade evoluiu. Nossa vida evoluiu. Transporte, saúde, comunicações, educação, política, estamos em um nível de desenvolvimento que a ficção científica a 20 anos atrás não conseguia nem supor – assim como há 5 anos atrás não nos víamos aqui, nessa posição de responsabilidade que temos hoje.


Nós mudamos. O mundo mudou. Mas continuamos no mesmo lugar. Por mais que tenhamos abolido a escravatura, achemos um horror pessoas vivendo em condições subumanas de miséria, nossas leis, nossos costumes nada mais são do que o talião revestido de uma burocracia gigantesca.

O que vale mais, o direito à vida ou o direito à propriedade? Depende. Em flagrante, se um ladrão estiver armado assaltando uma casa, o proprietário pode fuzilá-lo, caso se sinta ameaçado. Dente por dente? Não, involuímos.

Regredimos. Pedimos pelo caos. Esperamos que alguém pise na bola pra descontar toda a nossa frustração de vida em cima de um pedestre que demorou cinco segundos a mais pra atravessar a rua.

Detestamos atrasar mais três segundos pra diminuir a velocidade quando um carro quer atravessar a pista, porque nós esperamos mais cedo por mais de quinze minutos pra conseguir atravessar aquele mesmo ponto. Não, não somos fraternais. Esperamos que o Estado, a Igreja, o Grande Irmão o seja, nós não temos tempo para isso.

Quando nosso pneu fura, maldizemos a décima geração dos motoristas que passam insensíveis, mas nunca olhamos com compaixão ao dono do palio que o motor fundiu na pista do meio. Vivemos para desejar o mal, passar o mal, torcer pelo mal. E nos surpreendemos quando descobrimos a nossa própria infelicidade.

O talião se volta contra nós quando menos esperamos.

Eu vi o que você fez aí

Sim, é responsabilidade minha verificar isso. É, eu não vi nenhuma falha. Sim, se houvesse, deveria comunicar meu superior. Não, não vi falhas naquele dia. O QUÊ? Claro que a culpa não é minha, eu não tenho nada a ver com isso! Eu faço isso todos os dias há mais de 20 anos e nunca tive problema nenhum!

Talvez seja a rotina o problema – segundo a Polícia Rodoviária Federal[bb] no Paraná, 36% dos acidentes na estrada são causados por falta de atenção do motorista , enquanto um estudo científico sobre acidentes agrícolas provou que pouco mais de 32% dos acidentes envolvendo máquinas pesadas foi causada por desatenção.

Às vezes os detalhes nem são tão pequenos assim

Algum tempo atrás uma menina morreu no Hopi Hari[bb] porque a trava de segurança da sua cadeira não estava funcionando – o funcionário viu que tinha algo estranho, avisou o supervisor e ambos deram de ombros ‘Afinal, deve ser uma coisinha de nada’ – e essa coisinha de nada está causando a maior crise do parque nos últimos anos (que já não ia muito bem das pernas).

Mas isso lembra várias outros problemas também – ‘Eu não tinha como fazer outra coisa’, como se desculpou Ricardo Reis, o bancário que atropelou os ciclistas em Porto Alegre; ‘Eu nunca faria isso’, como afirmou Claudio Messias, após matar seu cachorro com uma corda , ‘Eu não tenho culpa’, como se apressa em tirar o seu da reta uma esposa acerca do estado do seu marido, e o célebre ‘Eu não sei de nada’ protagonizado pelo ex-presidente Lula.

Que a nossa tendência é fugir da culpa todo mundo sabe, mas porque a rotina nos faz errar tanto? Porque de repente cansamos de fazer as mesmas coisas todos os dias? Dentre as doenças que entram e saem de moda, a psicologia já apontou várias, como o Déficit de Atenção (pessoas que não conseguem se concentrar), a hiperatividade e várias outras condições que atrapalham a pessoa a realizar tarefas cotidianas – mas eu discordo.

Claro, existem pessoas com problemas – mas nem todo mundo precisa tomar Rivotril e Ritalina. Se você se sente entediado porque (por mil motivos, seja dinheiro, seja falta de opção), acabou num emprego mais chato do que maquinista de Roda Gigante (aproveitando a deixa do parque) e tem sido desleixado – CALMA! Seu único defeito é ter um péssimo emprego (que pode dar dinheiro, se você trabalhar em cartório), não tem nada errado com sua cabeça (até você matar seu patrão a facadas por causa do estoque de produtos).

 Você só precisa de algo que te excite – nerds jogam RPG, baladeiros saem quinta/sexta/sábado, religiosos vão às suas igrejas e insanos pulam de bungee-jump em locais proibidos – e de brinde acabam se livrando de todo o tédio.

Só lembre que tédio não é doença pra ser tratada com remédios, mas pode causar problemas – todos envolvidos estavam num dia normal.