Opinião

Uma jovem de 18 anos foi vítima de uma tentativa de estupro dentro do banheiro feminino do bloco de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) nesta segunda-feira (21). Em conversa com a produção do MGTV, o pai da vítima informou que um homem entrou no local, que fica no campus Santa Mônica, enforcou a jovem e a levou para um box. A vítima gritou e se debateu até conseguir se soltar. O criminoso fugiu. (da reportagem do G1 Triângulo)

 



Esse texto é um desabafo. Um desabafo porque pra mim chega a ser surreal uma tentativa de estupro na FADIR-UFU. Surreal a ponto de eu não querer acreditar. Um prédio que eu passei seis anos e meio da minha vida – que cheguei a passar 18 horas por dia em um semestre, entre aulas de manhã, estágio à tarde, monitorias e mais aulas à noite.

Um prédio que era até chamado de Castelinho da Barbie pelo seu formado – e por ter portas trancadas em quase todos os horários. Um prédio que eu conheci todas as salas de aula, do calabouço até o ‘céu’. Um prédio que eu tive DRs, que eu tive momentos de romance, que eu assisti mais de 3 dias inteiros de One Piece, que eu entrei guri aos 16 anos e saí aos 22 como pós-graduado.

Um lugar que fez parte da minha história a ponto de ter esquecido luvas, fontes de notebook, capacetes (sim), celulares e ter tudo me esperando no mesmo local. Um lugar que conheci todos os cantos, todas as salas de direção, coordenação e até mesmo aquela salinha no canto do último andar da revista de Direito.

Um prédio no qual eu conheci pessoas que me levaram a andar esse Brasil de Criciúma (SC) a Fortaleza (CE). Que quebrou, moldou e remoldou meu caráter. Que foi cenário dos meus primeiros ensaios de fotografia – que eu tomei o laboratório de informática pra mim por três meses enquanto tentava montar esse blog (há três versões atrás). Dei monitorias, recolhi monografias, conheci pessoas fantásticas, criei inimizades, tive brigas, discussões e dormi nas escadas.

Um lugar que se faz lar toda vez que piso mais uma vez, que faço questão de mostrar pra conhecidos, que faço questão de citar e lembrar das histórias e bizarrices, um lugar que hoje não pode mais ser considerado seguro. Um lugar que a nova turma de Direito vai caminhar olhando por trás do ombro. Um lugar onde os alunos de outros cursos, que volta e meia tem aula lá, entrarão em silêncio não mais por estarem no Castelo da Barbie e serem atingidos por um raio reacionário, mas porque ali é perigoso.

Quero de volta as horas de descanso no sofá do Diretório Acadêmico. Quero mais uma vez poder sentar naquelas escadas e atrapalhar quem sobe e desce atrasado pra aula. Quero poder entrar lá e mostrar a placa da formatura da minha turma, sim, a quinquagésima nona turma, e apontar pra todas as salas de aula, lembrando do 1º ao 5º ano os professores insanos, as ameaças de greve, as tretas entre salas, o repúdio dos outros cursos. Quero que os estudantes de direito possam se sentir tanto em casa quanto eu me senti. Eu, meus bichos, os bichos dos meus bichos e todos meus veteranos nos sentimos. Porque, por mais que o direito possa nos ter levado pra caminhos tão distantes dos fóruns e tribunais, todos nós crescemos ali, naquele lugar, entre nossos colegas juristas.



Annie :(


Seja como for pra você, é um começo. Não importa se é um novo dia, ano, ou conjunção estelar. Independente da data ou das marcações, o sentimento e a importância são os mesmos. Você está num começo.

Todo mundo se recicla, isso é fato. Muitos usam seus aniversários. Outros preferem o Natal. A maioria de nós faz isso quando começa um relacionamento. Provavelmente faremos novamente quando trocarmos de emprego, ou nos mudarmos de casa. Alguns cristãos reciclam suas vidas no Natal – é tudo uma questão de perspectiva sobre o mesmo fato: nós cansamos de nós mesmos, mais rápido do que conseguimos suportar.

O nosso problema é que nós estamos em contato 24h conosco mesmos, por mais que tentemos evitar. O desespero de conviver com as más-escolhas e com as consequências de tudo que fizemos, julguemos serem as nossas ações boas ou más. Essa culpa existencial que atormenta desde o mais desesperado suicida ao mais convicto dos monges.

Criamos a tecnologia. Não nos desconectamos do mundo. Trocamos amizades, vemos nossos velhos amigos o mínimo possível e somente em ocasiões especiais – porque os conhecemos muito bem, e a recíproca é verdadeira. Enchemos-nos de afazeres: sociais, acadêmicos, religiosos; tudo para não ver nossas próprias construções derrubadas por falta de resistência.

E então chegamos no ponto que você está agora – no início. Um novo dia. Um novo respirar, um ar mais puro. Cheios de planos e intenções. Dispostos a enterrar toda aquela bagagem que nos tira toda a força, dia após dia. Sabemos que vamos falhar, assim como você sabe que vai ser soterrado pela própria bagunça, mas continua com fé de que vai tudo funcionar.

Não estou falando isso como alguém que já está na sua frente e vê o que será de você – nenhum profeta do caos ou da depressão, como muitos tem borbulhado na internet. Não, eu sou alguém que ainda não está aí. Sou você, ontem, ou ano, conjunção estelar passada.

Eu falo como alguém que já cansou de olhar para a pilha de destroços e sucatas que fui acumulando. Pendências, satisfações, consequências, dores, histórias inacabadas, rancores – eu falo como alguém que já viu tudo isso.

E te adianto: não adianta esconder o lixo. Você pode cavar o buraco mais profundo – mas assim como na natureza, o chorume desse seu lixo vai escorrer e contaminar aquilo que você se alimenta hoje, e que é seu conforto.

Como eu disse, não sou um profeta da desgraça – não trago só o problema, trago a solução: nada.

Isso, nada. A pilha de lixo estará ali até o último dia da sua vida, te confrontando sobre o ser humano que você acha que é. Quando você tiver filhos e eles te desapontarem, você vai levar um tapa na cara por todas as vezes que você desapontou seus pais. Quando você cometer mais um erro, ela estará ali, para te mostrar como você é insignificante, e seria bem melhor que nem tivesse tentado começar.

Alguns chamam de karma. Outros invocam nomes de demônios para se referirem a ela. Eu prefiro chamá-la do que acredito que seja – consciência.

Uma consciência limpa não é um senso de ter feito tudo perfeitamente. Consciência limpa é ter a certeza de que, em algum momento da vida, decidimos que deveríamos fazer o melhor que pudéssemos, e realmente começamos a fazer isso.

É só quando deixamos de carregar esse lixo, ou tentar enterrá-lo, que de fato, o encaramos sob a perspectiva de quem ele realmente é – um lembrete do pior que podemos ser, e do que queremos nos afastar.

Você precisa, urgentemente, parar de se desesperar pelas consequências dos seus atos. Você precisa, mais do que nunca, sair desse ciclo vicioso que é a sua vida, de viver cada dia tentando consertar os erros do dia anterior. O que está feito, está feito. Assuma isso para a sua vida, e tente viver melhor que puder frente a isso.

Encare essa pilha todos os dias. Lembre-se dela a cada instante. Conviva com todos os seus erros com um único objetivo: não acrescentar mais nada a eles. Você vai errar mais vezes, claro. Essa pilha, invariavelmente, vai aumentar, eu e você sabemos que sim – mas você não pode perder o seu foco. Mantê-la estável o máximo que puder. Para que ela não te esmague. Para que você não a tema. Para que você não se veja, mais uma vez, no desespero do qual acabou de sair, quando tudo deu errado.

Porque ego, você sabe que alguma coisa vai dar errado.


*Ego (psicanálise): concepção que o indivíduo possui de si mesmo na realidade; figura que o indivíduo faz de si mesmo frente aos outros.


Não quero ser conhecido como o cara que seguiu a Cristo e cujo bom-coração era completamente fiel a Deus. Não quero ser lembrado como um ícone, um referencial da fé, um verdadeiro mártir.

Porque é mentira. Se eu for conhecido como um ícone, é porque muitos me viram, mas ninguém chegou a conhecer a minha intimidade. Se eu for tido como um cara bom, é porque eu consegui esconder a minha hipocrisia pra debaixo do meu tapete, e não tive que lutar o bom combate.

Eu quero continuar a ser visto como o cara que sempre tá envolvido nas tretas e que tem tanta culpa no cartório que é mais fácil desconfiar de mim do que me proteger do que eu mesmo possa ter me feito. Quero continuar a ser pressionado, lapidado, criticado, e justamente impelido pro Caminho e para a Verdade e não ficar estagnado em meio a um floreio de coitadismo.

Sou eu, sou podre, carnal, e vivo pela misericórdia que se renova todos os dias. Sou vivo, sou humano, pecador e arrependido. Sou inconstante, sou guerreiro, caio tantas vezes quanto for preciso.  Faço minha luta para tentar ser digno, enfrento as minhas tretas e meus problemas para tentar ser limpo – não que eu vá conseguir, mas porque eu não me aguento.

Eu quero ser conhecido como mais um. Mais um dos tantos anônimos que não converteram multidões, não espalharam unções e não expulsaram toda sorte de espíritos. Mais um dos anônimos que são pilares desta fé. Desta Igreja. Deste Caminho. Mais um, não dos que portam trombetas, mas que está agarrado fortemente a uma ou outra dúzia de pessoas, verdadeiros amigos que sabem quem eu sou e para onde vou. E que queiram não só me acompanhar, mas me ajudar e me guiar até lá.

Quero ser útil. Em todos os meus defeitos.

Ontem eu fui fazer uma entrevista numa conceituada empresa aqui da cidade – papo vai, papo vem, espera um tempinho aqui na recepção que você já vai ser atendido. Saqueio e-reader do bolso, sabendo que o já vai ia durar pelo menos uns trinta belos minutos e tentei focar na leitura (Brennan Manning tem seus baixos, durante os livros) – até que apareceu um senhor, que deixou sua pasta esquecida ali nas cadeiras de espera e sumiu.


Ora, eu não sou o cara mais paranoico do mundo, mas depois do 11 de setembro, as coisas ficaram bastante tensas no Rio – e às vezes a gente carrega algumas precauções desse período pro resto da vida. E aí eu parei pra pensar – putz. O que eu quero estar fazendo quando morrer?

Pode ser meio idiota, eu não estava pensando em tudo o que fiz ou deixei de fazer durante a vida, nem no que eu gostaria ainda de fazer – mas em o que eu gostaria de estar fazendo quando morresse.

Afinal, a gente não costuma poder escolher a hora da morte – e ser apenas o cara que lia jornal enquanto esperava pra fazer uma entrevista parecia bastante broxante para mim. Imagine, plantão no meio da novela das sete pra informar que 15 pessoas morreram tomando sol na praia quando um ônibus desgovernado entrou na areia. Eu quero mais, gente. Morrer com emoção. Morrer como se estivesse fazendo algo útil na vida, morrer de um jeito que faça pelo menos alguém erguer uma sobrancelha.

Fazer uma morte que resgate o jornalismo-arte, o jornalismo-moleque, aquele jornalismo de rua. Aquele que cronistas publicavam no jornal e eram mais lidos que as manchetes sobre os fatos. Onde o floreio era essencial para passar os fatos e prender a atenção do leitor. Quando o jornal era feito pra ser lido, não para ser partido em zonas de interesse.

Atiradores invadiram um prédio de uma empresa da cidade e mataram a sangue frio três pessoas e um poeta – que não teve tempo de terminar a sua última obra.

Pra que correr, se os fantasmas
não vão a nenhum lugar sem ti
Pra onde fugir, se as lágrimas
não irão parar de te perseguir

Não importa pra onde você vá
ou o que você finja querer
A verdade está nos seus olhos
pra que todos possam ver

Você pode correr, você pode fugir
mas o que está dentro de você nunca vai sumir
Você pode disfarçar, mas vai cair
enquanto não mudar, você sempre vai se iludir

Pra que correr, se os fantasmas
não vão a nenhum lugar sem ti
Pra onde fugir, se as lágrimas
não irão parar de te perseguir

E por causa disso você vai parar?
desde quando algo te faz desistir?
Quando não tiver nenhum lugar
lembre de quem sempre esteve aí

Será que você já esqueceu?
todos aqueles dias que viveu
Onde foi que você escondeu
a Verdade que te escolheu

Pra que correr, se os fantasmas
não vão a nenhum lugar sem ti
Pra onde fugir, se as lágrimas
não irão parar de te perseguir

Você pode correr, você pode fugir
mas o que está dentro de você nunca vai sumir
Você pode disfarçar, mas vai cair
enquanto não mudar, você sempre vai se iludir


Quando cheguei ela já estava lá, naquela posição que todo mundo detesta. Deu um sorrisinho sem-graça, sabendo do pensamento de qualquer pessoa que a visse naquela posição, não sabendo como ignorar a verdade ou disfarçar que aquilo também a incomodaria.

Tinha vindo desde Fortaleza, e ia para Belo Horizonte, e quando entrei no avião, já em Recife, ela estava lá, na poltrona do meio, sem escapatórias. Eu sentaria do lado dela, mas pelo menos era janela.

Não que ela em si fosse desagradável. Era uma senhora, com seus cinquenta e poucos anos, um casamento duradouro e uns três ou quatro filhos. Vestia-se de maneira sóbria demais, quase resquício de uma época que viajar de avião era uma ocasião especial – seu jeito contrastava com o meu de mil maneiras diferentes.

Eu estava com uma calça jeans velha, já rasgada em alguns pontos do joelho e com a barra esfarelando – meu tênis já fora azul e branco, e estava num azul e marrom que denunciava de longe o tempo que estava sem lavar, meu moleton com escritos em fontes vindas do norte da Noruega denunciava o que tocava nos meus fones de ouvido, e pra completar o pacote, ainda estava com uma bandana de caveiras que fazia todas crianças olharem para mim como se fosse um personagem saído de uma de suas revistinhas em quadrinhos.

Mas mesmo assim, ela me recebeu com um sorriso, e ainda segurou meu livro pra que eu pudesse guardar a mala no bagageiro já superlotado do avião. Conversamos brevemente sobre como as companhias aéreas mudaram, como o almoço uma vez ficou ruim, tornou-se um pacote de amendoins e de repente foi embora, como se nunca tivesse existido.

Quando dei por mim, estava conhecendo mais daquela senhora, que saiu do interior cearense pra tentar a vida em São Paulo e acabou parando em Campinas do que de muita gente que esteve por muitos meses ao meu lado.

E toda história. Ah, toda história é uma história que bagunça com a gente de maneiras espetaculares.

Ela estava voltando da cidade que nasceu – tinha comprado a passagem logo antes de abril, num daqueles saldões de internet, para ver a mãe, que estava pra fazer 98 anos. Ficaram meses conversando, sonhando, planejando com o dia que iam se rever, depois de quase cinco anos. A mãe dizia já contar as horas para receber a filha que tinha ido embora, quando, faltando uma semana pra viagem, no dia 22 de julho, quase cinco meses depois da compra da passagem, confirmação da viagem e liberação para as férias, faleceu.

Foi faltando quatro dias para viajar, com as malas quase arrumadas e todos os presentes já comprados e organizados que esta senhora que estava do meu lado, recebeu a notícia. Que a sua mãe, a guerreira, a última pessoa de sua família, faleceu. Logo agora tão perto, e tão longe.

Eu não sabia o que fazer. O que dizer. Olhava para ela, com os olhos cheios de lágrimas, desabafando pra um desconhecido que sentou do seu lado sobre como foi chegar na cidade que cresceu, olhar para a casa vazia e ter perdido a última pessoa que contava desde a infância e o aperto que me deu no coração foi de uma agonia impressionante. Demos as mãos, conversei um pouco com ela, a tranquilizei, e depois de um sorriso e algumas palavras de oração, ela se cobriu. Fechou os olhos e dormiu.

E eu não consegui me concentrar mais em nada.

As palavras sempre foram meu refúgio, meu livramento. Sempre fui covarde, e quando vi que estava perdido, fugi pro meu esconderijo. Foram nas maiores dores que escrevi os meus melhores textos. Foi nos momentos de mais agonia que eu expressei de uma maneira praticamente perfeita tudo o que eu queria, e foi em momentos como esse que eu encontrei pessoas que se sentiam assim como eu, e fiz as mais fortes amizades.

Quando comecei a sentir a agonia dos últimos dias, logo corri e comecei a escrever. Só que não contava que eu iria perder isso. Já era tão difícil conseguir escrever de modo a acompanhar meus pensamentos, que comecei a digitar. Digitar cada vez mais rápido, digitar num suspiro agoniado, que fazia o corretor do Word trabalhar de forma que quase travava o programa. Digitar sem pausa pra respirar, sem tempo pra olhar pontuações, sem ler o que saía. E apertar o enter para publicar, como dar a descarga e mandar toda aquela lista de pensamentos embora, para não sentir as náuseas que aquele fedor do desespero das minhas palavras me provocava.

Só que a vida tem todo um jeito trágico, se não fosse cômico de lidar comigo. E, ao mesmo tempo que me deu situações que me fazem desesperar para escrever e desafogar todo esse ímpeto de palavra que existem dentro de mim, me tirou, mesmo que temporariamente, a velocidade. Não estou só com a mão direita imobilizada. Eu estou sem a válvula de escape. E com pressão me apertando de todos os lados – não resta mais nada a não ser contorcer.

E tentar liberar tudo o que está em mim com o mínimo que eu tenho disponível. Quase nada. Uma medida inútil, desesperada. Mas é tudo o que eu tenho.

Eu gosto de debates – acho que todo mundo já sabe disso. Gosto de perguntar, responder, replicar e fazer perguntas difíceis, e gosto mais ainda de respostas que me façam entrar em crise. Gosto de ser surpreendido pela revelação do que não entendo. De descobrir porque certas atitudes vêm de certas pessoas, e porquê elas pensam assim, porquê vivem assim.

Gosto de entrar em crise com meus conceitos e de me fazerem pensar e repensar tudo o que defini da minha vida (talvez isso seja o medo de estar errado), e nunca tive crises em mudar de atitude e pensamento depois de ser confrontado. Gosto de crescer e amadurecer e de poder agradecer às pessoas que me ajudaram nisso.

Mas eu descobri que crescer, que amadurecer, agir, descobrir qual é o caminho que devo seguir, descobrir a Verdade e não errar, não tropeçar e não estar enganado é só o começo do processo de acertar.

Acertar o caminho não é só não errar, é muito mais do que isso. Saber que sou eu quem tem que puxar a responsabilidade e agir diferente é só o começo da carreira. Afinal, ninguém (fora construções públicas) tem como momento principal a colocação da pedra fundamental. Eu já estar com a minha pedra fundamental não me garante nada, fora dias de chuva na cabeça e areias nos olhos toda vez que ventar. Serei só mais um idiota me vangloriando por ter uma casa construída na rocha, enquanto não percebo que meia dúzia de tijolos não me protegerão de nada.

A verdade é que não basta você estar no caminho certo, se você não sabe como trazer as pessoas pra ele também; e, se você sabe o que é certo, a sua responsabilidade por quem possa estar parado ou alheio é muito maior – afinal, ou ele não sabe para onde vai (Lc 23:34), ou ele está construindo um abrigo de barro, enquanto você faz um de tijolos. Ambos vão ser suficientes; é uma questão de estilo e estética – desde que a pedra fundamental esteja fixada na rocha (e não parar por aí!).

Descobri que quando minha crítica se torna motivo de mágoa, é porque eu falhei – e não soube o quê, quando e como falar. Afinal, a Reforma que eu quero pra Igreja, e pratico em mim não pode, em momento algum, ser prejudicial a alguém (Rm 14:13), de maneira alguma. Não se trata mais de limpar a Igreja, ou de expulsar aqueles que são hipócritas, todos os somos.

Outra coisa que descobri, mais interessante ainda é que Jesus expulsou quem vendia no templo (João 02:14-17), e não quem comprava. Ele nunca apontou o dedo na cara de alguém que comprou um terreno no céu ou pagou o trízimo adiantado e o condenou a lugar algum. Mais interessante ainda é que Jesus não tem atitudes de quem estaria na Marcha Para Si Mesmo ou criticaria quem participa delas. Não criticou alguém que deu todo seu dinheiro para uma instituição (Marcos 12:41-44) que ele veio para modificar (e que iria rejeitá-lo). Ele sempre criticou líderes, não seguidores.

Mas mesmo criticando líderes de instituições e da sua própria religião (o judaísmo), Jesus ainda assim, preferiu criticar Pedro, que estava no Reto Caminho, a criticar Pilatos, representante de toda a sujeira que era o Império Romano – exatamente porque Pedro estava no caminho reto.

Jesus sempre exortou quem tinha conhecimento de causa e mesmo assim falhou, ao invés de criticar quem caiu de pára-quedas. Não poupou críticas aos fariseus, mas nunca dirigiu uma maledicência a quem os seguia.

É dessa parcimônia que eu preciso – saber quem criticar, como criticar e em que momento. Pegar aquele entendimento de que o Espírito dá a cada um revelação suficiente para que a pessoa creia em Deus, e que essa crença se manifesta de diversas formas, e começar a engoli-lo. E tê-lo como verdade absoluta.

É ler Lutero dizendo que é melhor chamar algo demoníaco de divino do que chamar algo divino de demoníaco, e começar a fazê-lo. Modificar o direcionamento das minhas críticas, ser mais compreensivo. E conseguir resumir mais meus textos e pensamentos.

“Essas coisas não podem ser proibidas – uma enorme força de vontade, o sonho de alguém, o fluxo das eras. Enquanto as pessoas tiverem fome de liberdade… essas coisas existirão!”

(Gol D. Roger – One Piece)

Essa frase podia ser aplicada no caso dos cristãos sendo obrigados a abandonar o Sudão; essa frase podia ser aplicada por cristãos fugindo da opressão na Coreia do Norte, ou por missionários entrando cada vez mais em terras muçulmanas. Essa frase poderia ser dita logo após o discurso de Martin Luther King, ou depois que Truman declarou guerra à Alemanha nazista em 1943.

Poderia ter sido dita nas reuniões entre os protestantes que fugiam da Inquisição , ou pelos negros clamando pelo fim da escravidão. Talvez ainda por Tiradentes, enquanto tinha os últimos suspiros, já com a corda da forca em volta do seu pescoço. Tanta gente, em tantos lugares poderia ter dito isso – até mesmo o próprio Gol D. Roger, que estava para ser decapitado, em One Piece.

Mas eu ouço isso e sou remetido às comunidades evangélicas de um país livre, que se é permitido orar nas ruas, fazer caminhadas a favor de uma religião ou um Deus, que é permitido gritar num microfone com alcance de 3 quarteirões até mais de 22 horas, independente de lei de silêncio.

Porque quem exclui, neste país, quem limita, quem tem preconceito, e quem machuca, separa famílias, acaba com relacionamentos e provoca traumas, não é uma força estatal. Não é uma horda proveniente de uma guerra espiritual independente. São os letrados – são aqueles que conhecem a bíblia, que falam de apologética como debatem a possibilidade de chuva. São os que foram a seminários, aprenderam tudo sobre a lógica e a sistemática bíblica, que estudaram os Concílios Romanos e os protestantes, o contexto histórico de todos os livros do Antigo e Novo Testamento, além de uma infinidade de textos apócrifos.

O maior câncer da igreja não são a horda de neopentecostais que não conhecem a bíblia – mas são aqueles que estudaram comentários bíblicos infindáveis, os que debatem a possibilidade de um mandamento sobre comer carne na quaresma e que, se apegando a tantas possibilidades em tantos detalhes de cada versículo desse sistema que é a Bíblia que há muito perderam noção do significado geral.

É aí que esses – formadores de opinião, detentores de cargos – estabelecem algumas regras e limites máximos para a graça e limites mínimos para a salvação. Ao invés de aconselhadores, tornam-se inquisidores; ao invés de pastores, tornam-se juízes penais; ao invés de amigos, tornam-se fiscais; ao invés de irmãos, tornam-se chefes.

Sim, é um desabafo. Construir conhecimento, construir amizades, pontes de relacionamento, construir algo que veio de planos de Deus, levam anos, vidas, rios de dinheiro e pessoas. Mas para usar essa estrutura para si, ao invés de para Deus. E dar desculpa é muito fácil, até a gente acredita nas nossas próprias mentiras.

Sabe aquele dia que você acorda feliz porque teve um sonho bom? Aquele dia que pode acontecer de (quase) tudo – mas que você não vai perder o seu humor[bb], porque sonhou com algo bom e aquela lembrança fica contigo o dia inteiro – mesmo que você não lembre o conteúdo do sonho?

É estranho acontecer isso – você ficar feliz por uma lembrança de algo que você não sabe o que é, mas sabe que é bom.  E aí você fica com aquele gostinho bom, e não importa muito o que foi sonhado, ou o que aconteceu – o que importa é que foi bom.

Se a gente consegue ficar assim com sonhos que a gente não sabe o que foram, não fazemos a menor ideia do que era nem como realizá-los, porque não ficar assim com os sonhos que a gente sonha acordado?

Tão estranho quando ficar feliz com algo que a gente não sabe o que é, é ficar triste com algo que a gente sabe o que é – só não sabe como chegar lá. Afinal, saber qual o destino é quase metade do trabalho (para quem está perdido, qualquer caminho é um bom caminho).

"I have a dream"

Pegue seus sonhos, pegue aquilo que você quer fazer – o mais bizarro que você já imaginou e tente fazê-lo (mesmo que você tenha que aprender coreano ou guarani pra isso). Vá, meta a cara a tapa, faça o mochilão pela Ásia, conheça os lugares onde foi filmado Senhor dos Anéis, faça aulas de parapente[bb], de acupuntura[bb], sei lá, cara. Pira na batatinha aí e se vira. Faça, aja, viva.

Ore. Se não der certo, não fique triste. Faça outros planos, continue agindo por eles, continue orando e buscando o caminho certo – agora que você sabe pra onde ir, não vai fazer qualquer coisa idiota (só algumas).