O capitalismo leva em conta um fator natural muito prático, mas que outros modelos econômicos não previam: a merda. O sistema sempre dá um jeito de se auto-regular, não tem muito saída individual sem se isolar da sociedade. Independente do estado que você esteja, a vida vai dar uma zoadinha contigo.

Não precisa ser rico pra ser feliz, e não precisa ter muitas coisas pra estar tranquilo, isso é uma verdade mais do que batida em toda conversa sobre vida, auto-ajuda e outras coisas afim. Mas quando você tá tranquilo, respira fundo, está acostumado com uma rotina que não te estafa e você basicamente não quer mais nada do mundo, acontece a tal zoadinha pra te balançar.

Living in the car


A zoadinha não é inerente ao capitalismo, são coisas da vida. Você perde o emprego, acontece uma crise econômica, uma doença mais forte, um assalto, qualquer fato que abale sua situação financeira pode acontecer – a diferença no capitalismo é que o sistema está pronto pra isso.

Você precisa (por algum motivo, muitos nem sempre tão egoístas quanto possa parecer) retornar à condição financeira anterior, e acaba dando o sangue pra conseguir um pouco mais de dinheiro pra chegar lá; a gente sempre se vira. É nesse se virar que o capitalismo aposta – e é aqui que está o segredo da manutenção do sistema até hoje.

Quando você está se virando pra voltar à situação econômica antes da sua crise (que pode ser pessoal, local, regional ou até nacional), você aceita condições que anteriormente não aceitaria: mais trabalho, mais peso, menos remuneração, mais esforço e então o dinheiro continua a girar.

Algumas dessas crises são naturais. Chuvas, enchentes e doenças que muitas vezes não havia como prever ou se proteger. Outras, nem tanto – o próprio sistema faz questão de garantir que elas aconteçam pra sua manutenção, e a mais clara delas é a existência do abismo social.

Por maior que seja a classe média, sempre haverão pobres e miseráveis – e a vida não é nem um pouco tranquila pra quem nasce/cresce nessa situação, por vários fatores, causados por um emaranhado de pressupostos que é quase impossível vencê-los:

  1. Trabalho mal-remunerado: o salário recebido nunca vai ser suficiente para manutenção da família sem sacrifícios. Seja ambos pais trabalhando por muitas horas incluso finais-de-semana, seja com filhos trabalhando ou se virando (muitas vezes ilegalmente) para conseguir sustentar a casa e atingir o estado de rotina (quando estamos tranquilos;
  2. A repulsa social: não adianta. Você pode até ter dó e comprar um doce pra ajudar uma criança ou uma adolescente a chegar no estado de rotina – mas quanto mais velhos ficam, a compaixão vira raiva. Independente de mendicância ou comércio ambulante, a gente pega raiva daqueles jovens (principalmente homens) que não arrumam um emprego.
  3. O estado de risco: os maiores esforços para conseguir dinheiro realizado pelas classes econômicas mais baixas se concentram num único objetivo: conseguir morar/viver em um lugar melhor. Isso quer dizer que essas pessoas geralmente moram em lugares perigosos, dominados pelo tráfico e outras instituições paraestatais que se levantam como uma forma de se virar dos outros. O problema é que quando o se virar de alguém dá certo, aquele alguém vira exemplo – pelo bem ou pelo mal.
  4. A meritocracia: a maior consequência do ego no capitalismo – quem chegar primeiro ou mais longe merece mais, independente dos fatores da equação. As vagas nas faculdades públicas, que disputam os desiguais. As vagas no mercado de trabalho, que geralmente são pessoas mais capacitadas se virando num emprego um pouco pior e o não-tão-preparado assim, que busca se manter na rotina.
  5. A corrupção (no setor público ou privado): o lado mais negro do ego se manifesta aqui, e influencia todos os fatores anteriores. A corrupção é a tendência de querer ter um pouco a mais do que se tem – nem que seja um pouco mais de controle sobre as coisas. Ela pode se manifestar no sistema público e provocar o abismo social que traz o estado de risco (3); ou no QI, colocando uma pessoa no trabalho pelos favores que ela pode trazer.

O sistema sempre se encaixa, e sempre se fortalece. Toda vez que acontece uma rachadura, ele é auto-regenerativo – a abolição da escravidão foi uma rachadura, que logo foi cimentada pela marginalização dos ex-escravos. A instituição de políticas públicas como a criação de universidades públicas, com a federalização de várias instituições foi tapada pela meritocracia e criação de vários cursos preparatórios para o ingresso no ensino superior. A criação dos programas habitacionais foi suplantada pela maior especulação imobiliária que se teve notícia desde a reinstituição da democracia no país.

Não importa quem você seja, ou quão importante e confortável seja a sua posição – você é mais uma peça nesse tabuleiro que é um jogo de damas – não de xadrez.


A gente se surpreende quando quer alguma coisa – todo mundo já se pegou de surpresa com algo que fez, quando se tem um objetivo. Chamamos de força de vontade, aquela energia (quase sobrenatural) de fazer algo quando queremos ou precisamos muito. E que força de vontade nós temos quando a crise é financeira. Eu mesmo já fiz muita coisa que não imaginei que faria, quando precisei de verba pra me financiar.

E é cada loucura que a gente faz por dinheiro, pra conseguir dinheiro e ser feliz fazendo tudo o que queríamos fazer – por mais que feliz seja uma palavra traiçoeira.

O desespero pra conseguir dinheiro é tão afobador que existem sites que te dão alguns trocados quando você clica num banner e fica por 30s encarando aquela propaganda – mas quando eu digo alguns trocados, são alguns MESMO. Do último que eu vi, você ganha um DÉCIMO de centavo pra cada TRÊS banners clicados (ficando 30s em cada). É um centavo pra trinta banners, ou seja um centavo por CINCO minutos (de tédio absoluto).