Um Momento pode Mudar Tudo, cartaz
IndicaSanto

No IndicaSanto de hoje Marina Batista traz pra gente o filme You are not you (Você não é você, ou com o título em português, Um Momento Pode Mudar Tudo). Dirigido por George C. Wolfe, foi lançado em 2014 e é a história de uma improvável amizade que surge entre Bec, uma universitária de vida conturbada, e Kate, que tem de uma doença terminal (ELA –  Esclerose Lateral Amiotrófica).

Parêntesis: a própria Marina, neste Moments do Twitter, mostra como a pessoa com deficiência é marginalizada até mesmo em assuntos como abusos sexuais, conforme mostrou reportagem da Folha.



Marina, que tem AME (Amiatrofia Muscular Espinhal), bate um papo com a gente sobre a deficiência física e como os relacionamentos de amizade e familiares acabam sendo desgastados pelo próprio dia-a-dia, e mostra como o filme traz uma série de cuidados e até mesmo a questão da escolha da pessoa com deficiência de definir o seu futuro.

É uma coisa meio que cultural nossa acreditar que todo mundo é obrigado a fazer tudo pelo deficiente. E não é (Marina)

Sobre a convidada:

Marina BatistaMarina Batista é especialista em Design Estratégico de Marcas, twitteira e criadora do site Rodando Pela Vida. Tem vários espaços de interação com o público nos quais tira dúvidas sobre deficiência física e ELA.

Links:

Twitter, Rodando Pela Vida, CuriousCat.

 

 

 

 

 

 

 




Uma vez me disseram que os olhos são a janela da alma. Que se alguém, se souber onde olhar e como olhar, consegue ver quem você realmente é. Deve ser por isso que as pessoas evitam tanto contato ocular hoje em dia, não querem se revelar assim tão facilmente para estranhos. Deve ser por isso que eu tenho tanto medo de olhar nos seus olhos. Não que eu tenha medo de você descobrir quem eu realmente sou (isso você já fez há muito tempo), mas eu tenho medo de ver o que você achou de mim através do seu olhar.

Medo da rejeição, medo do estranhamento – da sua opinião sobre mim, tão assim estampada na sua cara (ou nos seus olhos). Depois de tudo que passou, de tudo que se foi, e principalmente, de tudo que veio, eu tenho medo de nesssa hora, você me rejeitar com seus olhos.

Porque bom. Os olhos não mentem.

Terminou de digitar, e escondeu a cabeça no meio das mãos. Bagunçou os cabelos, sem saber o que fazer direito, e acabou suspirando. Levantou-se, foi até a janela, que se encontrava em pedaços, e saiu. No notebook rosa, continuava a mensagem.

Ele a olhou, como se tivesse acordado naquele momento. Encarou aqueles olhos castanhos que o observavam, com o seu rosto ainda sem expressão – viu aquelas bochechas que tanto mordera, aquele pescoço que tanto cheirara, aquela testa que tanto encostara no seu queixo. Voltou aos seus olhos, que já exibiam um pequeno sinal de dúvida; quiçá receio.


Não precisou dizer nada. Apenas a olhou, e foi como se palavras fossem um tipo de comunicação muito bizarro e rudimentar para eles. Seu, ele dizia, para sempre. E ela respondeu, na mesma sintonia a você eu me entrego. Ficaram nesse refrão, se dando um para o outro, num lugar tão isolado que o tempo não conseguia encontrá-los. Foram horas, foram dias, meses que eles se encararam ali – juras de amor que sabiam que nenhuma delas jamais seria abandonada. Juras de um amor que não se acreditava mais. Amor do tempo daqueles mais idosos, que sempre recordam com um ar saudosista de todas as mazelas de alguns anos atrás, quando tudo parecia ser tão simples.

O pensamento, o olhar, as juras pareceram insuficientes – naquele momento, naquele êxtase, naquela intimidade, todas as promessas e sonhos, todas as juras e desejos pareciam ter se afastado deles. Não foi tentando conter, mas expressar a sua própria falta de expressão, ele suspirou. Não um suspiro de tédio, ou de cansaço.

Um suspiro de quem está no lugar certo, na hora certa e com os neurônios explodindo em agonia para tentar recordar o máximo possível daquele paraíso. Um suspiro de quem já sabe que o amor ali é mais do que já sonhou em encontrar. Aquele suspiro de quem vê, sente e toca em Deus ali, naquele lugar – a três. Suspiro que limpava a alma de qualquer impureza ou lascívia. Estavam os dois ali, se encarando, se amando – suspirando. De uma forma que sabiam que ninguém suspirava, nem mesmo a senhora (ou senhor) saudosista de alguns parágrafos acima. O suspiro de quem já estava completo, porque sabia estar.


Foi ali que se tornaram um. Ali que seus sonhos se colidiram, se juntaram, e explodiram numa tempestade de emoções e sentimentos que os molharam, os embriagaram e os uniram. A realização de estarem juntos, de estarem um. Nenhum da maneira que tinha sonhado, ou desejado – nenhum outro jeito seria tão perfeito. Os dois ali – em um. Sozinhos – juntos com Ele que os observava, provavelmente sorrindo. Sorrindo e suspirando. Aquele suspiro de quem sabe o que está fazendo – e vai fazer o melhor.

Foi o último adeus. Não, não. A gente ainda se veria muito, se encontraria e se despediria muitas vezes, e… é. Na verdade, este foi o último adeus, pelo menos daquele jeito. Foi o último adeus apaixonado, o último adeus com ela.

A gente sabia que ia ser assim. Mesmo antes de chegar lá, mesmo quando eu toquei a campainha e ela tinha saído pra comprar comida, mesmo enquanto ela preparava para mim, e mesmo depois de comermos juntos, a gente sabia que ia ser assim. Por isso as palavras saíram difíceis. Por isso as conversas foram recheadas de enormes silêncios.

Foi estranho. Ficar em silêncio ali, naquela mesma sala que a gente muitas vezes não calava a boca. Ficar em silêncio ali, naquela sala que já viu vários filmes com a gente, naquelas paredes que testemunharam nossas discussões e nossas pazes.

Foi seco. Apesar de todas as lágrimas, dos soluços, das verdades ditas, dos desconfortos revelados, dos corações abertos, foi seco demais. Simples demais. Vazio demais. Era como se estivéssemos tentando saborear aqueles pacotinhos de frutas desidratadas. Secos, vazios, amargos. Não éramos assim, mas estávamos assim, neste último adeus. Secos de tanta tristeza, vazios de tanta solidão e amargos de tanta culpa.

Foi o último adeus.



Eu não quero te mudar.

Tarde demais. Eu mudei por você quando te conheci – eu não trato todo mundo assim; eu mudei meu jeito de conversar pra poder passar mais tempo conversando contigo sem o assunto morrer e sem eu ficar com cara de tacho olhando pro facebook, esperando algo mágico acontecer.

Eu mudei meus gostos musicais, porque algumas bandas me trazem você à cabeça, e elas povoam minhas listas de reprodução mais do que as minhas músicas favoritas – que eu custo a me lembrar quais são.

Eu mudei com as outras pessoas, porque eu só falo de você. Tudo tem a ver com você, tem uma história sua, um detalhe do que a gente passou, o que eu acho que você falaria, um sorriso, uma lembrança de você.

Eu mudei meus planos, porque não fazia sentido ter você só por um tempo, se eu podia ter você pra sempre, e ter o seu sorriso me acompanhando todas as noites – e o seu mau-humor logo pela manhã.

Eu mudei meus planos, porque eu quis ver você todos os dias, e me viciei nisto. Em olhar pra você, em conversar com você, fazer você sorrir e brigar comigo. Em te machucar e pedir desculpas. Em falhar, e ser perdoado.

É, é tarde demais pra não querer me mudar. Sem você, eu não estaria aqui.

Não era uma rosa, nem uma violeta. Era daquelas flores que nem tinha nome, nem um pouco dignas de uma princesa que ela deseja ser. Ela não era rosa, nem vermelha, não tendo nenhuma cor de realeza – ela era pura, pura e branca, crescendo sozinha, no meio de uma calçada – um deserto seco e ingrato. Não tinha, à sua volta, nenhum cisco de grama, nenhuma outra rachadura; ela nasceu no único lugar que seria possível algo nascer – um buraquinho que, de tão pequeno, mal a deixava crescer.

Com certeza nenhuma flor, por mais bonita que fosse, ou mais rara, não sabia o que aquela florzinha, tão pequena, tão sozinha, com cara de tão frágil tinha passado para crescer e se desenvolver, chegar até ali.

Sim, como ela era uma flor, era desejada. Mas era desejada pelo simples fato de ser uma flor, por ser bonita, como toda flor é. Tão despreocupadas com suas paixões e admirações, as pessoas a desejavam, mas logo que passavam por ela, continuavam a suas vidas, sem perceberem o que ela realmente era, e qual a sua real beleza.

Tão simples, tão vitoriosa em seu cotidiano. Tão… você.

Já foi pelo sorriso, já foi pelo olhar. Já ouvi dizerem que foi até pelo jeito meio loução dela. Alguns têm uma tara pela cor do cabelo dela, outros gostam mesmo é da bagunça que ela faz. O jeito que ela dança é extremamente apaixonante, deve ter pelo menos uma meia dúzia que para tudo pra olhar quando ela começa a se mexer, eu já vi isso acontecer mais de uma vez.

Mas isso tudo não é nada perto do toque dela; da mão dela na minha, e da cabeça apoiada no meu ombro. Não chega nem perto do que eu sinto quando ela fecha os olhos, abraçada comigo, como se estivesse sonhando com amanhã. Nessas horas, que todo mundo desejaria que o tempo parasse, eu desejo que ele corra mais que nunca, que aquilo acabe logo pra aquele amanhã que ela tanto parece desejar chegue logo, e eu não tenha mais que despedir dela, à noite.

Pra que as conversas, na cama, não sejam digitadas num computador, ou ouvidas através de um fone. Pra que o bom dia e o abraço aconteçam em algum lugar antes do meio-dia, e que a noite seja, pelo menos, a terceira vez que a vejo no decorrer do dia, e não a primeira e última.

Pra que eu não precise demorar quase meia hora depois da janta pra falar com ela, e dizer como foi bom ter saído com ela. Na verdade, dá até vontade de ter um carro, pra ir e voltar escutando música com ela, e podendo conversar mais – já até perdi aquele medo dos silêncios constrangedores (não que eles vão desaparecer). Mas vale a pena tentar passar por eles, quando chegarem, quando é pra te dar a certeza que eu valho a pena.

Ela nunca vai saber que aquele dia que fui buscá-la, era a primeira vez que usei aquele par de tênis – e nem que a última vez que a vi, era ele que eu calçava. Ela nunca descobrirá que esses mesmos tênis estavam nos meus pés quando eu sofri aquele acidente – nem que ela tomou posse completa dos meus pensamentos enquanto eu tentava me levantar do chão.

Afinal, não importa mais se foi agoniado pela futura preocupação dela que eu consegui juntar forças pra levantar, carregar e empurrar a moto dali. Nem vem mais ao caso que eu tentei ligar pra ela, sem conseguir dormir pelas dores no meu corpo.

Nunca alguém se importará que a possibilidade dela estar online me fez acordar sobressaltado e ligar o computador num desespero gigantesco, que só era superado pela frustração de sua ausência.

Porque eu a magoei antes que ela pudesse apreciar tudo isso. Pois este sou eu. E todas essas coisas são como desenhos feitos com a névoa da janela.  Vazios, sem ela. Inúteis, se não houver ela pra dividir e compartilhar.

Ontem foi o dia internacional de se encomendar flores, hoje talvez o dia internacional dos motoboys e garçons de restaurantes chiques, aquele dia em que você planeja um restaurante francês e, por causa das enormes filas que encontra, acaba comendo um hot dog do Paulão, que parece que tem um primo que veio da França. Ou de Franca, o Paulão é meio fanho e você nunca entende direito o que ele quer dizer.

Mas é o dia dos namorados, afinal. Em meio à todo mimimi dos namoradinhos, e dos solteirões convictos (por convicção dos outros, claro), muita coisa sempre é diferente – mesmo que seja um diferente parecido.

Não importa há quantos anos você tenha um relacionamento, não importa quantos relacionamentos você tenha tido, você acaba parando pra pensar em tudo que já rolou dali pra trás – e até lembra daquela negra época de sétima série que você foi quase aplaudido de pé pelos colegas de sala ao trazer uma flor e dar pra menina da oitava que você era apaixonado. Quase aplaudido de pé porque você amarelou na última hora e pediu pra alguém entregar por você, e no desespero, esqueceu-se de assinar.

Mas aí estão todos. Na fila da floricultura, tentando descobrir um meio-termo entre os quinze reais que gostaríamos de gastar e o buquê cinematográfico de flores que custa três facadas e meia – e acabando com um insosso arranjo com 4 botões que custou impressionantes trinta e sete reais (ou 370 dadinhos, como seu cérebro insiste em te lembrar); e a lembrança de ser simples ano que vem. Que se repete desde sempre.

Seja simples, de verdade. Gaste tempo, é mais útil que dinheiro. Seja todos aqueles defeitos que você sempre foi. Eu tenho sido assim já a quase 48 dia dos namorados, mesmo antes de namorar.

A ruivinha me fez entender isso.

O casal da  foto é o Filé e a Jack, por acaso.

Chuva boa é para desejar ter uma casa com sótão sujo, só pra esticar uma coberta no chão e deitar do lado dela, ouvindo as gotas baterem no teto. Talvez mastigando alguma coisa, uma pipoca, talvez um pé-de-moleque caseiro.

Chuva boa é aquela que faz a gente desligar a TV (ou que corta a energia), e nos leva um para o outro – é aquela chuva que vem num dia que o mais importante é deitar do lado dela, e ouvir tudo à nossa volta.

Cochilar, e acordar com aqueles olhos me encarando, com um misto de carinho e graça – fazê-la sorrir com uma careta, enquanto o mundo parece cair no teto acima de nós. Não me importar com o pó acumulado ali naquele espaço abandonado da casa por algumas horas, e senti-la se aconchegando nos meus braços para ouvir quietinha o som da chuva que cai.

Esquecer as contas, as tretas de família, as discussões e toda a crise que nós estamos sendo e lembrar de como é bom ter um ao outro, independente do que passamos pra chegar ali. Talvez possa ser uma tentativa de voltar ao que éramos no começo, talvez uma vontade de simplificar tudo; mas a verdade é que nos amamos – e isso ninguém vai tirar de nós, nem que seja necessária uma chuva e um blecaute para estarmos bem um com o outro.

Eu quero um sótão. Um dia de chuva. Ela em meus braços.