Opinião

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Quando você perguntava a um estudante de Comunicação o que o tinha atraído pra sua área de estudo, o que ele mais tinha gostado e queria fazer, você invariavelmente ouvia a resposta – a redação jornalística. Mistificada por milhares de filmes e produções dos anos 80 e 90, em que super-heróis viviam em meio a colegas jornalistas e gente como a gente destruía governos e corporações, a ideia de redação como ela foi criada, já desapareceu há muito tempo: e só há dois tipos de pessoas que insistem em não perceber isso: estudantes de jornalismo e sindicatos.

Estudantes não quererem perder a visão romantizada de um jornalista correndo atrás de uma pauta com nada mais do que o seu bloquinho (nos últimos anos o smartphone) e um faro apurado para notícias  é perfeitamente compreensível. Todo estudante ou profissional em começo de carreira romantiza a profissão: estudantes de Direito fantasiam suas defesas em Tribunal de Júri, estudantes de Medicina sonham em salvar a vida de um caso perdido, ou pegar um parto impossível e conseguir salvar a mãe e o bebê, estudantes de Engenharia sonham com construções megalomaníacas – tudo isso faz parte. O que não dá pra entender é porque os sindicatos e associações de jornalistas estão fazendo até o momento.


Vamos aos casos:

Dá pra entender, pelos nomes envolvidos e pelas circunstâncias, que não é uma crise de mercado. A Folha passa muitíssimo bem.  O Portal Terra nem se fala. Mas porque essas demissões? E mais importante: Porque as associações de jornalistas estão tão provincianas quanto a OAB? Reserva de mercado pra um mercado que não existe?

O que os jornalistas não perceberam ainda é que não adianta lutar pra obrigatoriedade de diploma e exclusividade de jornalistas em redação – até porque não adianta ter um diploma se não há nenhuma redação para trabalhar. Aí eu te pergunto: porque os Sindicatos de Jornalistas batem tanto na “obrigatoriedade de diploma”? Porque você não ouve nenhum pronunciamento oficial sobre as demissões e sobre “perspectivas de futuro”? Será que o único modo de se fazer jornalismo continua sendo atrás de uma mesa, sendo pago por um único chefe e entregando todas as notícias pra ele, alcançando o sonho da CLT?

Se assim o fosse, o jornalismo não estaria morrendo de pouco em pouco. O que jornais (e aparentemente jornalistas) não entenderam é que sociedade da informação exige um pouco mais do que o mercado de trabalho nos anos 80. Se isso é bom, se é ruim, depende de o que nós vamos fazer com as informações que temos e como vamos planejar o futuro do jornalismo – e isso se faz desde logo, em sala de aula e em assembleias de sindicatos. Preparar alunos para um mercado de trabalho inexistente é hipocrisia, fingir para associados que os velhos tempos vão voltar é sacanagem com quem tá começando agora e tem milhares de sonhos. Não dá pra ensinarmos empreendedorismo? Freelancer? Fazer cursos de reciclagem e aprendizado em equipe? Dinamismo? Precisamos mesmo que todos os jornalistas dependam financeiramente de alguém e não consigam sobreviver como PJs? Se essa é uma possibilidade de futuro, porque não ensinamos isso -dentre várias outras coisas0 aos estudantes, ao invés de fazer a eterna discussão ‘vontade de publicar’ vs ‘medo de perder o emprego’?

Ou é sério que vocês vão ficar todos parados olhando isso acontecer e debatendo em sala de aula como o mundo é injusto?

Utilidade Pública

Denver-Human-Trafficking

Semana anterior eu comentei aqui da treta envolvendo Luciano Huck, com sua afirmação muito descabida sobre tráfico sexual e como faltou não só tato, mas olfato, visão, audição e qualquer outro sentido que seres humanos tenham no apresentador e sua equipe de assessoria. Fazer só o post parecia pouco, até meio perdido no meio de tantas informações aqui do blog, então resolvi voltar ao assunto de uma maneira pouco convencional para o blog.

Trago aqui dois casos que saíram na mídia mas não foram tão explorados quanto poderiam. O primeiro, mais próximo, ainda é sobre ela mesma, a Copa do Mundo:


(1)

Foto: Ivan Pacheco / Veja.COM

Enquanto tentava se aventurar sem ingresso no Castelão, Dantas, do jornal O Povo, deu de cara com uma situação… complicada. Ele diz:

Um homem se aproxima de Larissa. “E aí, mudou de ideia?”, pergunta. “Você podia vender seu ingresso baratinho para mim, mas você não vende”, responde a garota.
Fica claro que o homem, usando uma camisa da seleção brasileira e um relógio aparentemente caro no pulso havia assediado Larissa anteriormente. “Não te vendo, mas te fiz uma proposta. Você topa?”. “Não quero namorar, não. Não vou ficar com você”, respondeu a menina. A resposta do homem não podia ser mais cruel: “então não posso te dar os ingressos”, e saiu sorrindo e mostrando os bilhetes para a garota.

Não vou entrar em detalhes de exploração sexual/prostituição, ou sobre quem ganha quem perde com a venda de seu próprio corpo, mas soa no mínimo estranho que em plena luz do dia, num dos eventos mais vigiados que já foram realizados nesse país (tá, no Maracanã deu treta com os chilenos, mas a presença ostensiva de policiais é intimidadora), um sujeito tenha a audácia de tentar cooptar uma mulher, se aproveitando da sua situação financeira, para vender seu corpo – em troca de um ingresso que pode ter valido.. R$30.

Mas aí você me diz que prostituição não é crime. Pois é, amigo. Prostituir-se, seja você homem ou mulher na sua carteira de identidade não é crime. Mas a história não termina aí. Diz o menino Código Penal lá pro art. 228:

Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Trocando em miúdos: se uma prostituta se oferece pra você, na lei tá tudo certo, tudo tranquilo. Mas se você joga a ideia para uma pessoa, meu amigo – xilindró. Não vou ser hipócrita com o Dantas, comprar briga naquelas alturas do campeonato seria contraproducente para ele, para o trabalho dele e até para a garota.

Mas chega a ser surreal que alguém cometa um crime que tem mais que o dobro que a pena de desacato (alegação que levou milhares para a cadeia durante as manifestações, cuja pena máxima é DOIS ANOS) no meio de tantos policiais e profissionais de mídia. Não se levante de raiva ainda não – tome um chá, pegue esse comprimido e acompanhe esse outro caso que te trago.


(2)

Foto: Governo Malaio

Talvez não tão impressionantemente assim um caso que chocou o mundo não saiu na mídia brasileira, nem online, nem de papel, nem mesmo em blogs. Digo ainda mais: nem mesmo uma postagem pública no Facebook foi feito no Brasil noticiando esse tema. Chato, né?

Vou resumir a parada toda: Dia 9 de maio, sexta-feira. O diplomata da Malásia na Nova Zelândia, Muhammad Rizalman bin Ismail, achou que seria uma ideia sensacional seguir uma mulher, nove anos mais nova que ele, estuprá-la e assaltá-la. Questionado pela Justiça, alegou imunidade diplomática e fugiu de volta pra casa. Simples assim.

A situação é tão esdrúxulam que o Ministro de Relações Exteriores da Malásia (país do diplomata) foi obrigado a dizer o óbvio para redes internacionais: “Só porque ele é um diplomata não quer dizer que vai sair impune, imunidade diplomática não serve para cometer crimes”. O governo malaio, embora possa se tornar responsável pelo processo em seu país está pensando seriamente (notícia divulgada hoje, pelas mãos do Ministro de Relações Exteriores, está pensando seriamente em devolver o diplomata para que o processo judicial corra na Nova Zelândia – e olha que isso envolve extraditar um cidadão nacional e que, se não bastasse isso, ainda é de alta hierarquia do governo federal.


A questão é que não dá mais para discutir abuso sexual como se fosse algo da cultura de países distantes, como a Índia, ou discutir prostituição como se fosse algo apenas brasileiro. Os trilhões que o tráfico de seres humanos movimenta começa aqui nos R$30 de um ingresso pra ver um jogo qualquer da Copa e deixar um irmãozinho mais feliz, e permeia toda uma sociedade que aparenta não ligar e não ter limites.

Não é possível se discutir sobre liberdade sexual quando pedir sexo em troca de qualquer outra coisa se torna corriqueiro – ninguém consegue se tornar sexualmente livre sob essa demanda. Essa cultura precisa, urgentemente, ser combatida. Precisamos, desesperadamente, integrar quem vende o corpo para sobreviver à sociedade. É um ser humano. Parte de uma família. Despedaçada, abusada, transtornada – mas gente como a gente. Que corre, que dá um jeito e faz o que pode e o que não pode para viver um dia depois do outro. E não merece ser usada como mercadoria para lucro alheio, sob hipótese alguma.

E se isso acontece, a culpa é cada vez mais minha e sua, que não presta atenção no que acontece no mundo – nem do outro lado dele, nem do nosso outro lado.

Pics

Eu sei que vocês sabem o óbvio. Afinal, nem teriam chegado onde estão se não soubesse. Revisar os textos, passar corretor ortográfico, conferir as imagens que vai postar, pedir para um terceiro olhar e ver se tá tudo nos conformes, mas… às vezes imprevistos acontecem. E exatamente por imprevistos acontecerem, todos vocês, sejam fotógrafos, social medias, enfim, qualquer produtor de conteúdo pra internet precisa estar atento.

Olha só o que aconteceu com este fotógrafo, com uma página até com número de seguidores bem respeitável. A foto? Bacana. O post? Legal. Mas na miniatura do celular… Abaixo temos (1) a foto na miniatura e (2) a foto completa.




Opa!
Esse sim foi um casamento animado!

 

 

 

Andre_Chang_Ben_and_Shirley


Nasci nos anos 90. Somos um tipo de geração que não tem história pra contar. Não participamos de nada importante – o Brasil tinha um governo democrático, estava se estabilizando economicamente, a corrupção já fazia parte do sistema, as coisas já estavam praticamente todas encaminhadas. Somos uma fase de transição: não deu certo, mas ainda não deu errado.

Acostumamos então a não fazer nada, a esperar. Acreditamos que o amanhã será melhor, que a cura para a violência, a desigualdade e toda sorte de enfermidades será magicamente criada por uma solução genial que não vai causar nenhum impacto negativo nas nossas vidas, e nos opomos a tudo aquilo que nos tire do status quo que nossos pais conseguiram conquistar nessa classe média tradicional brasileira.

Nós acostumamos a olhar para baixo, para os mais pobres, marginalizados, mais fracos e mais desprezíveis, nos assustando quando eles começam a chegar perto, e quando a classe C, nova classe média, começa a consumir produtos e ter um padrão de vida que era restrito à nós e aos ricaços, nos assustamos e pedimos por ajuda: não porque queremos alcançar os ricos e melhorar o padrão de vida, mas porque os pobres estão chegando no nosso nível – e toda boa classe média de verdade tem horror a pobre.

O que fazemos, então, nessa vida medíocre e sem sentido? Ouvimos a história de quem lutou contra e a favor da ditadura, vemos os egípcios e sírios colocarem o país de cabeça para baixo lutando pelo direito de mandar nas próprias vidas e no próprio governo, vemos uma política de relações internacionais meio esquizofrênica do país e – ficamos carentes.

Nós queremos ter histórias para contar, queremos ser importantes, pelo menos por um pouco de tempo. Todo mundo tem histórias. Até o avô bancário tem histórias emocionantes pra contar de uma época em que as coisas eram mais difíceis e nós estamos aqui, vivendo um dia após o outro. Essa vontade de ter uma história pra contar é tão forte, e nos deixa tão carentes que molda toda a nossa vida.

Entramos em religiões buscando experiências sobrenaturais, ignorando o conhecimento científico da teologia a que dizem se filiar; fomos pra manifestações buscando experiências sociais e querendo participar de algo que fosse maior que a gente, seja lá o que for esse algo; viajamos e fazemos mochilão não para nos divertir, mas buscando experiências loucas e bizarras pra contar pra todo mundo e mostrar como somos diferentes; queremos preencher esse vazio – essa necessidade de parecermos importantes no mundo.

Isso nos traz consequências igualmente preocupantes quanto todo esse paradigma: na busca por nos encher com experiências, cada vez mais corremos atrás de ações que não nos enchem porque… não estamos lá de verdade. Estamos buscando um jeito de ir mais longe, de documentar que estamos ali, de buscar algo interessante pra poder aparecer, nem que seja para nós mesmos.

É triste ver que não temos futuro –e não temos porque não queremos.


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Sim, vocês sabem, fui assaltado semana passada, rolou pancadaria, levaram meu celular, mas tô vivo. Como todos os informes da TV, internet, redes sociais e mães preocupadas, fui brincar: vamos bloquear o aparelho, certo? Certo! É fácil, eles diziam. É rápido. Sim, eu caí nesse conto, e liguei na operadora pra ter certeza do que precisava e a atendente informou: Você precisa do nº IMEI (que pra quem não sabe também fica na caixinha do celular) e do nº do B.O.

Ah, beleza. Fácil. Tranquilo. Até eu conseguiria fazer isso. Hoje fui pegar o nº do boletim, todo serelepe e quando penso que não, no atendimento já com a operadora a mulher me pede quase o número da minha cueca.

Então: já foi assaltado? Já perdeu o seu celular e nunca mais encontrou? Beleza, champs, acontece. Pra bloqueá-lo, você precisa de:


  •   Número do Boletim de Ocorrência;
  •   Local, data e hora do Boletim (consta nele);
  •   Delegacia que foi feita o Boletim (também consta nele);
  •   Tenha seu RG e CPF em mãos;
  •   Marca e modelo do aparelho para bloquear;
  •   Número do chip que estava no aparelho quando ocorreu a perda/assalto (independente de já tê-lo recuperado);
  •   Se a conta for empresarial, tenha também o CNPJ da empresa que tem o contrato (mesmo que o aparelho seja próprio);
  •   Número de contato

É isso – e mágica e imediatamente seu aparelho é bloqueado. Boa sorte pra vocês.


As manifestações trouxeram uma multidão de novos olhares e percepções sobre o Brasil. Por bem ou por mal, pessoas em todos os cantos do mundo se surpreenderam com as revoltas que surgiram no país (quase inteiro), desde as menores cidades até as maiores, envolvendo uma turba que lutava por várias coisas.

Independente do que se conseguiu ou não, a informação foi um ponto crucial das manifestações – tanto a falta como o excesso. Se os comunicadores viviam à beira de um futuro que ia do controle extremo da informação de George Orwell (1984) até ao fluxo constante e indistinguível de informações incompreensíveis de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), as manifestações no Brasil tiveram um pouco de ambos na sua formação – e foram essenciais para o seu surgimento, assim como foi o que as levou à ruína.


Boa parte dos brasileiros estava em casa naquela quinta feira, dia 14 de julho quando estourou o terceiro grante ato contra o aumento da tarifa em São Paulo. Deitados no sofá assistindo TV, navegando nas redes sociais sem se preocupar muito com as confusões que estavam tentando tomar conta da capital paulista.

No fundo, todos nós éramos um pouco a favor da redução, todos nós acreditávamos que R$3,20 era um preço muito além do abusivo para o serviço oferecido, mas nem todos nós tínhamos exatamente pelo que lutar – até que começou a pancadaria generalizada.

Um turbilhão de informações invadiu as redes sociais, tanto o Facebook como o Twitter, assim como os próprios sites de jornalismo, que em suas linhas do tempo começavam a mostrar a repressão policial sem algum motivo aparente.

Enquanto os âncoras e a equipe de jornalismo batia cabeça tentando entender se existia algo que tinha causado a fúria da PM, os repórteres in loco repetiam a cada minuto o que tinham visto: A Polícia Militar desceu o cacete numa manifestação pacífica, e começava a atacar a todos que estivessem por ali: manifestantes, lojistas, repórteres, moradores de rua, qualquer um que cruzasse seus caminhos.

Esse foi o estopim para todas as outras manifestações – e foi aí que nós, que não tínhamos até então pelo que lutar, ganhamos o que faltava: uma motivação. Mas não adiantava apenas uma motivação, precisávamos entender o que aconteceu até aquele terceiro ato, ir atrás pra descobrir quais tinham sido os dois primeiros e estabelecer uma linha de luta nas outras cidades.

Mas tudo que a mídia tradicional tinha a oferecer era, até então, um tratamento dos manifestantes como marginais, vagabundos e desocupados que queriam promover a bagunça. Foi aí que surgiram os primeiros grupos de mobilização e de informação. Nesse ponto tivemos o Mobilizados, a mídia ninja e vários outros grupos de apoio.

(1)    O excesso de informações (Aldous Huxley)

Esses grupos de comunicação foram o principal ponto de encontro para novas ideias e agregar novas pessoas ao movimento, além de possibilitar a troca de informações em tempo real.  Isso deu um poder de mobilização impressionante, além de trazer uma organização aos grupos em cada cidade que movimento social nenhum tinha visto – até mesmo grupos de ajuda e resgate foram formados (principalmente em Rio e SP) por socorristas voluntários.  Em muitas cidades, essas manifestações trouxeram recordes históricos de pessoas nas ruas, que dificilmente serão superados num futuro próximo.

Várias pessoas de ideologias diferentes, com histórias de vida diferentes – que a única semelhança que tinham era a cidade que viviam estavam lado a lado por alguns instantes pelo seu direito de manifestar – não era mais por 20 centavos. E foi aí que as primeiras rachaduras começaram a ser expostas.

(2)    O começo do fim

Depois dos primeiros dias, quando todo mundo foi às ruas pedindo várias coisas, os movimentos sociais mais antigos começaram a se preocupar com a efetividade das manifestações. Sem um caminho certo, uma lista de pautas, não conseguiriam trabalhar (eu falei sobre o atraso dessa visão aqui) e o movimento perderia força frente aos governos. Foi aí que começaram a se fechar em grupos menores e disputas entre esquerda e direita; progressistas e conservadores e assim por diante.

Esse clima de desconfiança, de debates intensos e de, muitas vezes linchamentos a filiados a partidos, instaurou uma crise – de repente, toda informação vinha com um QUÊ de perseguição, como se todos se tornassem inimigos uns dos outros.

(3)    O controle das informações (George Orwell)

Neste ponto os grupos se fecharam e deixaram de acreditar nas informações alheias. A velha mídia voltou a ser a vilã, e os vários dias de participação ativa no apoio às manifestações tornaram-se apenas uma faceta hipócrita para desmoralizar os movimentos. Os grupos de esquerda começaram a se afastar dos de direita, porque eles queriam apenas atrapalhar as manifestações com pedidos vazios, e os de direita começaram a se afastar dos de esquerda porque partidos não deveriam participar das manifestações, apenas pessoas.

Nisso, cada grupo começou a filtrar as informações que chegavam, não as divulgando e deixando a grande massa – aquela que fez a diferença e foi pras ruas no começo da história, alienada de tudo o que acontecia. Resultado – passividade, como a história de Orwell demonstrou.

(4)    Conclusão

As reflexões feitas sobre as duas obras sempre pecaram num ponto: elas eram absolutas. Ou aconteceria uma ou outra – e as manifestações no Brasil trouxeram à toda a possibilidade de ambas acontecerem simultaneamente, dentro de grupos diferentes de organização, mas em relação às mesmas pessoas.

Enquanto o manifestante era bombardeado de informações nas redes sociais e na TV, durante a manifestação e nos grupos de mobilização, ele era influenciado pelo grupo a ignorá-las, já que as discussões morreram e o dualismo era absoluto: ou você era x ou y, todo espaço para dúvidas, questionamentos ou individualidade tinham ficado pra trás, lá no começo.

A Revolta da Salada azedou.


A primeira coisa que precisa ser eliminada é o pensamento de “se você discorda de alguma coisa, você é contra nós”. Como os próprios manifestantes dizem, não é por 20 centavos, é por vários motivos (que vão desde o descaso com os serviços públicos até à corrupção, todos válidos) – então todo mundo vai discordar em um ou outro ponto, isso não importa.

A existência de milhares de pautas não torna o protesto ilegítimo – na verdade, pelo contrário, quando não há líderes definidos, não há a quem comprar, e os políticos no poder estão sempre ameaçados.


Segunda coisa: O ódio pela mídia. Até agora 90% das coberturas (incluindo as 4 nacionais) sempre separaram manifestantes de vândalos. Alimentar ódio pelas 4 “grandes” (Globo, Record, Band e SBT) vai trazer mal-estar a um instrumento poderosíssimo que está em nossas mãos.

Terceiro: Ódio pelos policiais. Claro, há babacas no meio dos PMs, óbvio. Mas também há muitos babacas na manifestação. Se os babacas da manifestação são “vândalos” e não manifestantes, os babacas da PM não são policiais.

Diga o que quiser, e olha que eu escrevo isso vestido com a minha camisa vermelha (mas sem a cachaça na mão) do Inter, mas foram os corinthianos que mostraram pro resto do país o que era ser torcedor de futebol.  O choro no rebaixamento, a torcida constante no estádio durante a série B, os gritos, o orgulho de usar a roupa de uma grife que estava à beira da falência.

Não, o Corinthians não é o único time com torcedores que beiram (e ultrapassam) o fanatismo. Não, o Corinthians não é o único time que movimenta cidades, pessoas e traz todos os tipos de choros possíveis para seus torcedores – mas definitivamente, eles tem a maior massa – e por isso foram notados.


Graças ao Corinthians, podemos entender porque, apesar de toda a frustração brasileira com futebol, com a Seleção e com a violência (que antes era restrita aos estádios, agora está em todos os lugares, basta se declarar torcedor), o Brasil ainda é o país do futebol.  Você pode não gostar de futebol. Pode evitar conversas sobre futebol – mas você não será capaz de ignorá-lo completamente.

O futebol é uma festa, é dor é sofrimento. O futebol é como a gente. Os times são mais parecidos com a gente do que imaginávamos – até o Corinthians entrar em cena.

O Corinthians decepciona – o Corinthians erra, o Corinthians frustra. O Corinthians é extremamente humano, real, tocável, porque tenta jogar seus amigos contra os outros pra ele parecer maior e melhor. O Corinthians não aceita suas derrotas, e sempre tem alguém pra culpar pelos seus erros, posando como vítima pra quem aparecer – eles mesmos, que se acham marrentos como o filho da classe média baixa que acha que é da comunidade, mesmo tendo a bola original da Topper, que não custou menos que 80 pratas.

O Corinthians é aquele pré-adolescente que gosta de ser chamado de gente grande, que gosta de ter a atenção toda pra ele e acha que tem a maturidade toda do universo – enquanto o resto dos times é um bando de criancinhas inocentes – a não ser o Palmeiras e o São Paulo.

É, o Corinthians é mais humano do que muitos de nós. E ver como os times são parecidos com a gente nos faz gostar mais ainda desse tal de futebol.  Enquanto isso, o brasão parece bater junto com o meu coração no meu peito. Glória do desporto nacional.

Ainda não é oficial, mas caiu há poucas horas uma bomba no Twitter – Marcos Feliciano (aquele pastor que acha que a África é maldita) está a um passo de se tornar presidente da Comissão dos Direitos Humanos – o excelso Partido dos Trabalhadores repassou a cadeira para seus aliados do PSC (Partido Social Cristão), do qual Feliciano é o maior expoente. Esse cara é um dos motivos que me levou a escrever o post imediatamente anterior à esse, no qual eu falava sobre cristãos políticos – e não sejamos hipócritas, qualquer um que vá entrar, vai ser a voz do próprio Feliciano lá dentro.


Eu não sei muito o que dizer aos ateus, aos grupos LGBT que apoiaram e votaram no PT nas últimas eleições, acreditando que a esquerda seria o menos pior caminho. Não sei o que dizer aos cristãos católicos que definitivamente não são o povo defendido pelo (eu não tenho palavras pra escrever algo aqui sem ser extermamente cínico nobre/excelentíssimo/santo) pastor. Não tenho o que dizer aos cristãos evangélicos que não fazem parte do sistema proposto pela igreja desse líder, e que, ou tendo acreditado que votar nele fosse uma boa resposta ao país, ou que ficaram horrorizados com a votação absurda que ele conquistou.

Parabéns, parabéns. Depois da hipocrisia dos torcedores do Corinthians, vocês estão de parabéns. 2014 está aí e as siglas evangélicas virão com mais força, depois de todo o bafafá que o Malafaia foi capaz de produzir. Vocês podem não acreditar, mas existem pessoas que apóiam que eles tenham espaço na mídia, a qualquer custo, independente do que falem. Sim, existem aqueles que acham que o importante é falar sobre os evangélicos, seja mal, seja bem. Existem aqueles que acham que apesar disso tudo, os holofotes virados para a igreja evangélica vai trazer algo de bom.

E cá entre nós, petiçãozinha nenhuma do Avaaz vai mudar isso – falando em Avaaz, Renan mandou aquele abraço pra vocês.

Por que toda solução difundida na internet sempre é muito simplista? Parece que quanto mais algo é divulgado mais erros graves ostuma ter a linha de pensamento, nunca entendi a lóica disso. Já comentei aqui sobre a desmilitarização da PM, e outra solução mágica que tem sido jogada há muito tempo e agora entrou pras revistas impressas é a solução para a crise na educação.


O sindicato dos professores pede por um aumento salarial – claro, é função do sindicato fazer isso. Na verdade, eu até concordo que um aumento salarial vá colaborar com a melhor qualificação dos professores. Só que o aumento salarial per si não vai ser lá muito vantajoso, e pode ser, em alguns casos até prejudicial.

Saiu em uma revista na semana passada (juro que não lembro qual, se alguém tiver visto a reportagem (na boa, era uma coluna travestida de reportagem) avise nos comentários pra eu poder colocar o link) e a solução máster apresentada pelo jornalista era um aumento salarial a níveis noruegueses. Lembro que os valores apontados era de que um professor de ensino básico ganha, neste país, US$4.420 – e ele propunha este aumento para os professores (incríveis R$9 MIL) ou pelo menos metade (R$5.000), para que os mais brilhantes alunos da graduação sejam atraídos para a área de ensino.

Vamos a algumas considerações.

1)      No Brasil, para dar aula na Educação Básica é necessário diploma de bacharel ou pós-graduação em Pedagogia – e bom, a maioria esmagadora de quem entra no curso de pedagogia acaba em sala de aula, invariavalmente, com raríssimas exceções – logo, os melhores alunos de graduação sempre vão para a sala de aula – talvez fosse melhor um programa de captação destes alunos ANTES do vestibular, durante o ensino médio. Um programa de tutoria, talvez;

2)      A diferença de salário entre o setor privado e o público educacional é de 4,7%, segundo esta pesquisa

Bom, vejamos: se a diferença salarial em média é de 4,7% e a maior causa de um péssimo ensino é exatamente a má-remuneração do professor, as notas entre alunos de escolas públicas deve ser ligeiramente inferior a de alunos de escolar particulares – guardadas as devidas proporções e exceções, certo?

Não. Um aluno de escola pública faz em média, 398 pontos no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, pouco mais da metade de um aluno de escola particular, que faz 519. Se em quase 5% de diferença salarial temos quase 100% a mais de aproveitamento, isso quer dizer uma coisa: o aumento salarial dos professores não é a resposta mágica.


3)      Um salário alto vai atrair gente para a carreira. Pelo dinheiro, pela estabilidade, mas não pela vontade.

Assim como a grande maioria das pessoas fazem direito com os olhos brilhando por um salário de Promotor ou Juiz e não porque gostam e querem participar da área, um salário extremamente acima da média de ensino superior para os professores vai gerar uma busca pelo salário – não pela profissão. Isso vai levar a um número maior de concurseiros querendo dar aula mas sem nenhum interesse em educar, e para quem não sabe, educar não é fácil, ainda mais em escolas públicas.

4)      Ninguém ganhou na mega-sena acumulada. Pelo menos quem ganhou, não doou pro Estado.

Ah, mas políticos ganham salários gigantescos quando são eleitos – ok, estamos falando de o quê? Mil pessoas? Segundo aquela mesma pesquisa que apontei no ponto 02, existiam, em 2006, OITOCENTOS E QUARENTA MIL PROFESSORES no Ensino Básico (1ª a 4ª série). Vamos lá, um professor ganha hoje R$1.834,00, em média. São 840 mil professores ganhando um aumento de três vezes, para atingirmos o mínimo que o jornalista propôs. Se hoje se gasta R$1.540.560.000,00, ou seja UM BILHÃO E MEIO, só com folha de pagamento de professores, sem contar os encargos trabalhistas (que costumam dobrar essa conta, quem é empresário sabe), aumentando três vezes o salário de cada professor, chegaríamos aos gasto pouco modesto de R$4.621.680,00 – ah, é dobrado por causa dos encargos, né? Seriam R$9,25 bilhões por mês.

São 9,25 bilhões por mês em um ano, o que dá na verdade, contando com o 13º – R$ 120.163.680.000,00. Cento e vinte bilhões por ano. O PIB do Brasil, em 2006 foi de R$1,8 trilhão. Ou seja, gastaríamos 10% do PIB só em salários de professores – e adeus estrutura que já é precária, adeus bolsas-famílias, adeus uma porrada de coisas.

Cara, é inconcebível. Teoricamente, praticamente, economicamente e socialmente. Você não pode pegar um valor isolado de um país de cultura história e práticas sociais de uma sociedade e querer comprar um um valor isolado de outro país totalmente diferente.

A solução para a educação? Quem diz não sou eu, mas os próprios professores:

Simples, uma é privada e a outra é pública. Na privada existe comprometimento, enquanto que na pública não. Não me refiro aos professores, mas ao sistema gestor. Como disse um político uma vez ” As agências do Banco do Brasil são iguais em todo o território nacional, por que com as escolas e a educação também não é da mesma forma?”

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