Algum dia um prefeito de cidade pequena caiu em si e descobriu a gigantesca fatia de pessoas que ou não estava afim ou não tinha dinheiro para ir para uma das grandes cidades tradicionais mas que não suportavam o tédio de suas terras natais nessa época (como o tradicionalíssimo desfile das escolas de samba de Uberlândia).

Por uma pechincha (relativamente falando, claro) artistas do segundo escalão se tornam animados embaixadores da cidade, tudo para não ficar parado na época mais rentável para o axé e, bom, para boa parte dos micareteiros é melhor do que ficar em casa assistindo a cobertura do carnaval da BAND. (pensando bem, não seria tão má ideia assim).

BOOM! Deu certo, e se espalhou pelo resto do país e virou moda no interior de Minas Gerais e Goiás. Itumbiara, Ituiutaba, Diamantina, Tupaciguara, destinos que você nunca ouviria falar normalmente se tornaram pontos regionais de turismo, comércio e balada que poderiam desenvolver a região. A não ser que… alguma coisa desse errado no meio do caminho.

O problema é que os motivos para dar errado fazem parte dos motivos pelo que deu certo. Acompanhe:

1)      É atraente porque é barato.

Não acostumadas com um fluxo de turistas, a cidade não tem alta/baixa temporada, o que deixa todo o setor hoteleiro e de turismo em geral relativamente barato e atraente, mesmo com a baixa qualidade dos serviços – afinal, quem vai pra lá, vai pela balada, não pelo conforto.

2)      É barato porque a cidade é pequena

É barato porque a cidade é pequena, e o setor de serviços e comércio não é desenvolvido – não tem quase ninguém na cidade. Se não tem quase ninguém, a prefeitura tem poucos gastos, o que torna tudo muito rentável para a cidade, que com uma margem de lucro maior, pode contratar mais artistas e dar maiores incentivos aos eventos

3)      A prefeitura tem lucro porque a folha de pagamento é enxuta

Com uma folha de pagamento enxuta, não há funcionários suficientes para lidar com muitas coisas banais durante os dias de efervescência, como guardas de trânsito pra fiscalizar carros parados em locais proibidos, fazer vigilância sanitária, blitzes da secretaria de trânsito, atendimento ao público, deixando quase toda segurança pública a cargo da Polícia Militar.

4)      Com a explosão de pessoas, a PM fica abarrotada de tarefas

Com mil coisas a fazer e casos urgentes a se resolver de bêbados dirigindo pela cidade, bêbados fazendo barulho na parte residencial da cidade e bêbados quebrando patrimônio da cidade, muitas contravenções ou até alguns crimes precisam passar por uma vista grossa dos PMs por falta de efetivo. O que é uma janela de uma loja quebrada se há três quarteirões dali um pedestre foi atropelado por um carro que bateu num poste de energia (e deixou o bairro inteiro sem energia)?

Com a impunidade, vem a oportunidade de zoar como nunca seria possível – e mais gente vai à cidade.

5)      Com a cidade entrando em caos, ela entra em crise

Por mais que dê alguns lucros pra cidade, quanto mais cresce a festa e maior o caos, mais dá prejuízo e mais atrapalha os moradores. E a cidade começa a rejeitar essas festas. É o que aconteceu com Caldas Novas depois do último Caldas Country – e do casal transando no meio da rua, e mil outras tretas que deixaram a cidade com cara de Zumbilândia. É o que está acontecendo com Diamantina, que pretende cancelar a programação de Carnaval em 2013.


Esse tipo de evento é auto-destrutivo, sempre. Não adianta. Pode ser legal, pode ser divertido, e uma oportunidade e tanto de pegar gatinhs, e dar uns rolê com uns bródi pra fazer umas lokura – mas não vai durar muito tempo.

Eu lembro das festas de final de ano quando era mais novo – as arrumações antes de juntar na casa dos parentes, a obrigatoriedade do banho a ser tomado, perfume a ser passado (o mesmo perfume todo ano, uma vez por ano), cabelos penteados e camisetas/calças horrorosas que não tínhamos coragem de usar em público.


Apesar de toda a correria, as discussões com os pais e alguns tapas pra aprender a respeitar e obedecer, era genial. Encontrar os primos todos arrumados também, a família inteira em volta de uma mesa toda pronta – mas que ninguém podia encostar antes da meia-noite, a ansiedade pelos presentes, a paciência pra ir conseguindo permissão pra fazer as coisas com o tempo –primeiro ficar perto com os primos, depois abrir o refrigerante, daí poder ligar a TV e de repente já tava todo mundo correndo um pra cada lado, alguns com controles de videogame, cartuchos do Mario Kart e Street Fighter.

Até que, pontualmente em algum momento entre as 23h e 23:30, juntavam-se todos para trocar os presentes de amigo secreto (carrinhos de controle remoto, vasilhas, camisetas, cocos falsos, e no máximo do desespero, caixas de bombom) –cara, isso era muito divertido, até que exatamente à meia-noite, a ceia era liberada – e todo mundo comia junto. À meia-noite. Celebrando natal.

E de repente, tudo se foi. Pode ter sido o tanto de gente criticando o natal, pode ter sido a correria do dia-a-dia, afinal, dia 24 todo mundo trabalha até tarde e no dia 26 já está todo mundo no batente de novo. Pode ter sido eu, que cresci e não sei mais admirar o que é o Natal, ou que me prendo a tradições vazias, ou sou só mais um cara com ideias retrógradas e antibíblicas por gostar do natal.


Talvez seja tudo isso junto. Mas no meio de todas essas dúvidas, quando eu vejo a incredulidade dos meus primos mais novos quando ninguém dá valor pro relógio virar meia-noite, o meu coração se enche de novo – e todas aquelas sensações do passado voltam.

Esse ano, eu tive um natal com meus primos, enquanto todos comiam. E lembrei como o natal era divertido – se existe um verdadeiro sentido no natal, eu não sei. Mas não importa. Já não importa mais.