Opinião

Vocês me conhecem (pelo menos 94% do público do meu blog segundo o Analytics me conhece, e se você faz parte desses 6% perdão por já começarmos a relação assim) então sabem como eu me estresso com fotógrafos. Não, não os fotógrafos amadores, ou aquelas pessoas que compram câmeras DSLR e já se acham profissionais ou quem cobra $20 pra fazer um ensaio. Na verdade é exatamente este tipo  de mimimi que me estressa.



Os novos fotógrafos

Sempre que converso sobre mercado de trabalho e bom, meu papel e o de amigos, a conversa vadia (do verbo vadiar)pro mesmo assunto “ser fotógrafo é complicado, né”. E sim, ser fotógrafo não é fácil (existe algo que o seja?), com certeza. E tem se tornado cada vez mais difícil, devido a inúmeros fatores (que já já eu citarei), e não é à toa que, se a fotografia era responsável por praticamente 70% dos meus rendimentos a exatos 12 meses atrás, hoje é responsável por pouco menos que 32% (se você é parte dos 6% já mencionados ali em cima, eu sou fotógrafo e advogado. Ah, e refrigerólogo) – mas não foram os novos fotógrafos os culpados por isso.

Sim, existe uma multidão de novos fotógrafos. Alguns que não estudaram nada, outros que estudaram bem pouco. Uns vão se guiando pela prática, outros vão se debruçar em tutoriais e guias, e mais terceiros irão a fundo, tentando entender a física ótica, temperatura de cores e possibilidades de iluminação. Sim, a maioria desses novos fotógrafos vão cobrar preços baixos ou fotografar de graça para montar portfólio, se submetendo a condições (muitas vezes degradantes – o que não é raro acontecer com fotógrafos com portfólio montado e milhares de curtidas no facebook). Talvez, na verdade é até bem provável, que as fotos desses novos fotógrafos não tenham a mesma qualidade que a sua, afinal você tem algo que eles, estudando ou não, não tem: experiência.

Duplo clique do Everson Tavares
Duplo clique do Everson Tavares

Pasmem – ninguém nasce com experiência, nem você mesmo, fotógrafo pica das galáxias que lê esse texto a convite de um amigo. Existe uma mania ególatra no mercado fotográfico (como deve se repetir em outras profissões artísticas) que foi comprovada pelo André Rabelo no flickr (leiam o texto completo do Leandro Neves, é fantástico), que insiste em criticar fotos consagradas pela história (e vendidas a US$265k) baseando-se simplesmente em: meu próprio trabalho e como eu faria.

Mas deixa eu te contar um segredo: esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente. Não vão saturar o mercado de uma forma que o seu trabalho se torne inviável, ou você precise baixar o preço ridiculamente. A não ser, é claro, que seu trabalho seja medíocre (da palavra mediano, sem algo especial, que chame atenção, mais um dentre vários do mercado) e você, no fundo no fundo, seja um desses novos fotógrafos, mas está com a câmera à mais tempo que eles. Essa visão de que quanto mais pior, só existe no coração de fotógrafos e fãs de cultura pop.

O grande problema é que a grande maioria dos fotógrafos desiste ou não consegue ganhar seu espaço no mercado porque não está preparado pro mercado. Não adianta ter uma técnica excelente, um tratamento refinado se você não estudou o mercado. Não adianta horas de cursos, vídeo-aulas, workshops e tutoriais se você não frequentou ao menos um cursinho de 12h gratuito do SENAC sobre como estudar, planejar e se posicionar no mercado. Você vai quebrar: e talvez você não seja tão ruim assim.

Clique do Evandro Sudré
Clique do Evandro Sudré

Aí você vê fotógrafos que talvez não sejam tão bons como você (pelo menos segundo você acha), deslanchando e conseguindo contratos e convites melhores – porque você não sabe empreender. Aí você diz mas eles oferecem um serviço a um preço muito menor aff, não tem como competir. Mas meu amigo, a Jogê não compete com o Saldão das Lingeries. A TNG. não concorre com a Fábrica da Moda. A SmartFit não concorre com a academia da esquina ou com as academias públicas que ficam nas praças. E tem mercado para os dois – e não hesito em afirmar que todos estes que comentei que cobram preços altos estão melhor na crise do que os seus concorrentes populares.

Cá entre nós – se o cliente não se importa que o recém-nascido dele esteja roxo como uma beterraba, a noiva esteja laranja como uma cenoura e as fotos sensuais pareçam ter saído de um catálogo de filmes pornôs de extremo mal-gosto, provavelmente ele não seria uma boa adição ao seu portfólio, né?

“Esses novos fotógrafos não vão roubar seu cliente (…) a não ser que o seu trabalho seja medíocre.”

Uma lição: sempre vai ter alguém que vai fazer mais barato (e pior) que você. Sempre vai ter alguém que vai fazer melhor (e mais caro) que você. Saiba se posicionar no mercado com o produto e serviço que você oferece e voilà: você não precisará se preocupar com a 25 de março fotográfica.

As dificuldades de se trabalhar

Você já viu um fotógrafo reclamando – na verdade não é muito difícil ver um fotógrafo reclamando, né. Mas essa é mais genérica: você já viu uma pessoa reclamando dos outros fotografando com celular. Em casamento, puxar um celular durante uma cerimônia é pedir pra ouvir bufadas e reclamações de um profissional contratado praquele serviço. Tudo bem, pessoas fotografando atrapalham, e volta e meia tem um noção que se enfia na frente do fotógrafo pra mandar um snap – já chegaram a pedir pra eu tirar uma foto com o celular deles.

Clique da Mônica Fadul
Clique da Mônica Fadul

Shit happens. Toda profissão tem isso – e a gente é assim nas outras profissões, mesmo que não perceba. O médico enfrenta o tio do paciente que leu sobre um tratamento experimental na Tasmânia no Facebook; o advogado tem o amigo do cliente que fez direito, não conseguiu passar na prova da OAB mas sabe como fazer aquele processo melhor que você (sim, existe); o designer já tem a figura conhecida do sobrinho que mexe nessas coisas de Corel.  E nós temos essas pessoas que insistem em atrapalhar o desenvolvimento do nosso trabalho. Como lidar com elas? Uma dica, tem 16 letras e faz parte da ementa daquele curso do Senac que comentei ali em cima: profissionalismo.

Ah, mas eu tô falando no Facebook, uma mídia pessoal. Claro. Sem sombra de dúvidas. Desculpe, você está certo.



Não, não é tudo perfeito.

Apesar de parecer, não, não está tudo perfeito – na verdade anda mal e piorando cada vez mais. Na internet não existe crise, pelo menos para críticos da mídia, mas empresas (e pessoas) estão cada vez mais cortando gastos. De repente, aquela campanha publicitária não tem mais o orçamento de R$5 mil para fotografia; o casamento com 300 convidados no buffet vira uma festa para a família em casa; o álbum impresso é substituído pelo virtual; e as pessoas passam a ter que escolher entre um bebê-conforto e aquele ensaio de newborn. Sim, isso é uma das grandes dificuldades hoje: fotografia não é mais considerada essencial para o cliente.

Clique do Mak Cézar
Clique do Mak Cézar

Some-se a isso o impacto na alta do dólar sobre os equipamentos fotográficos (de rebatedores a corpos de câmera) e nos serviços necessários (impressão, diagramação, divulgação, freelancers) à equipe fotográfica. Acrescente-se aí que o mercado de fotografia é um dos mais conservadores, e boa parte da responsabilidade disso é do cliente: ele quer a foto que ele viu no Pinterest. Não quer tentar algo novo, não quer ousar: ele quer repetir o que já viu anteriormente.

E, por incrível que pareça, em relação a esses dois problemas, só existe uma pessoa no mundo que pode mudar isso: você mesmo, fotógrafo. Você precisa convencer o cliente da verdade – que a fotografia é sim essencial. Que é sim, legal aquela foto que ele viu, mas que fica bem melhor quando se cria uma ideia nova em conjunto. Por incrível que pareça, só depende de você.



Sugestães*

*eu sei.

Não adianta falar, falar, falar e não dar dicas, né. Então vão alguns locais/pessoas/cursos para vocês se ligarem e desenvolverem mais as suas habilidades.

Curso de Fotografia – autoexplicativo. Tem dicas, técnicas, fala sobre câmeras e ainda dá algumas inspirações legais. Recomendo fortemente ainda acompanhar o trabalho do Pyro, o Everson Tavares, que é um dos membros da equipe.

Photography Marketing (ENG)- o próprio Pyro me indicou este podcast sensacional, disponível no iTunes, sobre marketing fotográfico e possibilidades de mercado pouco exploradas, que podem fazer a diferença no seu trabalho.

IPED – Se você tá com preguiça de ir ao Senac, o IPED tem um curso de empreendedorismo online com um plano gratuito, é simples e dividido em três capítulos.

Planet Black’n’White – Instagram que divulga trabalhos em preto e branco e tons de cinza – pra desmistificar um pouco o lance de que a foto PEB só serve para salvar fotografias coloridas com problemas de exposição. Eles também tem uma página no Facebook.

Clique do Lelo Marchi, d'O Vértice.
Clique do Lelo Marchi, d’O Vértice.

Evandro Sudré – fotógrafo nômade, missionário – com fotografias documentais estarrecedoras.

Mak Cézar – fotógrafo de Uberlândia, especializou-se em fotografia arquitetônica, com fotos de natureza exuberantes.

Nika Fadul – o portfólio dela fala por si mesmo. Juro.

O Vértice – equipe fotográfica do Mato Grosso do Sul, com destaque em casamentos e eventos sociais.

E, claro, a minha página no Facebook. E porque não, um destaque pra promoção que está em vigor até o carnaval:

Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?
Afinal, o leitinho das crianças não vai se pagar sozinho, não é mesmo?

 



Opinião

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Toda profissão tem um pouco de corporativismo. Você raramente vê médicos denunciando erros ou ações de outros médicos, ou advogados criticando abertamente o trabalho de outros advogados. Jornalistas tendem a se proteger, assim como praticamente toda classe de trabalhadores aprendeu, com o passar dos anos, que o outro que está ali não é um concorrente, mas um potencial aliado.

Por mais que o corporativismo não seja bem-visto pela sociedade, fugindo muitas vezes dos padrões éticos das profissões em geral, um pouco de corporativismo é essencial para que se respeite o trabalho da categoria. Você pega: um médico, quando você pede uma segunda opinião, nunca vai falar, por questões éticas e de respeito a um colega, que o doutor fulano está louco. No máximo, ele vai dizer que existem outras opções, sugerir uma linha alternativa de tratamento que seja mais simples, ou menos arriscada.



Um dentista raramente vai pegar um tratamento ortodôntico em andamento realizado por outro profissional, e um advogado que pega um processo em andamento tende a relativizar o que se fez pelo seu antecessor. Por mais que todo observador externo tenha o ímpeto de analisar de maneira fria o trabalho realizado por outra pessoa, esses profissionais tendem a ser um pouco mais compreensivos, na falta de palavras melhores, com seus colegas.

O corporativismo nasce quando você percebe que não é tão simples assim. As coisas não são tão simples assim e não chegaram nesse ponto por mero descuido de um profissional – vários fatores contribuíram para aquele todo que… bom, ninguém gostou muito de ver. As dificuldades técnicas, financeiras, o combinado com o paciente/cliente, os interesses dos envolvidos, tudo isso escapa da visão de um terceiro que só teve contato com o resultado final.

Mas com o fotógrafo não. Tudo isso passa despercebido. Não importa qual foi o combinado com o cliente, o que foi pedido no briefing, quais as limitações de equipamento, o que foi disponibilizado para realizar as fotos, ou todos os fatores externos que contribuem para o trabalho. Fotógrafo quando não está atrás das lentes se transforma num monstro terrível, num ser sem alma que é parente próximo do crítico de culinária – ao se afastar da câmera o fotógrafo esquece de como é seu trabalho e tende a julgar friamente, segundo seu gosto pessoal o trabalho alheio.

Assim como um crítico reclama do excesso de pimenta numa cozinha típica baiana, o fotógrafo reclama da superexposição de uma foto. Tal como um carioca exige coentro até na salada, o fotógrafo pede pela regra dos terços (fibo-o quê?). Da mesma forma que um paulista reclama de ketchup na pizza, o fotógrafo faz cara feia para meia dúzia de marcas de expressão no rosto de uma modelo. Tal qual um mineiro reclama da falta de sustança de um sanduíche como almoço digno, o fotógrafo se exalta com a falta de um contra-luz para destacar as curvas corporais.

O problema de tanto criticar e apontar erros que sempre são crassos (mas que, impressionantemente, tendem a não ser erros, mas frutos de um gosto pessoal) damos a impressão que fotografia é algo fácil. Fotografar um casamento, fazer um ensaio de criança, gestante, casais das mais variadas idades ou a cobertura de um show, espetáculo teatral ou circense, fazemos parecer em nossas críticas que um só profissional consiga fazer tudo isso com excelência sem muito treino ou estudo.



Nós mesmos nos boicotamos. Ao não perceber que o equipamento disponível não era lá essas coisas, ou que essa não fosse a proposta do artista (afinal, meus queridos, sim, a fotografia é uma arte, e portanto, uma visão pessoal do fotógrafo) boicotamos a nossa profissão. Diminuímos nossos colegas, e diminuímos a nós mesmos. É por causa de nossos comentários sobre a concorrência que o tiozinho compra uma superzoom 40x e entra na sua frente enquanto você trabalha tentando fazer um superclose do casal trocando alianças no altar – é você quem fez ele acreditar que ele pode fazer isso.

É por tanto bombardear trabalho alheio, ao invés de ser mais diplomático, que cento e vinte reais para fotografar um aniversário de criança se torna um valor muito alto para o cliente. Pergunta pra um advogado porquê ele cobra tanto pra fazer um habeas corpus. Meu amigo, eu respondo: qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade sem o menor conhecimento jurídico consegue fazer um habeas corpus. Assim como qualquer pessoa consegue apontar a câmera pra um lugar e clicar com a câmera no automático.

Mas é antes e depois de apertar o botão, e antes e depois de escrever o habeas corpus que vem o trabalho de verdade. Procurar o cliente (fazer reuniões na prisão), desenhar propostas de trabalho (idem), planejar a ideia depois de conversar com o cliente (idem), aplicar o estudado (idem), montagem e manutenção do equipamento (idem), posicionamento (base fática), iluminação (base teórico-jurisprudencial), protocolo (tratamento), acompanhamento (edição e novas versões) e finalmente a entrega do produto final (a libertação do cliente).

Talvez, se respeitássemos mais, um ao outro, como profissionais, as pessoas nos vissem como tais. Mas pra isso é preciso tirar o ego do caminho e o rei da barriga, e isso é pedir mudanças demais.