Utilidade Pública

É tão comum ter uma farmácia ao alcance das mãos que se virar sozinho sem ir em um médico tornou-se um hábito não só aceitável pelos seus amigos como recomendado. Você se queixar de uma dor de cabeça é um convite pra receber uma listagem de nomes incompreensíveis de remédios e fórmulas de laboratórios que você nem imaginava que existiam. Resfenol, Doril, Paracetamol, Neosaldina, Dorflex, Advil, Aspirina, Tylenol, Naldecon (que não é bem dor de cabeça mas serve) e mais uma infinidade de nomes bisonhos.



Cheguei na farmácia esses dias porque já estava há mais de 48h com uma dor atrás do ouvido e fui apresentado a um cardápio tão completo de remédios que me deixou até perdido – até que eu resolvi perguntar pra atendente qual daqueles remédios não tinha cafeína. Ué. Sim, a cafeína funciona como um estimulante, um catalisador da reação que faz o remédio ter efeito mais rápido, mas… a minha dor de cabeça era exatamente por falta de dormir. Tomar um remédio que vai me impedir de dormir por uma dor de cabeça que chegou porque não consigo dormir é, pelo menos, contraproducente.

No fim, consegui um. A velha dipirona – “vai demorar de uma a duas horas pra fazer efeito”, me alertou a moça como se eu fosse mergulhar numa piscina de água oxigenada depois de sofrer um acidente de moto.

Parando pra pensar, o aviso dela até faz sentido. Parte da auto-medicação é a necessidade urgente de se sentir melhor agora – nesse momento. Com as filas gigantescas para uma consulta médica pública, as dores de cabeça com convênios e os constantes atrasos em clínicas particulares, é compreensível que ninguém queira se submeter a uma consulta pra receber o mesmo diagnóstico do seu amigo hipocondríaco – é uma dor de cabeça (eu sei que é uma dor de cabeça, por isso que vim aqui!), e pegar a receita de um analgésico para tomar de 8 em 8 horas.

Você sabe que auto-medicação mata – tá, não é um Diazepam uma vez na vida que vai te dar esquizofrenia – mas vocês já ouviram os dados algumas vezes na vida:

  • 50% dos remédios vendidos no mundo são dispensáveis ou inadequados para o tratamento (OMS/2002               *);
  • Os medicamentos são os maiores responsáveis por casos de intoxicação no Brasil, seja pela superdosagem ou pela adesão a tratamento não-indicado por especialista (SINITOX/2000*);
  • 70% dos pacientes de UTI não conseguem absorver completamente os princípios ativos ministrados por terem se submetido à automedicação durante toda a vida (Fleury/2010*)
  • 20 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por complicações decorrentes da automedicação (CASA GRANDE et al/2004*)

E, porque não, um vídeo feito pelo Conselho Federal de Farmácia sobre automedicação:

 



Referências (por ordem de aparição no texto):
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas sobre medicamentos. Ginebra, 2002;
SINITOX – Sistema Nacional de Informações Tóxico – Farmacológicas. Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento: Brasil, 1999. Fundação Oswaldo Cruz/ Centro de Informação Científica e Tecnológica. Rio de janeiro, 2000;
FLEURY, Marcos. Os riscos da automedicação. Disponível em: <http://marcosfleury.wordpress.com/2010/01/23/os-riscos-da-automedicacao/>. Acesso em 02 de julho de 2012;
CASA GRANDE, E.F., GOMES, E.A., LIMA, L.C.B., OLIVEIRA, T.B., PINHEIRO, R.O. Estudo da utilização de medicamentos pela população universitária do município de Vassouras(RJ).Infarma,v.16, n.5/6, p. 86-88, 2004;

Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

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O patinho feio ficou bonito. A órfã pobre se tornou princesa. Crescemos e amadurecemos ouvindo histórias sobre pessoas completamente perdidas, no fundo do poço, que se reergueram. O adolescente que sofria bullying e era trancado no armário da escola se tornou um multi-milionário. A mulher com obesidade quase mórbida que é triatleta. Nos inspiramos nessas histórias do ensino básico ao superior. O jovem advogado que pegou uma causa milionária quase perdida e fez sua fortuna de primeira. O gestor que revolucionou a empresa onde trabalha e quadruplicou seus ganhos pessoais numa trajetória ascendente fenomenal. O ator de uma peça da esquina que tropeça e cai num musical da Broadway.

À nossa volta as pessoas estão sempre ganhando, vencendo. Perdeu 35kg usando Herbalife e foi pago por isso. Investiu 100 dólares no eToro e hoje tem retornos semanais que beiram os quatro dígitos. A riqueza, a beleza, a vitória, todas elas ao nosso alcance. O mito capitalista da meritocracia vive forte, mas vive tão forte a ponto de fazermos questão de fingirmos que acreditamos nele – e de tando fingirmos que acreditamos, acabamos acreditando mesmo. Acreditamos piamente que tenhamos que vencer, independente do que seja esse algo, e que uma vez vencendo, seremos melhores daqueles que nós ultrapassamos pelo caminho. Na riqueza, na beleza, na santidade, nos relacionamentos.

Nos enganamos dizendo que iremos começar a dieta, que iremos economizar dinheiro, que iremos fazer isto ou aquilo, mas no fundo no fundo, ficamos chateados por não estarmos lá no fundo do poço para podermos subir na vida. Se não somos ricos, pelo menos é mais belo ser miserável do que ser medíocre. O miserável conseguiria se reerguer, o medíocre tem medo de perder o que já conquistou na tentativa de ganhar mais.

Conseguimos tornar a mediocridade o pecado mais sujo da pós-modernidade. É mais feio ser o cristão de banco do que o cristão glutão, ou o cristão prostituído – um apelo contra a rigidez da igreja consegue muito mais adeptos do que um apelo contra a insensatez de seus membros, ou contra a violência doméstica. Porque mais do que ter medo que descubram nossos defeitos, temos medo de sermos reconhecidos como conformados.

Nessa gincana pela vida mais bonita, mais vencedora, alçamos à cargos maiores na igreja, buscamos ir mais profundamente nos nossos relacionamentos, damos voltas e voltas para conseguir uma melhor posição no mercado de trabalho, fazemos dívidas para ir um pouco mais longe na viagem de férias (mesmo que tenhamos que vender quase metade dessas férias) e acabamos largando mão das frivolidades da vida.

Na busca pela vida melhor que a dos meus vizinhos, um sorvete não é apenas um pote de sorvete. São 17 reais a menos na conta poupança, são 3cm a mais na cintura, são 18 likes a mais no instagram. Ao postar uma foto de namoradinhos, são cento e tantos likes, uns 16 comentários e 3 ou 4 pedras do recalque alheio das inimigas. Uma foto de estudos, já são pelo menos umas 80 curtidas e 7 ou 8 mensagens de força, além de todos os pontos ganhos em respeito e confiança alheios. Vivemos uma vida de RPG. Fazemos nossas escolhas frente ao nosso destino como rolamos os dados para o Mestre que comanda o que acontecerá. Fazemos escolhas baseadas em benefícios e retornos sociais. Esquecemos que somos, vivemos, convivemos, namoramos e criamos seres humanos. Não estatísticas. Não reais. Não quilômetros viajados. Não memórias – muito menos as falsas, que insistimos em plantar em nós mesmos.

Um apelo à mediocridade, como única salvação em contraponto a uma sociedade utilitarista. A uma sociedade de vencedores. A uma sociedade de vidro.

Um apelo à mediocridade, como única reveladora do nosso verdadeiro caráter. Da nossa verdadeira face. E que uma vez reconhecidos como medíocres, possamos nos ajudar a caminhar, uns aos outros, uns com os outros, uns como os outros. Todos os patinhos feios que não eram cisnes, mas apenas patos de péssima aparência física. Todos os quatro-olhos espinhentos que não eram gênios, nem se tornaram milionários, mas quatro-olhos com rostos esburacados e famílias comuns. Todos os advogados com carro popular que, advogando, conquistaram novos carros populares com o passar dos anos. Todos atores suburbanos que apresentaram peças não-tão-boas assim para um público não-tão-grande-assim e não-tão-refinado-assim. Mas que consigamos olhar a vida que temos com orgulho do que fazemos. Das pipas que soltamos, quando pequenos, mesmo que por 5 minutos. Das vezes em que não perdemos de maneira nã0-tão-humilhante assim no MMORPG, e da fase 78 no Candy Crush. Da paçoquita de sobremesa e das mãos que nos recebem quando encontramos alguém que nos tem como queridos. As amizades conquistadas, todas tão medíocres como nós, e o passado que não-nos-dá-tanto-orgulho-assim.

Sejamos felizes conosco mesmos. Pelos 100 gramas que perdemos em dois meses. Pelo bombom da Erlan que ganhamos de um tio. Pelo lugar vago no coletivo. Pela linha de código que salvou o dia no trabalho. Pelos sorrisos conquistados entre a saída de casa e o retorno. Sejamos felizes com nossa mediocridade. E que ela nos leve aonde nós vamos, e queiramos de fato, ir. Não empurrados, constrangidos. Mas livres.


Mean

É difícil saber quem são amigos e quem não são. É complicado olhar pra tela do computador e decidir o que compartilhar e o que guardar. Por um lado, despejar informações desnecessárias num extremo oversharing que vai ser prejudicial; por outro, afastar pessoas que não estão, por diversos motivos, tão perto da gente quanto gostaríamos – que ponto perdido no meio disso deveríamos nos encontrar?


(1) Redes de confiança

A questão sobre o compartilhar ou não compartilhar é um pouco mais antiga que as redes sociais ou o botãozinho “público/só para amigos” de “sites de relacionamento da internet”. Na verdade, toda a complexidade de relacionamentos interpessoais está exatamente nessa questão – o que compartilhar com fulano? Até onde me abrir? O que ele pode saber?

Ora, o problema não é necessariamente Fulano saber de X – o problema é o que ele faria com X; seria Fulano meu amigo suficiente para, sabendo de X, não frustrar a minha confiança e se aproveitar da minha abertura emocional? Não temos como saber. Mas, se parássemos aí, estaríamos num roteiro de dramaturgia mexicana, não nessa vida que é um pouquinho mais longa e mais complexa que os roteiros de “Amor a Mais de 100 Por Hora”, aquela novela da BAND que ninguém mais lembra.

Quando começamos a nivelar pessoas entre as que contamos segredos e aquelas que não contamos, não estamos apenas afastando aquelas que não são dignas de confiança – estamos criando barreiras entre elas. Explico: se eu conto toda a minha vida para A e B, parte dela para C e só mantenho aparências para D, eu me afasto parcialmente de C e completamente de D. Mas, ao fazer isso e manter A e B perto de mim, eu as afasto de C e D por consequência. Quando contamos segredos para algumas pessoas estamos as afastando de outras de sua convivência. Se A e C tinham uma amizade profunda, eu estou instigando A, para não trair a minha confiança, a manter os meus segredos escondidos de C, por mais prejudicial que isso seja a ambos.

Seria pois, culpa exclusiva de A compartilhar todas histórias com C, se este era seu amigo e confidente há muito mais tempo do que eu com o próprio A? Tenho eu como saber as intenções de A ou fazê-lo, ou, considerando que A tenha agido de boa-fé, a reação de C, mesmo que não o conheça? Confiando em A e B, não estou necessariamente confiando e ratificando suas amizades e redes de confiança próprias, que independam de mim?


(2) Aumento dos círculos de amizade

O problema é que quando acrescentamos o fator “redes sociais”, nós estamos complicando ainda mais a vida. Porque não se basta apenas a compartilhar com 5 ou 6 pessoas que podem replicar a notícia ou história para quem não queremos – é não poder quantificar a quantas pessoas eu estou disponibilizando a história X. O maior ponto positivo das redes sociais é o pressuposto para a sua pior face: hoje não precisamos estar fisicamente próximos de alguém para continuarmos íntimos.

Se estar afastado de alguém não significa perder a intimidade que já tive com essa pessoa, as redes sociais mudam completamente o paradoxo de intimidade e relacionamento. Porque, com o tempo, os locais que frequento e as cidades que moro, eu tendo a aumentar cada vez mais o círculo de pessoas íntimas, que não terão um relacionamento entre si (o que tende a ampliar o problema diagnosticado no ponto (1), Redes de Confiança). Se meus amigos íntimos não tem intimidade entre eles, tendem a conversar sobre o que digo com pessoas que me são estranhas – ampliando ainda mais o número de pessoas que terão acesso àquela informação.

Se essa dificuldade por si só já não fosse um problema, a forma que utilizamos as redes sociais para manter intimidade (ou uma aparência de intimidade) com meus amigos já distantes fisicamente, torna tudo ainda mais complicado. Quer dizer, já estou conversando assuntos íntimos com um número cada vez maior de pessoas, que irá replicá-los para um número ainda maior de amigos – e isso não é tudo.

Como vou manter essas pessoas todas informadas da minha vida, e como vou me informar delas? Haja e-mail ou MSN para falar de tudo. Mas se tivéssemos uma maneira de informar várias pessoas que passei no Exame de Ordem de uma só vez… Exato! Atualizamos status no Twitter, no Facebook, até mesmo no Google+, contando, de uma só vez, pra todos esses nossos amigos íntimos que, sim, agora somos advogados.

“É seu status, não o seu diário”

(3) E quando a bolha estoura?

Mas a vida é um pouquinho mais irônica. Pense comigo: você está então, mantendo a intimidade com diversas pessoas de uma só vez, porque a internet te permite isso, certo? Errado. Quando você tenta ser íntimo “em lote” ou a atacado, você não está sendo íntimo com ninguém. Aquelas suas notícias e as notícias dos seus amigos passam a ser mais um monte de informações que não tem tanta relevância pra você. Tudo bem, aquele sua amiga da 5ª série entrou no mestrado em Análise Macrobiótica de Sêmen Bovino, puxa, que legal. Dá um curtir ali. Mas as opiniões dela sobre a política econômica do governo Paes são sofríveis – sem contar aquele senso de humor das páginas que ela compartilha. E afinal, quem quer saber mesmo que a sua melhor amiga do ensino médio começou o quinto relacionamento e já tem fotos com o novo namorado como se estivessem juntos desde sempre?

Sem contar com a mãe daquele bróder da faculdade, que te ajudou a superar uma ex-namorada, aguentou seus porres de madrugada e foi uma mãe pra você (até organizando sua festa surpresa de aniversário quando você estava longe de casa) tentando te convencer de que o Silas Malafaia é sim, um cara legal, mas incompreendido pela sociedade e governo.

“-Eu saí com alguns amigos semana passada
-É, eu vi no Facebook.
-E eu vou lá naquele lugar em breve
-Vi no Facebook.
-Você tá me stalkeando?
-Não, você que posta demais.”


(4) O que fazer agora?

Admita: você não tem mais intimidade com essas pessoas. Dói, eu sei. Não é fácil perceber que amizades se perderam ou foram embora com o tempo. Mas é melhor lembrar das amizades que você já teve do que sofrer pra manter uma sobrevida numa intimidade que já se perdeu. Se foque nos novos amigos, em outros amigos ou em fazer novas amizades. Não é uma questão de abandonar o seu passado, mas se tocar de que a vida dá voltas, as coisas fluem e as pessoas (inclusive você mesmo) mudam; mudam de cidades, de prioridades, de objetivos, de estilos e de sentido.

Agora, quanto às suas redes sociais, segredos e com quem compartilhar histórias, eis um breve conselho: pode ser mais fácil, ser simplesmente quem é. Se for dar treta de qualquer maneira, prefiro ser detestado pelo que sou – de fato, eu já afirmei algumas vezes: Detesto mal-entendidos. Prefiro que as pessoas me odeiem pelos motivos certos. Não se preocupe tanto assim, afinal, haters gonna hate. Encontre em si mesmo, e em alguns amigos, ponto de equilíbrio. Se lembre que você não é personagem de uma série de TV e não precisa estar envolvido o tempo todo em tretas e histórias cheias de tensão. Você não precisa salvar o mundo de alguém e pode, simplesmente, caminhar para longe da confusão.


Igreja

 AH

Mentiram para nós. Eu vejo agora e é como se estivéssemos olhando alguns anos de mentiras. Nós não somos nada. Não somos geração alguma. Deus não nos separou para conquistar o mundo, e Ele não reservou nenhum propósito dançante ou cantante. Não somos nós que vamos celebrar a glória ou vê-Lo saltando pelos montes para trazer os novos tempos. Não somos nós que vamos conviver com o reinado da besta, seja através de chips ou de códigos de barra implantados na nossa mente.


Não fomos nós que causamos a perdição, e não somos nós que traremos a salvação para toda a Terra. Lembra daquela conversa de “você é especial?” Não, você não é. É como qualquer outro, de Sete a Salomão, de Davi a Nicodemos. Você não vai comandar o Exército dos Exércitos ou advogar pela Salvação. Do jeito que lá vai, nem escudeiro de um soldado raso nessa guerra espiritual você vai ser.

Acostume-se com isso. Engula a verdade ao invés de se apegar às mentiras que têm nos sido enfiadas pela garganta nos últimos anos. Não vivemos tempos triunfalistas. Não somos o primeiro nem o último ano da seca ou das vacas magras. Estamos bem ali, no meio, onde ninguém lembra.

Somos uma daquelas gerações de Números ou de Deuteronômio que as pessoas insistem em não dar importância. Somos parte daquele povo que maldisse o próprio Deus enquanto caminhava no deserto, a despeito de toda a Glória nos nossos dias. Maldizemos o sol, embora ele seja a esperança de uma nova vida. Amaldiçoamos o calor, por mais que ele nos traga o caminho. Praguejamos contra o frio por mais que ele nos lembre do nosso foco. Se formos uma geração, somos uma geração inteira de Nínive, que não vale a pena salvar.

Estamos perdidos, e nos agarramos desesperadamente a uma crença de que estamos perdidos por algum motivo especial, fora a nossa própria torpeza. Vivemos como marionetes, comemorando anos de vida e fingindo que não estamos abraçando desesperadamente nossas teologias de libertação e consagração, como se elas se diferenciassem de qualquer outra brisa refrescante de doutrina velha com cara de nova.

É como se tivéssemos um ar-condicionado que só funciona a ventilação e fingíssemos pra nós mesmos que é pra isso mesmo que ele serve. Mas não é para isso que Ele está aqui. Não é para nos fazer ricos, nem para trazer dinheiro ao pobre. Não é para que sejamos felizes ou tenhamos um propósito de vida, como tanto sonhamos com viagens épicas ao Santo Graal da Verdade.

Se na Idade Média sonhavam com uma Verdade contida num cálice de ouro, hoje sonhamos com uma Verdade contida numa felicidade, num propósito que seja tangível – e estamos tão errados como sempre estivemos, desde que Moisés recebeu as leis até o surgimento de um cara que descobriu que era Deus porque sentiu que ele estava falando consigo mesmo durante uma oração.

Somos medíocres. Normais. E quanto mais cedo percebermos isso, melhor para a Igreja de Cristo.


Depois de quinta –feira passada, dia 13/junho, acho que todos esperávamos o pior. Depois que todas as redes de televisão e jornais não tiveram como ignorar que a violência em São Paulo começou por parte da PM e diversos vídeos e fotos mostraram ao mundo o que estava rolando na capital, o clima de tensão para ontem era geral.

Diversas campanhas pedindo o fim da violência, assim como várias formas de tentar evitar truculência policiam foram divulgadas (sério, gente, quem inventou aquele bagulho da bandeira? É genial, de tão bisonho) e, depois do liveblogging que realizei na quinta feira de última hora, veio a ideia de fazer algo a mais.


Perguntei, na sexta-feira, no grupo dos Mobilizados, quem era de fora de São Paulo e entrei em contato individualmente. A ideia era tentar ajudar as pessoas que twittassem estar perdidas ou feridas durante a manifestação e tentar fazer uma ponte entre elas e um socorrista.

A partir daí, eu não sei bem como as coisas se desenvolveram. Em menos de 5 horas, já tínhamos 12 pessoas ativas no movimento, dentre elas, o Chrys e a Jane, que desde essa sexta até ontem se tornaram as primeiras pessoas a conversar no Facebook e as últimas a me despedir.

O impacto da nossa ideia foi tão grande, que quando divulgamos no sábado a hashtag que trabalharíamos na ajuda aos perdidos/feridos, a postagem passou dos 1300 compartilhamentos. Até então, já passávamos dos 30.

Quando vi, vários amigos meus já estavam participando do grupo sem que eu soubesse – um movimento realmente dinâmico, vivo, orgânico, sem necessidade de liderança, e estavam tão por dentro, com tarefas já decididas e influenciando o grupo.

Fonte> Gnuzz.com

Uma das coisas que eu não sei dizer sobre o #MOBAjuda é  quem colaborou com o quê, ou o que foi decisão de quem.

Foi quando uma estudante de enfermagem, a Fabíola, entrou em contato com a gente, que perdi totalmente qualquer controle do que estivesse acontecendo. Foi algo tão brilhante, tão bonito, que era surreal demais pra ser colocado em prática.

Tivemos contato constante com quatro grupos de médicos, e influenciamos diretamente em pelo menos seis atendimentos durante toda a manifestação em São Paulo: quatro quedas de pressão, uma desidratação leve e um desmaio – nenhum caso de violência, apesar da pequena confusão no final do protesto.

O que me lembra: foram mais de 3 mil pessoas que conferiram o nosso liveblogging (que publicou algumas notícias com até vinte minutos de antecedência do que as linhas de tempo dos portais de notícias), aproximadamente 15% delas (em torno de 500) acessando pelos seus celulares a nossa versão mobile.

Podemos não ter salvado a vida de ninguém (graças a Deus não precisamos chegar a tanto), mas com certeza ajudamos muitas pessoas a se localizarem, e fomos um ponto de notícias seguras sobre a manifestação, enquanto alguns ainda tentavam criar o caos.

Infelizmente, eu vi dois pontos negativos ontem: Bem no finalzinho, quando alguns manifestantes mais exaltados derrubaram o Portão 2 do Palácio das Bandeiras (o que exigiu uma ação da Tropa de Choque, após alguns invadirem o prédio), após quebrarem algumas luminárias; e a postura de alguns revolucionários que insistiram em, durante todo o protesto, fazer tudo sozinhos, ignorando todo o trabalho que estava sendo feito por uma coletividade: acabaram pondo em risco vidas, criaram confusões, sugeriram que o portão estava intacto e ainda tentaram causar pânico ao dizer que a Tropa de Choque estaria encurralando os manifestantes, quando já era pra lá da meia-noite.

Mas, fica aqui a alegria por ter participado desse dia, de poder ter influenciado e trabalhado junto com pessoas que começaram a propor um novo jeito de se fazer o Brasil. Que venham novos protestos! Que surjam novos grupos de ajuda! Que haja, enfim, vida.

Agradecimentos, enfim:

Thalys, Chrys e Ariovaldo, por conseguirmos manter o site informado e atento, com o QG 100%;

Jane, Fabíola (in loco) e Nicole, por tomarem a frente de quase todos os processos e gerenciarem as equipes sem ganhar um centavo por isso;

Aos meus amigos pessoais que participaram dessa briga, Delancy, Tig e Yohanna que eu me lembro de cabeça que estiveram conosco durante o liveblogging;

Aos bróderes que tenho o prazer de dizer que convivo que foram lá, dentre eles o Vinícius Moraes (que gravou um vlog durante a manifestação) e Abner Melanias;

Aos que conheci do Mobilizados e nos ajudaram de todas as formas que puderam: Julie, Pedro e Iran;

E, por fim, à melhor e mais linda equipe sensual: Rafael Guimarães, Lucas Rueles, Ligia Oliveira, Juliana Paiva, Walquiria Poiano, Carolina Almeida, Juliano Chernob, Ge Lilian, Pablo Silva, Mariana Nogueira, Vinícius Papini, João Paulo Maciel, Deni Guimarães, Lovely Bianca, Bia Poiani, Guilherme Ubeda, Ana Sharp, Andrea Martins, Marcio Castro, Wagner Skellington, Jack Casemiro, Paloma Santos, Eduardo Prado e talvez alguém que eu tenha perdido no meio dessa contagem.

Aviso: este texto foi escrito às 4 da manhã, qualquer falha de argumentação, mudança de assunto repentina ou non-sense genérico pode e deve ser relevado pelos leitores.

Entendo quem gosta de Jogos Mortais, mesmo que eu nunca tenha assistido, nem seja esse meu tipo de filme. Enquanto escrevo esse texto, assisto o primeiro filme dessa série na minha vida, Jogos Mortais IV, e nos primeiros 15 minutos de filme já entendi a satisfação de quem vê e gosta dessa série.

É aquele tipo de filme que satisfaz a sede de sangue de quem acredita que quem faz mal à sociedade deve morrer – é perfeitamente o que você pode ver na primeira vítima deste quarto filme. Uma mulher que teria todos motivos do mundo pra ser presa e que a sociedade no geral não pensaria duas vezes ao sacrificá-los em prol de um bem melhor, que geralmente envolve matar todos aqueles que não correspondem à expectativas sociais demonstram um pouco de maldade interior.


Assim como uma visão já bem ultrapassada do direito penal, essa série retrata que todo criminoso deve ser não só culpado, mas deve morrer pelos seus crimes, e não adianta apenas a pessoa pagar juridicamente pelos seus crimes, ela deve morrer por ser uma má pessoa. Pode ser apenas algo do quarto filme, mas é uma crise que o policial enfrenta ao ver o crime das pessoas as quais ele tem a escolha de salvar ou de deixar morrer.

Seria o policial melhor ao tentar salvar as pessoas que cometeram erros, estupraram pessoas, submetê-las à torturas para que não pudessem mais cometer seus crimes (num clima meio islâmico de arrancar fora as mãos de um ladrão para que ele não roubasse mais) ou ele deveria tentar salvá-las das penas impostas a ela por uma pessoa que se põe como julgadora, ignorando o sentimento daqueles que sofreram com os culpados? Dentre os acusados que foram processados e julgados pelo tribunal dos jogos mortais, temos a esposa que apanhava do marido, e por isso, tem o dever de poder matá-lo, e ficar com ele é um erro – independente do que ela acha disso, e se ela discorda, deve morrer com ele.

O engraçado é ver que a maior parte das pessoas que gostam e concordam com esse ponto de vista radical militam por supostos direitos humanos – assim como Feliciano e Bolsonaro militam por direitos humanos para humanos direitos.

É estranho ver que as pessoas têm dentro de si a mesma imparcialidade que elas odeiam nos outros que discordam totalmente: assim como os justiceiros odeiam quem põe um certo Deus para suas visões radicais, os que creem nesse Deus odeiam os justiceiros que tem uma visão distinta de justiça e direitos. O problema de justiceiros é que eles tem a sua própria moral, e querem impor para a sociedade, discorde ela ou não – quem discorde não merece viver numa sociedade tão boa quanto a que ele quer criar.

O problema é que são lados opostos de uma mesma moeda – a parcialidade. O ponto de vista. Ou seja, o problema é que todos nós temos pontos de vista diferentes. Estamos em lugares diferentes. E não conseguimos perceber isso, até que seja tarde demais.

Acho maior engraçado uma inconsistência no nosso vocabulário cristão do dia-a-dia. Não to falando só das igrejas evangélicas tradicionais e das neopentecas não, to falando de uma expressão que a gente carrega há muito tempo, e não foi a igreja em células, a igreja emergente, a desigreja ou qualquer outro movimento que eu tenha conhecido nessa minha curta caminhada por essas quebradas tenha mudado isso.


O engraçado é que todo mundo sabe o básico, mas não reflete sobre ele, como sempre – é a maior causa da inconsistência no discurso dos cristãos, ter decorado alguns fatos e algumas premissas, mas não chegar a pensar e trabalhar com eles para concluir algo novo. A fé que não pensa, que só aceita, a reprodução dominical da escola de segunda-a-sexta.

Todo mundo sabe que a Igreja é um corpo, mais especificamente o corpo da Noiva de Cristo, do qual somos membros, membros desse corpo, complementares e unidos em um só. E estamos assim, meio esquizofrenicamente e meio tropeçando, mas o Senhor tem trabalhador pra edificar a sua Noiva e casar-se com ela.

O que me faz coçar a cabeça e não entender nada do que tá acontecendo às vezes é o seguinte: quando uma pessoa sai da igreja e se desvia ou volta pro mundão ou simplesmente não quer mais estar ali, as pessoas tratam e falam que a pessoa se perdeu, como se só a pessoa tivesse perdido algo. Não, não foi. A cada membro que desvia, a cada membro que sai, a Igreja é amputada, e se você não acredita que aquela pessoa, ao sair, fazia parte do corpo de Cristo, pelo menos a Noiva perde potencial, perde força.

Somos nós que estamos errados quando alguém se desvia. É o corpo que rejeita o enxerto e promove a necrose de um membro. Somos nós que apodrecemos esse fruto, no dia-a-dia, em todos os momentos. Seja não tendo o fruto do Espírito, seja não dando atenção, seja não percebendo o que estava na nossa cara. Nós matamos a nós mesmos diariamente.

Somos o câncer da igreja, e contaminamos os outros membros. A não ser que sejamos tratados logo. Somos o câncer da Noiva, que cresce maestralmente e quer fazer tudo que não temos e nem sabemos fazer. Somos o câncer do Corpo, e nosso ego é o DNA defeituoso.


Qualquer jogo de futebol sem arquibancada é uma tristeza –seja Araçatuba VS Sertãozinho, seja uma partida com portões fechados. Não ter em quem se apoiar, com quem comemorar e onde buscar forças – ouvir os seus gritos ecoarem no estádio vazio dá até um aperto no peito.

Uma vez, acompanhando um primo meu, turista, fiz aquela visita guiada ao Maracanã, que você passa pelos vestiários, pelos banheiros, pelos camarotes (o mais perto que já cheguei de um) e pela arquibancada; vou te confessar em mim doeu. Ver o estádio vazio, silencioso, quase em luto – um luto que era ignorado solenemente pelo guia das visitas, tão acostumado ao clima fúnebre que não se preocupava mais em respeitá-lo.

Assim era a decisão liminar da Conmebol. Que o estádio sofresse em silêncio, e os gols e boas jogadas fossem ignoradas pelas cadeiras quase-ergonômicas do padrão FIFA. Condenar uma torcida que mora logo ali na esquina ao confinamento dos portões de ferro que separavam a magia que acontecia no Pacaembu do resto da cidade.

Assim era o sentimento dos colombianos que passaram 20 dias pegando caronas e sofrendo nessas maravilhas de estradas do país natal e do Norte pra chegar e dar de cara com um Pacaembu vazio, mais solitário que um paulistano?

Em pleno dia de jogo da Libertadores, o mais importante campeonato da América Latina e o Pacaembu estava mais parecido com a sua torcida do que nunca – solitário, como se voltasse pela CPTM numa quarta feira final de tarde, enfrentando uma multidão de prédios tão cinza e tão vazios quanto ele.

Mas sempre tem algo a mais. Nenhuma história é tão ruim que não possa piorar – e enquanto uma nação inteira, como eles se vangloriam de se chamar se abraçava espalhada pela cidade, fazendo a sua própria diáspora, quatro desgarrados resolveram que eram diferentes. Assim como Higienópolis era diferenciado e tinha churrasco de filé mignon domingo de manhã pra impedir que a cidade tenha uma infra-estrutura melhor porque – bom, porque eles podem.

Então quatro maloqueiros, sofredores, da nação corinthiana, moradores da comunidade e faladores de gíria, vestidos de blazer e munidos de seus iPhones, óculos escuros e uma liminar que custou pouco mais que um milhar de reais se julgou (e foi julgada) diferente da maioria. Não, eles não queriam que todos entrassem – eles queriam entrar, porque tinham direitos.

Sufocaram o luto do Pacaembu. Sufocaram a agonia do time – mas não foi aliviando ou dando conforto. Foi com o olhar penetrante de quem não é limitado por leis ou por moral. Aquele olhar penetrante de quem manda – de quem tem dinheiro.


Eu lembro de quando proibiram entrar as torcidas visitantes nos Estádios com bandeiras, porque o mastro delas poderia ser lançado. Depois com tambores, porque além dos próprios instrumentos, as baquetas se tornariam armas de guerra num eventual confronto. Ainda depois proibiram as latinhas de refrigerante, e esses começaram a ser vendidos em copos (na decisão menos higiênica possível) – e agora o sinalizador matou um rapaz.


Outro, além dos mais de 200 que morreram em Santa Maria, tudo graças a sinalizadores – e eis mais um objeto a ser proibido. Daqui a pouco, os jogos realmente vão ser de torcida única, como alguns já tem sido, e mesmo assim ainda haverá confusão. Culpa do futebol? Dos sinalizadores? Dos tambores? Provavelmente não, embora o discurso seja sempre o mesmo. O futebol revela nosso lado mau. Os videogames liberam os demônios interiores. A balada nos faz promíscuos. Porra, que homens somos nós que não somos culpados individualmente por nada? Até Adão se cansaria de tantas desculpas.

A selvageria está no DNA. Quando fui ver Atlético-PR VS Internacional, na antiga Arena da Baixada, a torcida visitante ficava espremida numa quina do Estádio, sem proteção contra chuva, sol, e frente a frente à maior arquibancada disponível – e assistir a torcida atleticana cantando e batendo os tambores quando até as mais inocentes bandeiras sem mastro tinham sido recolhidas pela PM, era um espetáculo quase assustador. Claro, nada que metesse muito medo em quem tinha viajado algumas centenas de quilômetros pra ver o colorado, mas alguns torcedores rivais não se bastavam só nisso, e, à despeito dos gigantescos cachorros e vigias nos 5 metros que separavam as torcidas, alguns insistiam em querer pular a cerca e gritar palavrões provocando.

Claro que gritaram ‘gaúchos viados’. Claro que a resposta foi ‘ão ão ão, segunda divisão’. E o estádio ficou em silêncio por alguns bons minutos, antes da loucura. A diferença é que, mesmo a torcida rubro negra paranaense sendo uma das que mais se mete em confusões, mesmo Curitiba tendo sido palco de uma insanidade alguns anos antes pelo rebaixamento do Coxa, a resposta da torcida atleticana foi no tambor. Foi nos gritos de guerra. E na careca do Paulo Bayer.


E aí um menino morreu, na Bolívia, porque um torcedor atirou um sinalizador contra ele. Não vou falar que era porque era um corinthiano, porque seis cruzeirenses bateram num atleticano até matá-lo em BH, porque um palmeirense atacou um corinthiano com uma moto-serra, porque um colorado esfaqueou outro colorado há uns dois anos, e a lista é interminável. Não é o futebol que propicia a violência e a selvageria. A frustração da derrota é sentida tanto numa partida de futebol como numa de xadrez.

Seria o homem naturalmente mau?

E aí um menino morreu, na Bolívia, porque um torcedor atirou um sinalizador contra ele no primeiro tempo. Parece aquelas histórias que a gente ouvia dos mais velhos de gente que fazia xixi no copo e jogava pra molhar a galera lá embaixo, ou de quem punha taxinhas contaminadas com HIV nos bancos de cinema.

A Conmebol, ano passado, havia prometido que seria mais dura com os times – mas na pré-Libertadores já tinha aliviado pro lado gremista. O desabamento de parte da arquibancada não gerou a interdição do estádio (e pasmem, cadê o MP gaúcho?), e dificilmente haverá sanção para o Corinthians, afinal esse é o jeitinho todo xoxo da instituição. O Corinthians também não deve ser punido pela CBF, já que o campeonato é de outra Confederação, fora da jurisdição nacional da CBF.

Os torcedores foram presos pela polícia boliviana, e vão ser entregues para ser processados e julgados aqui, se bem que todas as lendas que se dizem sobre a corrupção na PM brasileira são fatos corriqueiros na Polícia Boliviana – esse aí é um país esquisito. Quanto à família, uma tristeza – e pensar que vi Santos VS The Strongest em La Paz. E que comece a turma da balbúrdia querendo criminalizar o futebol, as torcidas, o universo e camisas alvinegras. Porque a consequência é sempre culpada.