Igreja

Nos reinventamos. Recriamos a roda, tentamos fazê-la quadrada, tentamos fazê-la triangular, e no final das contas descobrimos que a melhor forma de fazer uma roda rodar é fazendo ela redonda. Cansamos da igreja tradicional. Dos hinos antigos, das vestes sacerdotais e dos papéis de pastor, diácono e presbíteros.

Fizemos movimentos. Não éramos mais igrejas, éramos Igreja. Lá, podíamos ir mais longe – fazer coisas que a burocracia eclesiástico-institucional inviabilizava. Nos envolvemos em lutas importantes: fomos contra o voto de cabresto – ganhamos fama no país inteiro ao lutar contra as influências e coações pastorais que influenciavam eleições.



Mostramos como era terrível que um pastor tivesse poder de definir as eleições através dos votos de suas ovelhas e como era maléfico dar espaço de culto para candidatos. E estamos nessa luta até hoje.

O problema é que tentamos fazer uma roda quadrada – tentando ensinar as pessoas a refletir criticamente. Um processo que dói, um processo que é difícil, e que acaba envolvendo muito mais do que apenas uma reunião dominical (ou em qualquer outro dia da semana, afinal não somos igreja, mas durante a semana é complicado, sábado à noite tem outras coisas pra fazer e aí sobrou ele mesmo, o domingo): envolve a família, envolve educação formal, envolve estudos de filosofia e sociologia, matérias que nem em três anos de ensino obrigatório conseguem se provar importantes para seus estudantes. É impossível libertar pessoas e ensiná-las a pensar por si próprias quando o próprio contexto social que elas se encontram inviabiliza o tempo necessário para isto – e quando a nossa própria agenda política se põe no caminho.

Tentamos fazer uma roda triangular – e nos diferenciamos, em cursos de formação política com vieses de esquerda e de direita, para que as pessoas pudessem compreender como uma doutrina social ou outra poderiam auxiliar a alcançar fins que seriam de interesse da Igreja (com i maiúsculo, não é mesmo?). E não se engane: ambos movimentos eclesiásticos, tanto de direita quanto de esquerda, tem essa intenção: a agenda da esquerda busca dar dignidade através de políticas públicas; a agenda da direita busca dar dignidade através da liberdade e auto-determinação. O escopo é o mesmo, e são igualmente válidos. Mas mesmo assim, criamos problemas – não é todo mundo, da mesma forma, que está disponível, interessado ou que vê a importância desse envolvimento.

Foi quando arrendondamos nosso projeto de roda, e ficamos tão felizes por ele funcionar que não paramos pra pensar no que diabos estamos fazendo. As recentes cartas, manifestos e posturas, de todos os lados, mostram que o voto de cabresto ainda é uma realidade muito forte dentro das igrejas e movimentos eclesiásticos.

Se anos atrás lutávamos contra uma liderança que falava “vote em FULANO, porque Deus está com Ele”, hoje nos vemos em um jogo mais sujo: falamos em indiretas, nas entrelinhas. “Convocamos a assembleia dos santos a exercer sua cidadania terrena à luz de sua cidadania celestial”, “como cristãos, rejeitamos e denunciamos com veemência a corrupção, a iniquidade, a impunidade e o ataque ao Estado Democrático de Direito” – tudo isso ligado a um espiritualismo condenável, de orações, jejuns e até mesmo avivamentos.

Reinventamos a roda – mas trazemo-la mais maligna, mais dissimulada. Enfim, mais hipócrita.



Leia:

O Manifesto da Teologia Brasileira;

O Manifesto da Missão na Íntegra.

Opinião

Gritos de guerra são dados pelo PSOL – principalmente em posts de Jean Wyllys e Chico Alencar (aqui e aqui) porque o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ter definido a votação para a Comissão Especial de Impeachment como secreta. Rolou briga, confusão, quebra de urnas eletrônicas e várias tentativas de se barrar o que muitos chamaram de “estímulo à traição” que Eduardo Cunha realizava.



Os fatos são que o Regimento da Câmara fala sobre votação para composição da mesa diretora da Comissão Especial. Que o pedido de impeachment aceito por Cunha, assinado por Reale Jr., Janaína Paschoal e Hélio Bicudo, tem fundamentação jurídica, apesar das ressalvas feitas pelo próprio Cunha, que limitaram o objeto de estudo de uma comissão a ser feita. Que depois de se aceitar o pedido de impeachment, ele tem prioridade nas pautas e é de urgência definir a comissão para analisar o pedido.

Se o momento escolhido pelo Presidente da Câmara é oportuno ou não, é outro debate; bem como as artimanhas utilizadas para marcar a votação para o mesmo horário em que a Comissão de Ética avaliaria o pedido de sua própria cassação – até mesmo ter pressionado a base governista para não ser cassado usando o pedido de impeachment como troféu.

Mas precisamos de brigar com as pessoas certas pelos motivos certos: conforme bem apontado por George Marques em sua conta do Twitter, as votações para formação de Comissões Especiais devem ser secretas por ordem do próprio Regimento Interno da Câmara dos Deputados, conforme se vê:

Art. 188. A votação por escrutínio secreto far-se-á pelo sistema eletrônico, nos termos do artigo precedente, apurando-se apenas os nomes dos votantes e o resultado final, nos seguintes casos:

III – para eleição do Presidente e demais membros da Mesa Diretora, do Presidente e Vice-Presidentes de Comissões Permanentes e Temporárias, dos membros da Câmara que irão compor a Comissão Representativa do Congresso Nacional e dos 2 (dois) cidadãos que irão integrar o Conselho da República e nas demais eleições;

Não existe, portanto, conforme arguido pelos deputados, uma tentativa de cooptar votos da base governista para se instalar um impeachment – ao menos não neste ponto, conforme já dito.

Agora o que realmente impressiona é como a cultura do “não li, mas finjo que sim e aceito as regras” realmente está intrínseca ao brasileiro. Não se trata mais de apenas termos de uso de redes sociais ou de e-mails, que violam direitos pessoais. Não se trata de contratos firmados entre empresas, financiamentos bancários, que prejudicam financeiramente uma pessoa ou um pequeno grupo.

Se trata dos representantes do povo, eleitos democraticamente em eleições gigantescas, morosas e impressionantemente caras e que recebem diversos benefícios, privilégios e incentivos para buscar os melhores caminhos por nós – e nem essas regras do jogo eles leram.



É como um fotógrafo não saber configurar sua câmera na hora de fotografar o beijo do casal; o designer utilizar treze fontes diferentes e cores contraditórias em suas montagens para spots; o advogado não saber quantos dias ele tem para peticionar e perde prazo; o contador recolher impostos com a aliquota errada.

Faz parte da profissão política conhecer o Regimento Interno da sua Casa. Se esta regra, a do voto secreto para Mesa Diretora das Comissões Especiais, está errada ou deveria ser revista, caso nossos nobres colegas cidadãos tivessem a visto antes, ou reparado na sua injustiça, poderiam tê-la consertado antes de vários “incentivos à traição” ocorrerem: afinal de contas, esta não é a primeira vez que se instaura uma Comissão Especial desde que a regra foi imposta, em 2006 (inclusive, quem a assina é Aldo Rebelo, do próprio PT).

O problema é: quais são os interesses por trás do voto secreto? E do voto público? A quem interessa que os deputados não “traiam” o partido? Ao governo ou aos cidadãos?

Utilidade Pública

Não existem paralelos numa discussão entre desiguais. Se você parar pra pensar, até que os desiguais consigam se encontrar em um piso comum para não serem mais tão desiguais, não há como uma conversa, um debate, ter frutos.

Não, não é que as pessoas precisem discutir só entre seus pares (o que nem chega a ser discussão, mas uma grande masturbação coletiva), mas na verdade a gente precisa sempre entender os contextos alheios – o que, é claro, é muito mal visto. Tentar compreender o contexto alheio não é sororidade, compaixão ou humanismo. Não é colocar a pessoa humana acima das ideias: é relativismo.



Relativismo, o grande pecado para a igreja contemporânea, o pior erro de um justiceiro social, o único meio de se aproximar dois extremos para impedir de ver o outro (o estranho, o diferente) como um pária, mas sim um indivíduo. Não podemos ser relativistas, não podemos debater com pessoas que discordam de nós. Ah, Deus não existe? Fora do meu feed. O quê, contra o aborto? Block nele! Acha que o liberalismo vai salvar a economia do país? Seu conservador liberalóide leitor de veja! Acredita que o governo ainda deve manter as ações do Banco do Brasil e Petrobrás? Seu comunistinha de merda!
O relativismo só é visto como erro quando as suas idéias são mais importantes que os outros indivíduos. Seja a sua fé, a sua ideologia ou o seu conceito de, veja só, o que o governo deve investir no que diz respeito à educação pública, tudo isso deve ser encarado de uma forma a compreender que bom, o outro pode discordar dessas coisas.
E discordar não precisa necessariamente ser ruim, como todos nos disseram, seja no seminário de formação política, seja na escola dominical. Quem discorda das suas brilhantes não é burro, alienado ou perdido. Apenas tem concepções diferentes das suas, viveu e experimentou situações que moldaram quem ele é hoje. Você não precisa mudar a sua opinião, votar num plebiscito a favor da ditadura comunista (ou militar), ou aceitar qualquer um na sua concepção de paraíso (seu universalista!) – mas aceitar que nem todo mundo entende assim e que as pessoas podem ter opiniões e conceitos diversos dos seus, e nem por isso você precisa matá-las ou cortá-las da sua vida.


Ouvir e compreender a opinião alheia, discutir em pé de igualdade e respeitar (pra recair nas falas de DCEs) a vivência alheia. Não estou falando que você precisa ouvir desaforos, que você precisa sentar calado respeitando um racista, um misógino, por exemplo. Mas até chegar nesse extremo, há milhares de pessoas que simplesmente discordam de você em menor grau que, se estiverem tão comprometidas com você a encontrarem um ponto comum (ou a menos compreender aonde vocês querem chegar), a discussão caminhará e o respeito, o pássaro do respeito não precisará morrer.
Pode parecer engraçado, mas muitas feministas querem igualdade. Muitos neros quem igualdade. Muitos cristãos, muçulmanos, árabes, indígenas, produtores rurais, políticos, empresários, comunistas, policiais e até mesmo muitos aventureiros da justiça social só querem construir um lugar melhor para todos.

Mas pra chegarem lá, precisam se lembrar que as pessoas para as quais esse mundo precisa ser melhor são mais importantes do que o caminho ou a ideologia seguida para construção desse mundo. Se não, é demagogia.



Opinião

Uma das matérias mais procuradas por estudantes de Jornalismo é o jornalismo opinativo. O que de fato, é bom. É bom que as pessoas comecem a se interessar por algo além do LEAD e que tentem ir atrás do ‘algo mais’ que falta ao jornalismo tradicional.


Mas também é preocupante. Cada vez mais se busca fundamentar a própria opinião frente à pauta do que efetivamente conhecer a pauta e, dentro de um trabalho de apuração  jornalística, opinar acerca dela, mostrando um viés específico – igual no fundo, acontece na nossa vida cotidiana, pessoalmente.

O problema desse jornalismo que é um meio de se provar e/ou justificar a opinião do jornalista é que ele é tão desserviço quanto o jornalismo de LEAD que joga uma informação crua para o receptor – ele não acrescenta nada, ou pior, reforça preconceitos internalizados.

Da mesma forma que um cristão vai ler um texto com o pressuposto da sua fé, o estudante de jornalismo hoje corre atrás da pauta para provar suas opiniões pré-concebidas. Encaixa as fontes que acredita serem necessárias, ignorando outras ou buscando estereótipos para reforçar o fato que “o outro lado é uma merda”.

Problemático porque, bom, pessoalmente, na sua individualidade, ser assim já é problemático. Primeiro porque você se torna um guardião de conservadorismo e senso comum sem sentido, repetindo preconceitos e estereótipos ultrapassados ou ainda estabelecendo novos. Quando se trata de um jornalista, emissor de informações à grandes massas que fez um curso superior para, teoricamente, saber como lidar e tratar com estas informações de relevância e modificar o status quo social então – aí a coisa perde o rumo.
Não adianta ser de humanas, liberal, lutar contra o capital e a propriedade privada se as informações que são emitidas são tão deturpadas ou alienantes como as de seus arqui-inimigos mais ardilosos. Porque se há uma luta de classes, e se há uma defesa do trabalhador, do proletário ou do oprimido, esta defesa deveria se esforçar para a sua libertação, não para novas amarras e correntes diferentes ou mais reluzentes.
Se alguém deturpa a verdade, não pode ser amigo do povo. Não pode ser jornalista, com ou sem diploma. Com ou sem opinião.


Opinião

Uma jovem de 18 anos foi vítima de uma tentativa de estupro dentro do banheiro feminino do bloco de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) nesta segunda-feira (21). Em conversa com a produção do MGTV, o pai da vítima informou que um homem entrou no local, que fica no campus Santa Mônica, enforcou a jovem e a levou para um box. A vítima gritou e se debateu até conseguir se soltar. O criminoso fugiu. (da reportagem do G1 Triângulo)

 



Esse texto é um desabafo. Um desabafo porque pra mim chega a ser surreal uma tentativa de estupro na FADIR-UFU. Surreal a ponto de eu não querer acreditar. Um prédio que eu passei seis anos e meio da minha vida – que cheguei a passar 18 horas por dia em um semestre, entre aulas de manhã, estágio à tarde, monitorias e mais aulas à noite.

Um prédio que era até chamado de Castelinho da Barbie pelo seu formado – e por ter portas trancadas em quase todos os horários. Um prédio que eu conheci todas as salas de aula, do calabouço até o ‘céu’. Um prédio que eu tive DRs, que eu tive momentos de romance, que eu assisti mais de 3 dias inteiros de One Piece, que eu entrei guri aos 16 anos e saí aos 22 como pós-graduado.

Um lugar que fez parte da minha história a ponto de ter esquecido luvas, fontes de notebook, capacetes (sim), celulares e ter tudo me esperando no mesmo local. Um lugar que conheci todos os cantos, todas as salas de direção, coordenação e até mesmo aquela salinha no canto do último andar da revista de Direito.

Um prédio no qual eu conheci pessoas que me levaram a andar esse Brasil de Criciúma (SC) a Fortaleza (CE). Que quebrou, moldou e remoldou meu caráter. Que foi cenário dos meus primeiros ensaios de fotografia – que eu tomei o laboratório de informática pra mim por três meses enquanto tentava montar esse blog (há três versões atrás). Dei monitorias, recolhi monografias, conheci pessoas fantásticas, criei inimizades, tive brigas, discussões e dormi nas escadas.

Um lugar que se faz lar toda vez que piso mais uma vez, que faço questão de mostrar pra conhecidos, que faço questão de citar e lembrar das histórias e bizarrices, um lugar que hoje não pode mais ser considerado seguro. Um lugar que a nova turma de Direito vai caminhar olhando por trás do ombro. Um lugar onde os alunos de outros cursos, que volta e meia tem aula lá, entrarão em silêncio não mais por estarem no Castelo da Barbie e serem atingidos por um raio reacionário, mas porque ali é perigoso.

Quero de volta as horas de descanso no sofá do Diretório Acadêmico. Quero mais uma vez poder sentar naquelas escadas e atrapalhar quem sobe e desce atrasado pra aula. Quero poder entrar lá e mostrar a placa da formatura da minha turma, sim, a quinquagésima nona turma, e apontar pra todas as salas de aula, lembrando do 1º ao 5º ano os professores insanos, as ameaças de greve, as tretas entre salas, o repúdio dos outros cursos. Quero que os estudantes de direito possam se sentir tanto em casa quanto eu me senti. Eu, meus bichos, os bichos dos meus bichos e todos meus veteranos nos sentimos. Porque, por mais que o direito possa nos ter levado pra caminhos tão distantes dos fóruns e tribunais, todos nós crescemos ali, naquele lugar, entre nossos colegas juristas.



Opinião

jeff-convinces-troy-to-play

Toda profissão tem um pouco de corporativismo. Você raramente vê médicos denunciando erros ou ações de outros médicos, ou advogados criticando abertamente o trabalho de outros advogados. Jornalistas tendem a se proteger, assim como praticamente toda classe de trabalhadores aprendeu, com o passar dos anos, que o outro que está ali não é um concorrente, mas um potencial aliado.

Por mais que o corporativismo não seja bem-visto pela sociedade, fugindo muitas vezes dos padrões éticos das profissões em geral, um pouco de corporativismo é essencial para que se respeite o trabalho da categoria. Você pega: um médico, quando você pede uma segunda opinião, nunca vai falar, por questões éticas e de respeito a um colega, que o doutor fulano está louco. No máximo, ele vai dizer que existem outras opções, sugerir uma linha alternativa de tratamento que seja mais simples, ou menos arriscada.



Um dentista raramente vai pegar um tratamento ortodôntico em andamento realizado por outro profissional, e um advogado que pega um processo em andamento tende a relativizar o que se fez pelo seu antecessor. Por mais que todo observador externo tenha o ímpeto de analisar de maneira fria o trabalho realizado por outra pessoa, esses profissionais tendem a ser um pouco mais compreensivos, na falta de palavras melhores, com seus colegas.

O corporativismo nasce quando você percebe que não é tão simples assim. As coisas não são tão simples assim e não chegaram nesse ponto por mero descuido de um profissional – vários fatores contribuíram para aquele todo que… bom, ninguém gostou muito de ver. As dificuldades técnicas, financeiras, o combinado com o paciente/cliente, os interesses dos envolvidos, tudo isso escapa da visão de um terceiro que só teve contato com o resultado final.

Mas com o fotógrafo não. Tudo isso passa despercebido. Não importa qual foi o combinado com o cliente, o que foi pedido no briefing, quais as limitações de equipamento, o que foi disponibilizado para realizar as fotos, ou todos os fatores externos que contribuem para o trabalho. Fotógrafo quando não está atrás das lentes se transforma num monstro terrível, num ser sem alma que é parente próximo do crítico de culinária – ao se afastar da câmera o fotógrafo esquece de como é seu trabalho e tende a julgar friamente, segundo seu gosto pessoal o trabalho alheio.

Assim como um crítico reclama do excesso de pimenta numa cozinha típica baiana, o fotógrafo reclama da superexposição de uma foto. Tal como um carioca exige coentro até na salada, o fotógrafo pede pela regra dos terços (fibo-o quê?). Da mesma forma que um paulista reclama de ketchup na pizza, o fotógrafo faz cara feia para meia dúzia de marcas de expressão no rosto de uma modelo. Tal qual um mineiro reclama da falta de sustança de um sanduíche como almoço digno, o fotógrafo se exalta com a falta de um contra-luz para destacar as curvas corporais.

O problema de tanto criticar e apontar erros que sempre são crassos (mas que, impressionantemente, tendem a não ser erros, mas frutos de um gosto pessoal) damos a impressão que fotografia é algo fácil. Fotografar um casamento, fazer um ensaio de criança, gestante, casais das mais variadas idades ou a cobertura de um show, espetáculo teatral ou circense, fazemos parecer em nossas críticas que um só profissional consiga fazer tudo isso com excelência sem muito treino ou estudo.



Nós mesmos nos boicotamos. Ao não perceber que o equipamento disponível não era lá essas coisas, ou que essa não fosse a proposta do artista (afinal, meus queridos, sim, a fotografia é uma arte, e portanto, uma visão pessoal do fotógrafo) boicotamos a nossa profissão. Diminuímos nossos colegas, e diminuímos a nós mesmos. É por causa de nossos comentários sobre a concorrência que o tiozinho compra uma superzoom 40x e entra na sua frente enquanto você trabalha tentando fazer um superclose do casal trocando alianças no altar – é você quem fez ele acreditar que ele pode fazer isso.

É por tanto bombardear trabalho alheio, ao invés de ser mais diplomático, que cento e vinte reais para fotografar um aniversário de criança se torna um valor muito alto para o cliente. Pergunta pra um advogado porquê ele cobra tanto pra fazer um habeas corpus. Meu amigo, eu respondo: qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade sem o menor conhecimento jurídico consegue fazer um habeas corpus. Assim como qualquer pessoa consegue apontar a câmera pra um lugar e clicar com a câmera no automático.

Mas é antes e depois de apertar o botão, e antes e depois de escrever o habeas corpus que vem o trabalho de verdade. Procurar o cliente (fazer reuniões na prisão), desenhar propostas de trabalho (idem), planejar a ideia depois de conversar com o cliente (idem), aplicar o estudado (idem), montagem e manutenção do equipamento (idem), posicionamento (base fática), iluminação (base teórico-jurisprudencial), protocolo (tratamento), acompanhamento (edição e novas versões) e finalmente a entrega do produto final (a libertação do cliente).

Talvez, se respeitássemos mais, um ao outro, como profissionais, as pessoas nos vissem como tais. Mas pra isso é preciso tirar o ego do caminho e o rei da barriga, e isso é pedir mudanças demais.

Utilidade Pública

É tão comum ter uma farmácia ao alcance das mãos que se virar sozinho sem ir em um médico tornou-se um hábito não só aceitável pelos seus amigos como recomendado. Você se queixar de uma dor de cabeça é um convite pra receber uma listagem de nomes incompreensíveis de remédios e fórmulas de laboratórios que você nem imaginava que existiam. Resfenol, Doril, Paracetamol, Neosaldina, Dorflex, Advil, Aspirina, Tylenol, Naldecon (que não é bem dor de cabeça mas serve) e mais uma infinidade de nomes bisonhos.



Cheguei na farmácia esses dias porque já estava há mais de 48h com uma dor atrás do ouvido e fui apresentado a um cardápio tão completo de remédios que me deixou até perdido – até que eu resolvi perguntar pra atendente qual daqueles remédios não tinha cafeína. Ué. Sim, a cafeína funciona como um estimulante, um catalisador da reação que faz o remédio ter efeito mais rápido, mas… a minha dor de cabeça era exatamente por falta de dormir. Tomar um remédio que vai me impedir de dormir por uma dor de cabeça que chegou porque não consigo dormir é, pelo menos, contraproducente.

No fim, consegui um. A velha dipirona – “vai demorar de uma a duas horas pra fazer efeito”, me alertou a moça como se eu fosse mergulhar numa piscina de água oxigenada depois de sofrer um acidente de moto.

Parando pra pensar, o aviso dela até faz sentido. Parte da auto-medicação é a necessidade urgente de se sentir melhor agora – nesse momento. Com as filas gigantescas para uma consulta médica pública, as dores de cabeça com convênios e os constantes atrasos em clínicas particulares, é compreensível que ninguém queira se submeter a uma consulta pra receber o mesmo diagnóstico do seu amigo hipocondríaco – é uma dor de cabeça (eu sei que é uma dor de cabeça, por isso que vim aqui!), e pegar a receita de um analgésico para tomar de 8 em 8 horas.

Você sabe que auto-medicação mata – tá, não é um Diazepam uma vez na vida que vai te dar esquizofrenia – mas vocês já ouviram os dados algumas vezes na vida:

  • 50% dos remédios vendidos no mundo são dispensáveis ou inadequados para o tratamento (OMS/2002               *);
  • Os medicamentos são os maiores responsáveis por casos de intoxicação no Brasil, seja pela superdosagem ou pela adesão a tratamento não-indicado por especialista (SINITOX/2000*);
  • 70% dos pacientes de UTI não conseguem absorver completamente os princípios ativos ministrados por terem se submetido à automedicação durante toda a vida (Fleury/2010*)
  • 20 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por complicações decorrentes da automedicação (CASA GRANDE et al/2004*)

E, porque não, um vídeo feito pelo Conselho Federal de Farmácia sobre automedicação:

 



Referências (por ordem de aparição no texto):
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas sobre medicamentos. Ginebra, 2002;
SINITOX – Sistema Nacional de Informações Tóxico – Farmacológicas. Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento: Brasil, 1999. Fundação Oswaldo Cruz/ Centro de Informação Científica e Tecnológica. Rio de janeiro, 2000;
FLEURY, Marcos. Os riscos da automedicação. Disponível em: <http://marcosfleury.wordpress.com/2010/01/23/os-riscos-da-automedicacao/>. Acesso em 02 de julho de 2012;
CASA GRANDE, E.F., GOMES, E.A., LIMA, L.C.B., OLIVEIRA, T.B., PINHEIRO, R.O. Estudo da utilização de medicamentos pela população universitária do município de Vassouras(RJ).Infarma,v.16, n.5/6, p. 86-88, 2004;

Opinião

Já se faz um ano que eu vim para o Mato Grosso do Sul, e deixei a minha Minas Gerais, depois de passar por tantos cantos desse Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, o Distrito Federal. E nesses dias, eu nunca me senti tão vulnerável. É simples, não existe Estado no Mato Grosso do Sul.



Já precisei do Estado como advogado, no caso de uma grávida precisava de um remédio para sobreviver, ela e o bebê. Já faz três meses que o que era um feto se tornou um ser humano, nascido e vivo e, com uma liminar, um embargo de declaração e uma execução processual, ainda não se viu a cor do remédio – nem mesmo resposta alguma do Estado, ausente em todos procedimentos fora a contestação da inicial.

Não é só o Estado representado pelo Procurador – é o Judiciário Estadual, cujo juiz não move o processo sem que haja um pedido para fazê-lo. Não há o menor respeito pelo princípio da celeridade ou da economia processual. Não há a menor intenção de se fazer algo de ofício. Tive petições apagadas por acidente no cartório do Fórum, e mesmo com protocolo, ninguém soube me dizer o que aconteceu por uma semana com o pedido de uma medida liminar. Tive petições que demoraram mais de uma semana para entrar no sistema, que é completamente digital.

Já precisei do Estado policial, de várias maneiras distintas. Com uma oficina de som automotivo, cujo som era ensurdecedor a três quarteirões de distância, com uma denúncia de tráfico, com uma denúncia de violência contra a mulher, com uma denúncia de quadrilha de assaltos à mão armada. Uma das vezes, cheguei a ir no destacamento policial duas vezes. Na segunda, pra avisar que não havia mais necessidade – o sargento responsável teve a cara de pau de olhar no meu rosto e dizer que a viatura tinha se descolado para lá. Não, não tinha. Nem mesmo a denúncia de uma gangue realizando assaltos à mão armada provocou alguma resposta. A Polícia Militar afirmou que não era da alçada deles por estarem em rodovia federal, a Polícia Rodoviária Federal, que tinha um posto há 30 km do local não tirou o carro da garagem pra dar um rolêzinho e ver se cruzava com a galera. De todas as vezes que alguma polícia foi acionada enquanto estive presente, não dá pra contar na mão o número de vezes que uma viatura foi ao local: exatamente, zero.

Caetano cantava que o império da lei há de chegar no coração do Pará, mas bem que os bandeirantes da Constituição Federal poderiam fazer uma escala no Pantanal.



Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

Os aposentados querem sobreviver com seus trocados. Os funcionários querem ter aumentos salariais. Os universitários querem trabalhar. Os estudantes de Ensino Médio querem passar no vestibular. Os alunos do Ensino Fundamental só não querem repetir de ano. Queremos ser especiais fazendo nada além do esperado. Queremos brilhar fazendo nada além do mínimo. Queremos ser notados por sermos mais um no meio da multidão. Não é preciso ser nenhum especialista no assunto pra saber que não vai dar certo.

É meio chato, mas sem foco, a única coisa que vamos conseguir é andar em círculos enquanto somos empurrados por uma multidão que sabe tanto do destino quanto adolescentes de 18 anos sabem de logaritmos – e não se engane, quase ninguém no Ensino Médio sabe de logaritmos. Então, na boa? Aproveite, e mude logo!

Então, para se organizar, seguem algumas ideias que, se no ano que estiver chegando não te ajudarem, você pode aplicar no seu dia-a-dia – afinal são simples regras de organização pessoal que todos já cansamos de ouvir. Mas atenção: essas ideias não são pra quem tem uma grana disponível ou que não tem obrigações. Só pessoas que tem que dar os corres pra chegar no fim do mês, que precisam fazer trabalhos e estudar pras provas enquanto tentam algum freela em alguma área do universo, podem compreender essa lista.



(1)    Estabeleça prioridades

Não é aquela lista de quatrocentas coisas que você quer fazer da vida. Você não vai conseguir ir pra Paris, comprar um carro e passar no concurso público que quer no mesmo ano enquanto faz as coisas que precisa fazer – você precisa ter apenas um grande objetivo e um ou dois de médio alcance. Escolha despreocupadamente – sempre dará tempo de mudar de ideia ou fazer coisas novas nos próximos dias; não se precipite em objetivos profissionais.

Viajar, conhecer uma língua ou aprender alguma outra coisa (qualquer coisa, por sinal) é um um objetivo interessante. Sinceramente, não perca muito sono pensando no que fazer. Ponha um foco, pode ser até o sonho infantil que perdeu um pouco do sentido, tá valendo.

(2)    Planeje

Não, não é um cronograma pra tentar alcançar aqueles objetivos em tanto tempo – esqueça prazos, esqueça deadlines. Só vai gerar pressão e angústia quando a ideia é exatamente o contrário, o prazer.

Planeje como vai conseguir o que precisa conquistar aquele objetivo. Você precisa de quê? Dinheiro (quanto?), horas de estudo (quando?), treinamento (onde?), contatos (quem?), tudo isso precisa estar pelo menos rascunhado pra você não sair batendo a cabeça pelas paredes.

(3)    Força, foco e fé

Com o tempo vai ficar difícil dedicar aquele horário sagrado, mil coisas e oportunidades vão aparecer e você vai querer desistir tantas vezes quanto um gordinho de dieta deseja um cupcake de chocomenta. Até aqui foi brincadeira de criança, qualquer um pode fazer sem comprometimento. Então, algumas vezes na semana, nem que seja meia hora por dia, finja que está na academia e repita o mantra daquela galera estranha da academia – mas não precisa postar foto no instagram todo dia não, tá? Na moral.

(4)    Não desista

A maioria das pessoas desiste ali entre o terceiro e o sétimo mês de planejamento. Já passaram de ano, passaram de período na universidade, muita coisa andou e ainda não conseguiram atingir aquele objetivo que queriam.

Não seja tão impulsivo. A impulsividade, o desejo de ter tudo agora é que nos faz ser medíocres – aceitamos o médio, o comum porque não queremos esperar, treinar e lutar pelo melhor, com medo de perder. Se você definiu um sonho, corra atrás dele, não faça com ele com faz com o resto da vida. Deixe pra procrastinar nas outras 23h30 do dia.