Opinião

Cada dia mais se torna mais difícil (e ingrato) produzir conteúdo. Você pesquisa um tema, lê sobre ele, corre atrás, entrevista e conversa com várias pessoas, produz o material, faz o tratamento, publica e no final das contas ninguém quer saber daquele conteúdo tão preciosamente refinado – só de quem está falando.



Vejo cada vez mais pessoas próximas sendo seduzidas por uma dicotomia burra – direita/esquerda; feminismo é para mulheres; GLBT são para quem cuja sexualidade é oprimida pela sociedade. Vejo debates sobre quem tem mais poder de fala com os critérios utilizados pela Zambininha à sério, bem como afirmações estapafúrdias de que “homens não querem aprender”, “brancos só sabem oprimir” e “héteros são excluidores desde o nascimento”.

A luta de classes explicitada pelos estudos marxistas, a pedagogia do oprimido de Paulo Freire aplaudida pelo mundo se transformaram numa guerrilha de classes e na Revolução Francesa do Oprimido, levada a cabo por milhares de Robespierres sedentos por sangue. A nossa sede por transformar o mundo, por experimentar um pouco do gosto da mudança social é tão grande que não cansamos de torcer, distorcer, retorcer e inventar palavras e citações de um inimigo comum à nossa causa.

Assim como na época do fatídico plebiscito do Estatuto do Desarmamento, no qual ambos lados foram punidos por mentir ao público (e ambos utilizaram seu tempo para dizer que o outro tinha mentido, esquecendo das suas próprias mentiras e das suas próprias propostas), vivemos tentando fazer religiões pagarem impostos, proibindo mulheres de terem auxílio estatal para criar seus filhos, defendendo ataques a protestos políticos e apoiando a barbárie – só porque acreditamos que o locutor do momento não esteja de acordo com o estereótipo definido pelo grupo social.

Sim, estereótipo. Falar que um homem não serve para falar sobre o feminismo é apoiar-se em estereótipos. Falar que uma mulher branca não pode falar sobre a luta de mulheres negras é não só manter o estereótipo, mas reforçá-lo. Excluir heterossexuais da luta LGBTQQI é reforçar o isolamento social que deu origem a esses grupos de luta. Não sei exatamente quando surgiu essa aversão ao academicismo, ou quando histórias de vida, testemunhos e vivência começaram a se tornar tão auto-suficientes.

Na verdade, se houve um momento no meu contexto social que testemunhos se sobrepuseram e excluíram o academicismo, foi quando começaram a surgir denominações neopentecostais – sim essas mesmas que todos reclamam que formam um gueto cristão, excluindo-se da sociedade e criando aberrações como os políticos que temos hoje em dia e boa parte do senso comum deturpado acerca de sexualidade e outras causas sociais.

Não é uma questão de unidade do movimento – os neopentecas também tentam soltar essas contra nós: se trata de lutar pela justiça social. Sou um homem que está em lugar de fala. Um branco cristão debatendo assuntos que não me convém. Um heterossexual usurpando o protagonismo. Mas sabe por quê? Porque eu não vivo nessa sociedade para defender os meus direitos. Não estudei Direito para defender o meu umbigo. Não entreguei a minha vida a um Deus que eu acredito para ter a minha Salvação e tocar o foda-se pro resto do mundo.

Não vou subir no palanque. Não vou fazer guerrilha. Mas não ouse tentar me excluir dos debates. Não tente me retirar das conversas. Não venha me dizer o que eu devo ou não devo fazer. Venha conversar, venha debater.



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(Para quem não sabe, eu sou um homem que escreve n’O Feminista e um não-deficiente que escreve no Eficientes)

Um grupo de pessoas que se junta para… se bater. Lutar, socar, extravasar todas as tensões do dia, de uma sociedade feminina. Exercitar a testosterona dentro de um ambiente controlado, onde é só levantar a mão, ou pedir pra parar que tudo volta ao normal, apenas para uma pessoa – uma forma de escapismo da sociedade, opressiva com o homem.


Parece o roteiro de um filme cult, mas esse não foi gravado no final dos anos 90 – na verdade esse filme foi realidade em alguns lugares durante toda última década do séc. XX, só que sem uma personalidade forte (e que não fosse perseguida pela polícia), virou bagunça, com uso de armas indiscriminadamente – e assim como começou, tudo se acabou. Mas ainda assim, foram quase 7 anos de lutas, sangue e satisfação. Mas ao mesmo tempo, ódio pela sociedade.

Como assim? O Clube da Luta não é o filme cult mais amado pelos hipsters? – Isso não quer dizer que um terço das pessoas entraria na pancadaria. E é a máxima de sempre: todos querem um ideal, mas assim que ele vira realidade, ninguém quer entrar no meio. É tipo filho dos outros (se for de estrangeiro então!) – é bonito, é lindo e perfeito porque ninguém aqui tem um.

Quer seu próprio Clube da Luta? Furacão 2000 organizou os primeiros. Lado A x Lado B, pessoas que eram divididas numa linha imaginária no meio do baile e era um grupo contra o outro. A pancadaria A x B rolava noite adentro, e pra desistir, era só levantar a mão e abaixar a cabeça (e sair do baile bem de fininho) – no baile da outra semana, a divisão acontecia de novo, e antigos inimigos lutavam lado a lado, e se protegiam como irmãos.


Mas pancadaria da favela é feia. Bonito era Tyler, que morava numa casa invadida, pichada e não trabalhava – só que como falava inglês, era chique.

Eu ouço rock. Ouço metal, já fui metaleiro. Metaleiro de achar Iron Maiden poser, e Guns’n’Roses vendido. Daqueles que procurava nas listagens de bares obscuros da Noruega novas bandas. De baixar músicas de sites alemães de MP3. Ouvia muita coisa de muitos dos estilos do rock e metal. De Bob Dylan, Queen, Elvis a Rhapsody, Gamma Ray e Edguy, passando por Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Antestor e boa parte da música gótica – Lacrimosa, Theatre of Tragedy, Vanitas (não há mais de oito pessoas na América Latina que conhecem essa banda) e Blessed Suicide.


Já paguei de dark, mas hoje voltei a escutar o bom e velho rock normalmente – e não reviro os olhos toda vez que ouço um LMFAO da vida. E ontem eu não comemorei o dia do rock.

Não é que eu não gosto de rock. É que eu cansei dos rockeiros. Rockeiro é o anti, da música. O que é o anti-corinthiano, que se move por odiar o Corinthians, e nem acompanha seu time direito. A pessoa gosta de futebol pra poder odiar o Corinthians – assim é o rockeiro. Gosta de música pra poder odiar o ritmo.

Rockeiro é o cara que reclama do funk alto no Chevette rebaixado mas não perde oportunidade de colocar um CD do Blind Guardian no volume máximo – porque se a música está baixa demais é porque você está velho. (não a dos outros claro)

Você é rockeiro, e odeia funk, porque funk é uma coisa que torna as mulheres simples objetos sexuais; detesta axé porque é música de gente suada num lugar só falando umas coisas que não fazem o menor sentido; sertanejo é música de corno e caipira. Você é rockeiro por eliminação, então. Não é porque gosta de rock, é porque o resto não é bom o suficiente pra você.

O que eu acho mais genial é que existe preconceito dentro do próprio rock – pessoas lutando pra provar que são mais tr00 que as outras, que banda X e Y são fakes e coisas de wannabes. Rockeiro tem preconceito até dentro do rock, quem dirá em outros estilos musicais.

O problema é que se você é cego suficiente pra ignorar o Passinho do Funk, e acha que o resto é coisa de quem não tem escolaridade nem ideias, cara. Acho que o problema então é você. Você é daqueles que é contra a orkutização, que reclama quando os pobres começaram a usar o computador e a internet deles, e começou a inclusão digital.

Eles já estão em todos os lugares, com suas gírias, suas roupas de mala, suas vilenagens, suas músicas altas em celulares dentro do ônibus (ou do carro rebaixado, que você ri por estar em péssimas condições), e agora invadiram a sua internet. Por favor, não acabem com o rock.

O rock é o último refúgio do preconceito. Odiar música dos outros ainda é bonito, que bom pra você, rockeiro. Que pode dizer que carnaval é uma porcaria e falar que o Rock in Rio foi uma maravilha e ninguém foi furtado ou passou mal.

Fale como as letras do Rock são as mais inteligentes, como o Rock é o melhor e como todo mundo que curte Rock é mais avançado e desenvolvido. Vá, use sua liberdade de expressão, mas use-a pra falar do que você gosta. Pare de perder seu tempo falando dos outros estilos musicais, pelo amor de Deus e vá curtir seu Rock.

Não entendo a necessidade de se provar que existe algo errado. E geralmente, esse algo errado é uma coisa que está longe de nós, provavelmente feito há muitas gerações e que mudar seria pelo menos muito difícil.

Acho impressionante como as pessoas culpam o sistema, sem saber de onde ele saiu. É fácil falar que o problema da política é o sistema político, se você nunca estudou história e ciência política, aí de repente, o modelo político dos EUA, da Dinamarca e outros países ~prósperos~ realmente parece perfeito. Só que você não vê que um dos candidatos às eleições presidenciais dos EUA vem da extrema direita que quer acabar com os direitos dos homossexuais.

É fácil falar que as igrejas tradicionais são muito engessadas e que ignoram os jovens e a sociedade, se você não estava lá enquanto elas se mantinham fortes enquanto outras caíam em teologias de prosperidade e avivamentos duvidosos, porque foi isso que os anos 80 e 90 gritaram.

É fácil falar que as leis são uma porcaria e defendem bandidos quando não são feitas prisões preventivas, mas é mais fácil ainda falar que a lei é dura quando estudantes em protestos pacíficos são presos e apanham de policiais. Ué, não eram esses mesmos universitários que apoiavam a política de atirar primeiro e perguntar depois das tropas de elite?

É fácil reclamar que não existe produção de conteúdo, que o humor se perdeu, que a música é repetição quando você se fecha e diz que sertanejo, funk e qualquer ritmo que você não se agrade não seja música. Antes de falar que funk é só mulher seminua conheça o passinho – você é tão preconceituoso como quem diz que metal é satanista.

É fácil reclamar que está tudo errado e o mundo não vai pra frente. Que as pessoas não sabem mais conversar, que a igreja não faz mais seu trabalho, que o mundo é mais egoísta. É legal escrever isso, desenhar sobre isso, até cantar sobre isso.

Sabe poque é legal? Porque tira a sua culpa do processo. Você se sente aliviado por ter denunciado o esquema, e pode seguir sua vida, com fone de ouvido pra não ser incomodado.