Opinião

Piou e morreu. Eu não conhecia bem aquele canário, quando eu cheguei ele já estava aqui. Era de estimação de um antigo morador, me confidenciou uma das moradoras da vila, ele sumiu um dia e o canário ficou. O bichinho ficou e foi adotado por toda a vizinhança. Faziam rodízios para alimentá-lo, trocar a água e limpar suas sujeiras. Cantava bonito, e com ele a turma se acostumou.



Recebia a todos os novos moradores e visitantes com uma melodia única – não era alegre nem triste, não era excelente nem fraca, era única. Podia dizer-se que o bichinho era carismático. Conquistava atenção de crianças e velhos, mulheres de vestidinhos soltos e homens de cara amarrada. Cada um tinha um nome para ele, ninguém se lembrava exatamente de como o antigo morador o batizara (na verdade, ninguém nem soube dizer quem era o antigo morador, ou há quanto tempo ele tinha ido embora).

Um dia, uma criança deixou (talvez não tão sem querer assim) a gaiola aberta, e o canário fez o que se espera de todo canário: foi. A vila ficou num misto de alegria e tristeza, que eu confesso que me atingiu mais do que esperava. Tinha parado para prestar atenção uma ou outra vez nele, mas a sensação geral me atingiu como um soco na boca do estômago.

As crianças tristes, os adultos com coração pesado mas tentando mostrar que o canário estava voando por aí, espalhando sua melodia. É egoísmo querer guardar coisas bonitas só pra gente, me confidenciou uma garotinha que não devia ter mais que um metro e trinta (acho mais seguro medir crianças pelo tamanho do que pela idade, nunca consigo acertar a idade de crianças).

Não demorou muito e alguém do bairro vizinho postou uma story no instagram falando sobre um canário de canto único – ouve como esse canário canta, nem parece canário. Foi um frenesi: o jonas ganhou da noite pro dia, quinze seguidores que dividiam a mesma caixa dos correios. Não demorou muito e apareceu um tweet sobre um canto. Um texto num tumblr, uma poesia no Medium.



Por aqui e por ali, os moradores recolhiam lembranças virtuais do canário que contagiava as pessoas por onde passou. Um dia cheguei em casa mais cedo, algo estava me incomodando no escritório e eu não conseguia trabalhar. Aproveitei que saí no meio do expediente nessa plena quinta feira e pedalei até a padaria de duas quadras pra cima de casa. Cheguei com a bike em uma mão e um saco de Carolinas na outra e um rebuliço formado no pátio.

A gaiola aberta, e o pássaro lá. Fazia o quê? Dois meses? Dois meses e meio? E lá estava ele. Na outra manhã ele cantou – e cantou como nunca tinha cantado. Não sei se eram as experiências no mundo lá fora, se foi fruto de sua consciência ou se ele já sentia o amanhã, mas ele cantou com uma leveza que, nem mesmo nele, eu tinha visto.

Recebi uma ligação, sexta à tarde. O canário parou de cantar. Segurei o fôlego, mas não consegui segurar as lembranças. Olhava as folhas na minha mesa, as telas pedindo atenção, mas nos meus ouvidos ecoavam os seus cantos. O seu último canto foi o mais bonito. A sua última música ainda ecoa dentro de mim, nessa sexta feira. Nesse hoje.

Obrigado, canário. Que você esteja livre como esteve na sua última canção, esteja onde estiver. E a sua vila? Lembramos dos nossos bons momentos.

 

 

(a foto original da capa é do Li Baroni, e você pode vê-la aqui)

Contos de Domingo

Teto, parede, janelas, porta. Ainda estava tudo ali. Não era a primeira vez que tudo lhe parecia levemente diferente, embora não soubesse bem definir o quê. Calçou seus chinelos que eram azuis-marinho (mas tinha a leve impressão de que já teriam sido pretos), olhou o relógio que pendia por cima de uma janela (mesmo que lhe parecesse que estavam ao lado da porta na antevéspera), levantou-se e encarou o corredor. Não se recordava de tê-lo decorado dessa forma. Mas como eram suas as fotos que espalhavam-se pelas paredes, mostrando o caminho da sala numa indicação do caminho a seguir, resmungou e seguiu para o desjejum, enquanto as pernas rangiam de cansaço.



Caneca verde-abacate, prato branco e torradeira grafite. Nem sabia se grafite era uma cor, mas tinha sido convencido por uma colega do trabalho (ou seria da faculdade?) que bordô era uma cor, não uma cidade na França, então grafite provavelmente também poderia ser uma cor. Seja qual cor fosse.

Desceu pelo elevador de serviço porque se confundiu nos botões do corredor, teve que dar algumas voltas na garagem do prédio até descobrir onde tinha parado seu carro, consultou o GPS para ter certeza que a empresa ainda estava no mesmo lugar de sempre – esta infelizmente nunca mudava. Seria interessante trocar a mesa de madeira envernizada já gasta pelo passar dos anos e dos outros sete analistas que passaram por ali antes dele por algo menos… bege.

Subiu as escadas da empresa porque algum dia prometera fazê-lo caso conseguisse o emprego, e maldisse esta promessa como o fez nos últimos três anos. Estúpida superstição, pensou, como pensara religiosamente nos últimos oitocentos e vinte e sete dias, através dos quais alcançara a marca de setenta e nove mil, trezentos e noventa e dois degraus. Nunca perdeu a conta. Sempre detestou cada um daqueles degraus. A única coisa que ganhara, além de peso, fora a dor nas pernas, que nunca lhe abandonara.

Sentou-se em sua mesa, ainda gasta. Olhou pela janela, encarando o mesmo grafite que o encarava de volta nos últimos treze meses. Realmente não entendia porque tantos nomes para cores, alguém devia estar sendo pago para isto. Pense, fúcsia. Deveria arrumar um emprego assim, criando nomes aleatórios.

Já passara das onze quando chegou em casa. Parou o carro na vaga que o encontrara de manhã, encontrou o elevador social e em menos de quinze minutos estava no banho. Ganhara, nas últimas vinte e quatro horas pelo menos mais quatro hematomas. Deveria realmente ir ao médico, não é normal ter hematomas por subir escadas. Poderia ser um problema sério de circulação. Lembrou-se que seu tio-avô, dois primos de segundo grau e uma cunhada tiveram problemas de coração logo antes de falecerem.

Olhou para o relógio pendente sobre a janela e perguntou-se porque raios alguém colocaria um relógio lá. Dormiu, e foi então que levantou-se.



(A série Um café com… é baseada na interpretação dos livros e das mensagens passadas por algumas pessoas. Ficção, baseada em impressões. Não chega nem perto de uma tentativa de biografia, é apenas uma quase-homenagem)

Quando eu cheguei, ele já estava lá. Sentado, com uma xícara na sua frente, eu diria que a sua pontualidade é inglesa, se isso não fosse meio incomodante pra qualquer irlandês, por maior que o seja. Quando sentei, o cumprimentei, e ele abriu um sorriso de quem já se acostumou a ouvir qualquer desculpas acerca do trânsito, da vida ou de fatores quase sobrenaturais para os atrasos alheios – nem me arrisquei a abrir a boca e entrar por este caminho.


Pelo contrário, ofereci-lhe pagar por outra bebida – que depois vim a descobrir ser água tônica. Diferente, porém compreensível. Acho que nunca vi uma bebida que definisse alguém de uma maneira tão completa – aquele gosto suave, refrescante mais ao mesmo tempo que puxa um pouco para o amargo, remete muito à literatura que aquele homem escreveu durante seus longos anos nessa caminhada que foi do ateísmo absoluto à entrega completa.

Seus livros ficcionais descrevem com uma clareza quase cegante a maravilha da Criação e dos planos e propósitos de Deus nos fazem sonhar, até que a natureza humana é mostrada na sua face mais crua – aquele gosto amargo do final da água tônica.

Conversamos levemente, sobre qualquer coisa de leve que eu não me lembro bem quais eram. Eu só tenho certeza que ele conseguia falar de alguma coisa que me remetia à teologia, sem nunca falar claramente; parecia que o Evangelho saía naturalmente de tudo que ele era e fazia, de uma forma tão impactante que não me restou muita coisa além de buscar todas as mensagens que aquele homem dizia, fazendo ligações e conexões com tudo que aprendi, estudei e vivi. Parecia que algumas coisas iam ao encontro de tudo que eu passei, como se ele estivesse estudado a minha vida; outras abriam novas perspectivas sobre coisas que até então eu me mantinha irredutível.

Lembro vagamente de alguns princípios de relacionamentos amorosos enquanto falávamos sobre a seleção irlandesa de futebol; alguns comentários sobre a plenitude divina enquanto falávamos sobre o café que nos encontramos; e até mesmo os problemas de se reduzir Deus à nossas teologias e convicções enquanto caminhávamos para fora do café (mesmo que eu não me lembrasse de ter levantado, ou pagado a conta).

Mas foram suas últimas palavras antes de entrar no táxi que ecoaram na minha mente por tanto tempo que, até hoje, enquanto escrevo esse texto, elas não desceram, entaladas na minha garganta.

Era algo assim “Não use o conhecimento de Deus para classificar as Suas ações, efeitos e transformações. Viva. Sinta. O resto, vem. Não se preocupe com o que é a manifestação da graça comum, como ela acontece e seus efeitos. A reconheça. A viva. A sinta. E reforce sua vida para servi-Lo.”

“Agora vejo como o senhor do mundo silencioso modificou você. Existem leis conhecidas por todos os ‘“hnau”, leis de piedade, justiça, vergonha etc., e uma destas é o amor aos seus semelhantes. Ele ensinou você a desobedecer a todas elas, exceto esta última, que não é uma das maiores. Ele deturpou-a de tal maneira que a transformou em loucura e tomou conta de seu cérebro onde governa tudo como se fosse um pequenino Oyarsa cego. Nada mais lhe resta senão obedecê-la; apesar disto, se lhe perguntarmos porque ela é uma lei, você não poderá dar uma razão diferente da que faz as outras serem leis; estas, no entanto, embora maiores que ela, são desobedecidas.”

(Além do planeta silencioso, C. S. Lewis)


Se Deus fosse brasileiro. Ah, se Deus fosse brasileiro. Todo mundo acha que Deus é brasileiro, né? Que maravilha, uma terra abençoada por Deus e bela por natureza. Um povo pujante com glórias mil.Mas você já parou pra pensar se realmente Deus fosse brasileiro, o que teria acontecido?

Pra começar, o mundo teria sido planejado para ser construído em 7 dias, mas até hoje o Oceano Índico não teria sido entregue, e as obras na Austrália e Nova Zelândia seriam invadidas por um grupo de protestantes contra a intervenção no nada – diversos grupos ambientalistas se uniriam para proteger o nada  do lado de lá do oceano, enquanto de cá a coisa ainda estaria pior.

Sob indícios de superfaturamento, o deserto do Atacama ganharia mais um ou dois lagos para conseguir passar o projeto no IBAMA e na Comissão Ambiental do Senado; o Rio Amazonas teria suas obras interditadas pelo TCU para avaliar indícios de corrupção ativa e passiva, e a criação dos ornitorrincos não passaria do papel.

O mundo teria sido inaugurado no terceiro mês de obras, mas ainda assim, estaria vazio porque não teria sido acabado – mesmo sem o Oceano Índico, a Oceania e o Rio Amazonas, o mundo funcionaria em fase de testes por aproximadamente dois anos, com humanos ocupando algumas áreas da Islândia (conjuntamente com os pinguins, por algum entrave burocrático inexplicável) e Groelândia (onde seriam caçados por marsupiais – só pra ver no que é que dá, segundo o relações públicas terceirizado que o Deus, brasileiro, teve que contratar, para conseguir a licitação das obras do mundo).

Desnecessário dizer que depois da fase de testes o projeto seria abandonado, as estradas intergaláticas que fazem a ligação do mundo com o resto do Universo seriam fechadas e estaríamos entregues à nossa própria sorte – e com o medo de marsupiais e seus esquemas táticos noturnos. O resto do Universo? Viveria muito bem sem nós.


(a imagem é meramente ilustrativa)


Hoje é dia de pegar a estrada, de juntar numa mochila tudo que acho que eu vou precisar até o final do mês e me virar com isso. É sair da vida e poder olhar de uma perspectiva de fora. É poder ver o sol nascer em um outro lugar e ver que o mundo é essencialmente o mesmo, mas as pequenas diferenças são gigantescas pra quem é pequeno como eu.

É tentar esquecer o ego e toda a mistura ruim que se formou dentro de mim, lembrar do rumo da minha vida, e traçar o melhor plano para voltar ao justo. Reparar provisoriamente os danos que causei, e dar o tempo necessário pra que tudo volte a circular como já um dia circulou.

Tempo de juntar as emoções pra jogar bola – tocar uma pelada, beber um refrigerante ruim que ninguém há mais de 500km tenha ouvido falar, conversar e entender todas elas,  e quem sabe conseguir compreender meus últimos dias, meus últimos suspiros e os últimos pesares do meu coração.

Hoje é dia de pegar a estrada, de respirar ares novos, lembrar daqueles lugares que já passei, dos sorrisos que eu já dei, das lágrimas que no meio do nada eu já despejei e de quem eu sou e o que raios estou fazendo por aqui.

É hoje.


Acordou com estômago embrulhado, revirando – até com a visão meio turva. Sentia-se mal, com aquele gosto de paçoca velha na boca (se você não sabe como é, continue só imaginando), como se tivesse com o gosto dos últimos acontecimentos no seu paladar. Acordou com a moral mais acabada do que a roupa da noite anterior, jogada no canto do quarto, ainda úmida da chuva que tinha pegado no caminho pra casa. Se levantou com a força e a vontade de um labrador obeso de 12 anos, enquanto tentava decidir se ia comer algo ou escovar os dentes direto – com as duas voltas e meia que o seu estômago deu no esôfago, resolveu não fazer nenhum.

Mal conseguia processar uma meia dúzia de comandos mais simples – como calçar o tênis certo, não colocar meias de pares diferentes e continuar a respirar normalmente sem que a cabeça começasse a doer tanto quanto deveria doer um chip AMD se ele não esquentasse daquela maneira.

Se aquela briga toda tinha provocado aquela revolta estomacal nele, não queria nem pensar no que aconteceria mais tarde, quando as últimas figurinhas fossem trocadas. Com um suspiro de desânimo, resignou-se. Existem coisas que se pode escolher, e existem as consequências por escolhê-las. Chegara a um ponto que não estava mais preocupado com as consequências, só tinha que fazer o certo, uma vez na vida. Estava quase saindo, mortificado com os pensamentos, quando teve uma ideia brilhante. Podia funcionar, quase esperançoso.

Voltou pro quarto, abriu uma porta, e se aliviou. É, às vezes era só estomacal mesmo.

Tátudubei, agora.


O fim do mundo vai ser daqueles em que a terra vai invadir o céu. Não será um céu vermelho, de fogo, nem um céu negro que estamos acostumados a pensar num fim apocalíptico. Será um céu laranja, laranja da terra que invadirá o ar de nossas cidades, enquanto o vento corre pelos nossos pés, furioso por ter seu lugar roubado pela terra que polui os céus.


O mundo acabará num vendaval. Não vendavais cinematográficos que casas são arrancadas e vacas saem voando pela força do vento, isso é ridículo. Vai ser daqueles vendavais que atrapalham a dirigir moto, que passam uma rasteira nos mais desatentos e fazem caixas de papelão parar nos locais mais improváveis – como no parabrisa daquele caminhão acima do limite de velocidade.

No meio de toda confusão, com animais fugindo de medo, os homens, distraídos pela sua vida, com as pressões e correrias da rotina não verão nada demais – talvez aqueles mais atentos irão parar por alguns segundos para observar o mundo que se revira à sua volta; apenas o tempo suficiente para lembrar de twittar sobre isso, ou pegar a câmera para filmagem.

O mundo acabará, e somos os únicos que não nos ligaremos a esse fato. Os vídeos gravados durarão por alguns dias nos mais vistos e comentados, e quando não houver mais ninguém, ele continuará a rodar em loop nas telas de alguns telejornais.

Veremos as coisas à nossa volta serem destruídas, toda a existência se alterar por uma tela de LED FullHD que é quase como se tivéssemos aberto a porta e contemplado por fora dos portões de nossos prédios. Através das janelas com filme dos nossos carros. Além dos nossos fones de ouvido, de nossa realidade aumentada. A revolução acontecerá, e nós não ficaremos nem sabendo. Ou será que ela já aconteceu?

Se eu tivesse um conselho pra te dar, você que está recomeçando agora, mais uma vez. Se eu tivesse um conselho pra me dar, eu que estou tentando me reconstruir de novo. Se eu tivesse um conselho que fosse brilhante, que pudesse me guiar, e me mantivesse firme no meu propósito, se eu tivesse como contar a um amigo como chegar onde ele quer ir, e dizer algo mais espirituoso que ‘se espirrar, meu amigo, saúde’.

Se eu tivesse como escrever uma frase em algum lugar do meu coração, ou se escrevê-la na parede do meu quarto ou no meu espelho adiantasse alguma coisa. Se eu pudesse escrever uma música sobre isso que fizesse todo sentido e não desgrudasse da minha cabeça com um refrão mais grudento que balinha de cinco centavos no céu da boca.

Se eu tivesse como dizer algo a quem já caiu comigo; a quem caiu e ainda junta forças para levantar. A quem olha à sua volta e não reconhece onde está ou como foi parar ali. A quem está tão perdido quanto eu e se sente como se tivesse se atrasado, ou perdido tempo com a cabeça em outro lugar.

Se eu tivesse como, ao olhar alguém que disse que não queria se adaptar, mas ainda não vê outro caminho a não ser se submeter – ou a quem tentou não se adaptar e enfrentou de peito aberto todas as crises que vieram com isso, se eu tivesse como dizer algo a essas pessoas.

Se eu tivesse como dizer a você, que já perdeu as contas de quantas vezes teve que se dobrar e recolher os seus pedaços caídos no chão, pisados com mais força do que baratas voadoras, quando finalmente são pegas. A quem se resignou mais de uma vez porque sabia que falar algo seria a pior coisa a se fazer, por mais que doesse ficar calado e acompanhar o rumo das coisas.

Se eu tivesse como dizer algo a mais um de nós que viu mil caírem ao seu lado e dez mil à sua direita, mas ainda permanece de pé, embora sozinho, e não vê nenhuma vitória nisso, enquanto sente suas forças se esvaecerem, sem ter onde se apoiar, a não ser em uma pilha de pessoas que já se foram.

Se eu tivesse como dizer algo a quem está sendo enfrentado por aqueles a quem amava, a quem foi traído pelo seu círculo de confiança – a quem levou pedradas de quem esperava ao menos um abraço. Se eu tivesse algo a dizer a essas pessoas, que tão longe, estão tão próximas de mim.

Se eu tivesse como dizer algo às pessoas que expõem seus sentimentos no meio a um mar de dramas e de mimimis e descobrem que ninguém mais vê diferença entre egos, carências e tristeza.

Se eu tivesse como dizer algo a quem tinha encontrado um grupo íntimo e de verdadeiros amigos que há muito procurava e de repente viu que, assim que se mergulha um pouco mais na intimidade, na personalidade de cada um, que as coisas são muito mais podres do que eram anteriormente.

Eu diria ‘calma, cara. Tamo junto.’

E vamos em frente.


Existe alguma coisa nesse sol de sábado de manhã que me faz feliz. O sol de sábado de manhã liberta, nos faz sorrir, respirar um ar mais puro, e eu não sei nem porquê. Mesmo passando a manhã inteira trancado numa sala de aula, com ar-condicionado, o sol de sábado de manhã, quando estou à caminho da faculdade me faz sorrir.

Não sei se é o trânsito mais vazio, se é a sensação de estar cumprindo um dever acordando cedo – pode ser só que eu acorde de bom-humor cedo (no meio de tanta gente que só reclama de horários de levantar). Eu só sei que atravessar a cidade de moto, sentindo o vento da manhã, enquanto o sol quase faz arder os meus olhos de tanta intensidade é uma das melhores coisas do mundo.

Essa sensação de liberdade me traz à memória aquilo que alimenta – aquilo que me dá forças pra lutar, e pra prosseguir. Por pior que eu esteja, por mais que as coisas estejam difíceis, o sol de sábado de manhã me lembra de quem eu sou, e para onde eu vou. Reforça minhas convicções, relembra-me as minhas escolhas.

Ah, o sol de sábado de manhã. Sol de sábado de manhã me lembra de você. Do seu sorriso. Me dá vontade de te dar um abraço, sentir o seu cheiro. Esse sol, de sábado de manhã, me dá vontade de estar bem contigo. De fazer o meu melhor por ti. E para ti. (como se houvesse algo que eu pudesse fazer por você, mas é assim que eu me sinto –animado, empolgado).

Como eu queria que nunca acabasse. Mesmo que eu esteja indo para aula, depois de uma noite mal dormida. Porque para mim, o sol de sábado de manhã, é quase como estar com você.


Eu não quero te mudar.

Tarde demais. Eu mudei por você quando te conheci – eu não trato todo mundo assim; eu mudei meu jeito de conversar pra poder passar mais tempo conversando contigo sem o assunto morrer e sem eu ficar com cara de tacho olhando pro facebook, esperando algo mágico acontecer.

Eu mudei meus gostos musicais, porque algumas bandas me trazem você à cabeça, e elas povoam minhas listas de reprodução mais do que as minhas músicas favoritas – que eu custo a me lembrar quais são.

Eu mudei com as outras pessoas, porque eu só falo de você. Tudo tem a ver com você, tem uma história sua, um detalhe do que a gente passou, o que eu acho que você falaria, um sorriso, uma lembrança de você.

Eu mudei meus planos, porque não fazia sentido ter você só por um tempo, se eu podia ter você pra sempre, e ter o seu sorriso me acompanhando todas as noites – e o seu mau-humor logo pela manhã.

Eu mudei meus planos, porque eu quis ver você todos os dias, e me viciei nisto. Em olhar pra você, em conversar com você, fazer você sorrir e brigar comigo. Em te machucar e pedir desculpas. Em falhar, e ser perdoado.

É, é tarde demais pra não querer me mudar. Sem você, eu não estaria aqui.