Opinião

Todos nós nos identificamos com Jessica. Este pode ser, claramente, um dos maiores ganchos para a série fazer tanto sucesso. Ao contrário dos quadrinhos e super-heróis em geral, Jessica tem algo muito mais humano do que Batman, Homem-Aranha, o Coisa ou o próprio Demolidor.



Sim, como circula o texto pela web, Jessica Jones não é sobre super-heróis. Jessica Jones é sobre abuso, das mais abrangentes e diversas formas possíveis. Abuso físico, abuso sexual, abuso psicológico. E assim como toda vítima de abuso, Jessica se sente co-responsável por todos que passaram pelo caminho dela e sofreram com as consequencias.

Jessica é gente como a gente. Não é como um super-herói que não se preocupa com as pessoas que estavam no prédio que caiu durante a briga entre ela e o super-vilão. Jessica sente a morte de cada uma das pessoas que estavam no caminho entre Kilgrave e ela. Ela não entende o conceito de dano colateral, de bem maior. Jessica é como cada um de nós somos, lá dentro: procurando a auto-punição por erros que cometemos – sejam eles responsabilidade nossa ou não. Jessica Jones é uma série transparente, que mostra como tudo que acontece conosco tem profundas consequências em todos aspectos de nossa vida. Como toda série, vai ao absurdo – o abuso pelo controle da mente.

O problema é que Kilgrave, em sua essência, também é gente como a gente. Não é preciso controlar a mente de alguém para que essa pessoa faça a nossa vontade. Fazemos isso o tempo todo. Joguinhos psicológicos, frases soltas na lata, torturamos os outros a todo o tempo. Torturamos para não sermos torturados. Levantamos nossas defesas no dia-a-dia, tentando fugir do controle alheio. Usamos de desculpas esfarrapadas, como um trauma antigo ou uma decepção nova, para nossas atitudes mesquinhas e ególatras. Queremos controlar o que acontece à nossa volta, mas não por uma falsa sensação de segurança: é pelo poder.

Somos tão Kilgrave quanto nossos egos nos levam a ser; somos tão Jessica quanto nossa consciência permite. A diferença é que, bom, esta é a vida real, e a gente pode fazer o ciclo de abuso parar. O que fizeram a nós não é desculpa pelo que fazemos aos outros.



(resolvi colocar a foto do David Tennant como o 10º Dr Who porque não consigo assistir JJ sem lembrar dele)

Utilidade Pública

Não existem paralelos numa discussão entre desiguais. Se você parar pra pensar, até que os desiguais consigam se encontrar em um piso comum para não serem mais tão desiguais, não há como uma conversa, um debate, ter frutos.

Não, não é que as pessoas precisem discutir só entre seus pares (o que nem chega a ser discussão, mas uma grande masturbação coletiva), mas na verdade a gente precisa sempre entender os contextos alheios – o que, é claro, é muito mal visto. Tentar compreender o contexto alheio não é sororidade, compaixão ou humanismo. Não é colocar a pessoa humana acima das ideias: é relativismo.



Relativismo, o grande pecado para a igreja contemporânea, o pior erro de um justiceiro social, o único meio de se aproximar dois extremos para impedir de ver o outro (o estranho, o diferente) como um pária, mas sim um indivíduo. Não podemos ser relativistas, não podemos debater com pessoas que discordam de nós. Ah, Deus não existe? Fora do meu feed. O quê, contra o aborto? Block nele! Acha que o liberalismo vai salvar a economia do país? Seu conservador liberalóide leitor de veja! Acredita que o governo ainda deve manter as ações do Banco do Brasil e Petrobrás? Seu comunistinha de merda!
O relativismo só é visto como erro quando as suas idéias são mais importantes que os outros indivíduos. Seja a sua fé, a sua ideologia ou o seu conceito de, veja só, o que o governo deve investir no que diz respeito à educação pública, tudo isso deve ser encarado de uma forma a compreender que bom, o outro pode discordar dessas coisas.
E discordar não precisa necessariamente ser ruim, como todos nos disseram, seja no seminário de formação política, seja na escola dominical. Quem discorda das suas brilhantes não é burro, alienado ou perdido. Apenas tem concepções diferentes das suas, viveu e experimentou situações que moldaram quem ele é hoje. Você não precisa mudar a sua opinião, votar num plebiscito a favor da ditadura comunista (ou militar), ou aceitar qualquer um na sua concepção de paraíso (seu universalista!) – mas aceitar que nem todo mundo entende assim e que as pessoas podem ter opiniões e conceitos diversos dos seus, e nem por isso você precisa matá-las ou cortá-las da sua vida.


Ouvir e compreender a opinião alheia, discutir em pé de igualdade e respeitar (pra recair nas falas de DCEs) a vivência alheia. Não estou falando que você precisa ouvir desaforos, que você precisa sentar calado respeitando um racista, um misógino, por exemplo. Mas até chegar nesse extremo, há milhares de pessoas que simplesmente discordam de você em menor grau que, se estiverem tão comprometidas com você a encontrarem um ponto comum (ou a menos compreender aonde vocês querem chegar), a discussão caminhará e o respeito, o pássaro do respeito não precisará morrer.
Pode parecer engraçado, mas muitas feministas querem igualdade. Muitos neros quem igualdade. Muitos cristãos, muçulmanos, árabes, indígenas, produtores rurais, políticos, empresários, comunistas, policiais e até mesmo muitos aventureiros da justiça social só querem construir um lugar melhor para todos.

Mas pra chegarem lá, precisam se lembrar que as pessoas para as quais esse mundo precisa ser melhor são mais importantes do que o caminho ou a ideologia seguida para construção desse mundo. Se não, é demagogia.



Opinião

Uma das matérias mais procuradas por estudantes de Jornalismo é o jornalismo opinativo. O que de fato, é bom. É bom que as pessoas comecem a se interessar por algo além do LEAD e que tentem ir atrás do ‘algo mais’ que falta ao jornalismo tradicional.


Mas também é preocupante. Cada vez mais se busca fundamentar a própria opinião frente à pauta do que efetivamente conhecer a pauta e, dentro de um trabalho de apuração  jornalística, opinar acerca dela, mostrando um viés específico – igual no fundo, acontece na nossa vida cotidiana, pessoalmente.

O problema desse jornalismo que é um meio de se provar e/ou justificar a opinião do jornalista é que ele é tão desserviço quanto o jornalismo de LEAD que joga uma informação crua para o receptor – ele não acrescenta nada, ou pior, reforça preconceitos internalizados.

Da mesma forma que um cristão vai ler um texto com o pressuposto da sua fé, o estudante de jornalismo hoje corre atrás da pauta para provar suas opiniões pré-concebidas. Encaixa as fontes que acredita serem necessárias, ignorando outras ou buscando estereótipos para reforçar o fato que “o outro lado é uma merda”.

Problemático porque, bom, pessoalmente, na sua individualidade, ser assim já é problemático. Primeiro porque você se torna um guardião de conservadorismo e senso comum sem sentido, repetindo preconceitos e estereótipos ultrapassados ou ainda estabelecendo novos. Quando se trata de um jornalista, emissor de informações à grandes massas que fez um curso superior para, teoricamente, saber como lidar e tratar com estas informações de relevância e modificar o status quo social então – aí a coisa perde o rumo.
Não adianta ser de humanas, liberal, lutar contra o capital e a propriedade privada se as informações que são emitidas são tão deturpadas ou alienantes como as de seus arqui-inimigos mais ardilosos. Porque se há uma luta de classes, e se há uma defesa do trabalhador, do proletário ou do oprimido, esta defesa deveria se esforçar para a sua libertação, não para novas amarras e correntes diferentes ou mais reluzentes.
Se alguém deturpa a verdade, não pode ser amigo do povo. Não pode ser jornalista, com ou sem diploma. Com ou sem opinião.


Opinião

Uma jovem de 18 anos foi vítima de uma tentativa de estupro dentro do banheiro feminino do bloco de Direito da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) nesta segunda-feira (21). Em conversa com a produção do MGTV, o pai da vítima informou que um homem entrou no local, que fica no campus Santa Mônica, enforcou a jovem e a levou para um box. A vítima gritou e se debateu até conseguir se soltar. O criminoso fugiu. (da reportagem do G1 Triângulo)

 



Esse texto é um desabafo. Um desabafo porque pra mim chega a ser surreal uma tentativa de estupro na FADIR-UFU. Surreal a ponto de eu não querer acreditar. Um prédio que eu passei seis anos e meio da minha vida – que cheguei a passar 18 horas por dia em um semestre, entre aulas de manhã, estágio à tarde, monitorias e mais aulas à noite.

Um prédio que era até chamado de Castelinho da Barbie pelo seu formado – e por ter portas trancadas em quase todos os horários. Um prédio que eu conheci todas as salas de aula, do calabouço até o ‘céu’. Um prédio que eu tive DRs, que eu tive momentos de romance, que eu assisti mais de 3 dias inteiros de One Piece, que eu entrei guri aos 16 anos e saí aos 22 como pós-graduado.

Um lugar que fez parte da minha história a ponto de ter esquecido luvas, fontes de notebook, capacetes (sim), celulares e ter tudo me esperando no mesmo local. Um lugar que conheci todos os cantos, todas as salas de direção, coordenação e até mesmo aquela salinha no canto do último andar da revista de Direito.

Um prédio no qual eu conheci pessoas que me levaram a andar esse Brasil de Criciúma (SC) a Fortaleza (CE). Que quebrou, moldou e remoldou meu caráter. Que foi cenário dos meus primeiros ensaios de fotografia – que eu tomei o laboratório de informática pra mim por três meses enquanto tentava montar esse blog (há três versões atrás). Dei monitorias, recolhi monografias, conheci pessoas fantásticas, criei inimizades, tive brigas, discussões e dormi nas escadas.

Um lugar que se faz lar toda vez que piso mais uma vez, que faço questão de mostrar pra conhecidos, que faço questão de citar e lembrar das histórias e bizarrices, um lugar que hoje não pode mais ser considerado seguro. Um lugar que a nova turma de Direito vai caminhar olhando por trás do ombro. Um lugar onde os alunos de outros cursos, que volta e meia tem aula lá, entrarão em silêncio não mais por estarem no Castelo da Barbie e serem atingidos por um raio reacionário, mas porque ali é perigoso.

Quero de volta as horas de descanso no sofá do Diretório Acadêmico. Quero mais uma vez poder sentar naquelas escadas e atrapalhar quem sobe e desce atrasado pra aula. Quero poder entrar lá e mostrar a placa da formatura da minha turma, sim, a quinquagésima nona turma, e apontar pra todas as salas de aula, lembrando do 1º ao 5º ano os professores insanos, as ameaças de greve, as tretas entre salas, o repúdio dos outros cursos. Quero que os estudantes de direito possam se sentir tanto em casa quanto eu me senti. Eu, meus bichos, os bichos dos meus bichos e todos meus veteranos nos sentimos. Porque, por mais que o direito possa nos ter levado pra caminhos tão distantes dos fóruns e tribunais, todos nós crescemos ali, naquele lugar, entre nossos colegas juristas.



Opinião

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Toda profissão tem um pouco de corporativismo. Você raramente vê médicos denunciando erros ou ações de outros médicos, ou advogados criticando abertamente o trabalho de outros advogados. Jornalistas tendem a se proteger, assim como praticamente toda classe de trabalhadores aprendeu, com o passar dos anos, que o outro que está ali não é um concorrente, mas um potencial aliado.

Por mais que o corporativismo não seja bem-visto pela sociedade, fugindo muitas vezes dos padrões éticos das profissões em geral, um pouco de corporativismo é essencial para que se respeite o trabalho da categoria. Você pega: um médico, quando você pede uma segunda opinião, nunca vai falar, por questões éticas e de respeito a um colega, que o doutor fulano está louco. No máximo, ele vai dizer que existem outras opções, sugerir uma linha alternativa de tratamento que seja mais simples, ou menos arriscada.



Um dentista raramente vai pegar um tratamento ortodôntico em andamento realizado por outro profissional, e um advogado que pega um processo em andamento tende a relativizar o que se fez pelo seu antecessor. Por mais que todo observador externo tenha o ímpeto de analisar de maneira fria o trabalho realizado por outra pessoa, esses profissionais tendem a ser um pouco mais compreensivos, na falta de palavras melhores, com seus colegas.

O corporativismo nasce quando você percebe que não é tão simples assim. As coisas não são tão simples assim e não chegaram nesse ponto por mero descuido de um profissional – vários fatores contribuíram para aquele todo que… bom, ninguém gostou muito de ver. As dificuldades técnicas, financeiras, o combinado com o paciente/cliente, os interesses dos envolvidos, tudo isso escapa da visão de um terceiro que só teve contato com o resultado final.

Mas com o fotógrafo não. Tudo isso passa despercebido. Não importa qual foi o combinado com o cliente, o que foi pedido no briefing, quais as limitações de equipamento, o que foi disponibilizado para realizar as fotos, ou todos os fatores externos que contribuem para o trabalho. Fotógrafo quando não está atrás das lentes se transforma num monstro terrível, num ser sem alma que é parente próximo do crítico de culinária – ao se afastar da câmera o fotógrafo esquece de como é seu trabalho e tende a julgar friamente, segundo seu gosto pessoal o trabalho alheio.

Assim como um crítico reclama do excesso de pimenta numa cozinha típica baiana, o fotógrafo reclama da superexposição de uma foto. Tal como um carioca exige coentro até na salada, o fotógrafo pede pela regra dos terços (fibo-o quê?). Da mesma forma que um paulista reclama de ketchup na pizza, o fotógrafo faz cara feia para meia dúzia de marcas de expressão no rosto de uma modelo. Tal qual um mineiro reclama da falta de sustança de um sanduíche como almoço digno, o fotógrafo se exalta com a falta de um contra-luz para destacar as curvas corporais.

O problema de tanto criticar e apontar erros que sempre são crassos (mas que, impressionantemente, tendem a não ser erros, mas frutos de um gosto pessoal) damos a impressão que fotografia é algo fácil. Fotografar um casamento, fazer um ensaio de criança, gestante, casais das mais variadas idades ou a cobertura de um show, espetáculo teatral ou circense, fazemos parecer em nossas críticas que um só profissional consiga fazer tudo isso com excelência sem muito treino ou estudo.



Nós mesmos nos boicotamos. Ao não perceber que o equipamento disponível não era lá essas coisas, ou que essa não fosse a proposta do artista (afinal, meus queridos, sim, a fotografia é uma arte, e portanto, uma visão pessoal do fotógrafo) boicotamos a nossa profissão. Diminuímos nossos colegas, e diminuímos a nós mesmos. É por causa de nossos comentários sobre a concorrência que o tiozinho compra uma superzoom 40x e entra na sua frente enquanto você trabalha tentando fazer um superclose do casal trocando alianças no altar – é você quem fez ele acreditar que ele pode fazer isso.

É por tanto bombardear trabalho alheio, ao invés de ser mais diplomático, que cento e vinte reais para fotografar um aniversário de criança se torna um valor muito alto para o cliente. Pergunta pra um advogado porquê ele cobra tanto pra fazer um habeas corpus. Meu amigo, eu respondo: qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade sem o menor conhecimento jurídico consegue fazer um habeas corpus. Assim como qualquer pessoa consegue apontar a câmera pra um lugar e clicar com a câmera no automático.

Mas é antes e depois de apertar o botão, e antes e depois de escrever o habeas corpus que vem o trabalho de verdade. Procurar o cliente (fazer reuniões na prisão), desenhar propostas de trabalho (idem), planejar a ideia depois de conversar com o cliente (idem), aplicar o estudado (idem), montagem e manutenção do equipamento (idem), posicionamento (base fática), iluminação (base teórico-jurisprudencial), protocolo (tratamento), acompanhamento (edição e novas versões) e finalmente a entrega do produto final (a libertação do cliente).

Talvez, se respeitássemos mais, um ao outro, como profissionais, as pessoas nos vissem como tais. Mas pra isso é preciso tirar o ego do caminho e o rei da barriga, e isso é pedir mudanças demais.

Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

Os aposentados querem sobreviver com seus trocados. Os funcionários querem ter aumentos salariais. Os universitários querem trabalhar. Os estudantes de Ensino Médio querem passar no vestibular. Os alunos do Ensino Fundamental só não querem repetir de ano. Queremos ser especiais fazendo nada além do esperado. Queremos brilhar fazendo nada além do mínimo. Queremos ser notados por sermos mais um no meio da multidão. Não é preciso ser nenhum especialista no assunto pra saber que não vai dar certo.

É meio chato, mas sem foco, a única coisa que vamos conseguir é andar em círculos enquanto somos empurrados por uma multidão que sabe tanto do destino quanto adolescentes de 18 anos sabem de logaritmos – e não se engane, quase ninguém no Ensino Médio sabe de logaritmos. Então, na boa? Aproveite, e mude logo!

Então, para se organizar, seguem algumas ideias que, se no ano que estiver chegando não te ajudarem, você pode aplicar no seu dia-a-dia – afinal são simples regras de organização pessoal que todos já cansamos de ouvir. Mas atenção: essas ideias não são pra quem tem uma grana disponível ou que não tem obrigações. Só pessoas que tem que dar os corres pra chegar no fim do mês, que precisam fazer trabalhos e estudar pras provas enquanto tentam algum freela em alguma área do universo, podem compreender essa lista.



(1)    Estabeleça prioridades

Não é aquela lista de quatrocentas coisas que você quer fazer da vida. Você não vai conseguir ir pra Paris, comprar um carro e passar no concurso público que quer no mesmo ano enquanto faz as coisas que precisa fazer – você precisa ter apenas um grande objetivo e um ou dois de médio alcance. Escolha despreocupadamente – sempre dará tempo de mudar de ideia ou fazer coisas novas nos próximos dias; não se precipite em objetivos profissionais.

Viajar, conhecer uma língua ou aprender alguma outra coisa (qualquer coisa, por sinal) é um um objetivo interessante. Sinceramente, não perca muito sono pensando no que fazer. Ponha um foco, pode ser até o sonho infantil que perdeu um pouco do sentido, tá valendo.

(2)    Planeje

Não, não é um cronograma pra tentar alcançar aqueles objetivos em tanto tempo – esqueça prazos, esqueça deadlines. Só vai gerar pressão e angústia quando a ideia é exatamente o contrário, o prazer.

Planeje como vai conseguir o que precisa conquistar aquele objetivo. Você precisa de quê? Dinheiro (quanto?), horas de estudo (quando?), treinamento (onde?), contatos (quem?), tudo isso precisa estar pelo menos rascunhado pra você não sair batendo a cabeça pelas paredes.

(3)    Força, foco e fé

Com o tempo vai ficar difícil dedicar aquele horário sagrado, mil coisas e oportunidades vão aparecer e você vai querer desistir tantas vezes quanto um gordinho de dieta deseja um cupcake de chocomenta. Até aqui foi brincadeira de criança, qualquer um pode fazer sem comprometimento. Então, algumas vezes na semana, nem que seja meia hora por dia, finja que está na academia e repita o mantra daquela galera estranha da academia – mas não precisa postar foto no instagram todo dia não, tá? Na moral.

(4)    Não desista

A maioria das pessoas desiste ali entre o terceiro e o sétimo mês de planejamento. Já passaram de ano, passaram de período na universidade, muita coisa andou e ainda não conseguiram atingir aquele objetivo que queriam.

Não seja tão impulsivo. A impulsividade, o desejo de ter tudo agora é que nos faz ser medíocres – aceitamos o médio, o comum porque não queremos esperar, treinar e lutar pelo melhor, com medo de perder. Se você definiu um sonho, corra atrás dele, não faça com ele com faz com o resto da vida. Deixe pra procrastinar nas outras 23h30 do dia.



Opinião

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“Essa geração é a geração mais burra de todos os tempos. Não sabem fazer nada sozinhos, dependem sempre de alguém ou alguma ferramenta que faça por eles. Não sabem se virar, estão cada vez mais dependentes da tecnologia e de alguém para ensiná-los. Cadê a curiosidade? Cadê a vontade de ser independente? Mas não, eles só pensam neles mesmos e naquelas coisas que carregam para todos os lados”


Virou lugar-comum falar dos jovens. São dispersos. Não respeitam nada. Não querem aprender. Se esqueceram do que é importante. Eu imagino que isso deve ter acontecido várias vezes durante a história da humanidade, e, por incrível que pareça, essas novas gerações cada vez mais burras têm sido cada vez mais eficientes. Quer dizer, o homem descobriu técnicas novas de conseguir energia que não precisasse transformar todas as árvores do mundo em lenha. Descobriu maneiras diferentes de guardar um texto escrito sem precisar transformar toneladas de madeiras vivas em papel (com uma durabilidade muito maior!). Como chegar mais longe, mais rápido de maneira mais segura e gastando menos combustível. Como alimentar mais pessoas, produzindo mais comida num menor espaço que agride ainda menos o meio ambiente.

Quer dizer, toda vez que uma geração se torna mais burra, na verdade ela está se adaptando a um novo paradigma e os reclamões – que nem sempre são mais pessoas velhas, apenas pessoas novas apegadas a velhos conceitos, não vejam o panorama geral – e a gente pode desenhar cinco situações simples pra compreender como isso funciona hoje (e como provavelmente funcionou alguns anos atrás), se liga comigo:

(1) Essa geração não sabe escrever!

Novas reformas ortográficas, contrações, aportuguesamentos de palavras estrangeiras que já existiam no Brasil ou seriam facilmente adaptáveis com um pouquinho de boa-vontade dão calafrios nos níveis intelectuais mais altos. No anúncio desses eventos, algumas pessoas tendem a agarrar o seu primeiro exemplar de Camões e a chorar no cantinho escuro do quarto, em posição fetal.

O engraçado (ou pelo menos interessante dessa história toda) é que as línguas nunca foram estáticas. Quer dizer, o latim não foi pra UTI do dia pra noite, quando deu luz à diversas linguazinhas que seriam suas descendentes. O latim foi sendo estrupado com o passar do tempo, através de péssima ortografia, falta de semântica e uma provável conjugação verbal de matar o latino dono da padaria (afinal, o português, ao menos linguisticamente falando, é latino).

Mas essa geração que escreve akivc, tu vaiqq se kerqqr um está matando a indústria panificadora inteira de uma vez só – e isso não necessariamente é ruim. Imagino a cara dos grandes fazendeiros ao ver seus filhos transformarem o vosmecê em você, assim, sem nem pedir autorização nem completar a palavra. VOCÊ, cara. Que palavra horrível. Mais ainda: imagino a cara dos colonizadores portugueses vendo aquele bando de filhos de seus compatriotas com as índias, se achando completamente europeus e falando vosmecê como um bando de caipiras tentando falar vossa mercê. Um bando de analfabetos funcionais.

E não pára por aí – não basta não conseguirem falar direito, esses moleques não sabem escrever direito! Quer dizer, eles mal conseguem usar papel e caneta, tudo eles fazem com ajudinha do computador. Não tem memória nenhuma, por isso não aprendem nada. Querem tudo fácil, tudo na mão, tudo digitando e escorregando o dedo no Swype. Exatamente a mesma coisa que o pajé, analfabeto, pensava do português que, pra não esquecer de algo, precisava ficar escrevendo e escrevendo e escrevendo. Onde já se viu um povo sem tradição oral? Sem que todo mundo soubesse sua história, de cabo a rabo, puxando pela memória de viver e de ouvir falar? Os portugueses, esses sim, eram um povo mais frágil, sem todo o desenvolvimento intelectual de um aborígene americano. Não conseguiam nem lembrar de uma conversa se não dependessem de um pedaço de papel higiênico, quem dirá achar o caminho de casa depois de uma batalha – inúteis. Sempre dependentes de papéis. Carregam pra lá e pra cá e vivem entretidos com aqueles montes de blocos em branco enquanto a vida acontece à volta deles.


(2) Essa geração tem tudo na mão!

Tudo. tudo tudo – exatamente tudo está na internet. Fritar um ovo? Tá lá, em textos, imagens e vídeos. Dar um presente? Tá lá, em diversos tamanhos, preços e prazos de entrega. Fazer um curso? Tá lá, em diversos sites, quantidades de vídeo-aulas e certificados de quantidades impressionáveis. Satisfazer o sexo oposto? Tá lá, das maneiras mais conservadoras (fazendo um chocolate) até as mais ousadas (se colocar morango vira sorvete napolitano). Eles não encontram dificuldades, por isso não vão saber lidar com problemas na vida futura – imagine que a crise de um pré-adolescente hoje é ficar sem celular – ou pior ainda, sem internet (celulares sem internet são inúteis pra essa galera).

Por isso tanta gente mimada. Não precisou fazer um curso de datilografia. Quer dizer, de caligrafia. Quer dizer, aprender o ofício com o pai. Quer dizer, plantar e colher no mato, com as mãos nuas. Quer dizer, a caçar sua própria comida – não, pera! As necessidades mudaram. Ninguém nas cidades precisa, há um bom tempo, saber fazer fogo com duas toras de madeira pra fazer uma refeição. Na verdade, há alguns anos, ninguém precisa fazer fogo com um fósforo em muitos lugares do planeta. São seres menos desenvolvidos por nunca terem esfregado dois galhos secos de uma árvore? Terão depressão por nunca terem gastado uma caixa inteira de fósforos até que a lenha perdesse a umidade e pudesse pegar fogo?

Acho difícil. Os desafios são outros. O caminho para a liderança da matilha é outro. A forma de dominação e subjugação é outra. Nos anos 90, você chegava ensanguentado depois de apanhar do coleguinha mais forte. Nos anos (dois mil e)10, você chega sabendo que é a pessoa mais escrota do universo e não conseguirá nunca ser alguém na vida. Além de ser gordo, idiota, burro, feio, babaca e retardado mental. Mas para as crianças que já nasceram velhas, isso tudo é frescura. Não existe bullying. Bullying é apanhar na escola. Bullying é ser morto pelo lobo-alfa da matilha. O resto é frescura.


(3) Essa geração não dá valor em nada!

Não se faz mais as coisas importantes na vida (seja lá quais forem). As pessoas não tem mais rituais de passagem. Anos atrás, você tinha a passagem para a puberdade, que o pai, carinhosamente ensinando ao filho as relações familiares de afeto, carinho e o que prezar num relacionamento, levava o filho a uma casa de tolerância para entender o que realmente é uma mulher de verdade. Não é mesmo?

Antigamente, as crianças passavam a noite inteira, soltas na selva, molhados, nus e só com uma lança e só eram aceitos de volta na sociedade se voltassem após matar um tigre ou um urso, o que parecesse mais aterrorizante.  Hoje esses meninos estão aí, sem saber o que fazer com suas genitálias, sem saber chegar numa mulher por causa disso! Saudades Piteco, ele sim sabia lidar com o sexo feminino como ninguém.

Meninos não viram homens, meninas não viram mulheres e essa geração não respeita nada.  Não tem um pingo de discernimento entre o divertir e o trabalhar. Querem trabalhar se divertindo, querem divertir-se trabalhando. Onde já se viu isso? Trabalho precisa ser chato, por isso começa com TRA de TRAnstorno por um motivo, amiguinho! Trabalho, pra última geração, precisa ser chato, precisa ser tedioso, precisa ser maçante – pra dar dinheiro. O trabalho que dá pouco dinheiro, mas é divertido, é sagaz, nos faz bem não vale. Essa nova geração tem um racha gigantesco entre pessoas que querem ganhar dinheiro desesperadamente, pulando de um emprego pra outro e acumulando freelas e pessoas que só querem ter… bom, na verdade nem estão tão preocupados assim em ter, é mais aquela coisa de trabalho-barzinho-cinema-casa. Sabe, de gostar da rotina, economizar pra viajar uma vez por ano? Então, quem tá acostumado a bater ponto no escritório não consegue entender esses estilos de vida.


(4) Essa geração só pensa naquilo. É isso aí mesmo, que você tá pensando!

Cresceram sexuais. Usam maquiagem desde pequenas (às vezes até desde pequenos), dançam funk até o chão em festas de aniversários que o cajuzinho ainda é aquele docinho feito realmente de caju e só querem conhecer e pegar alguém – com certeza irão engravidar antes dos 15. Aparentemente quem fala isso pulou direto de 1930 para 2014, porque não viveu o É o Tchan nos anos 90 ou Menudo nos anos 80, com letras e coreografias que passavam bem longe da moral e dos bons costumes – e não adianta falar que era restrito a uma classe social.

Crianças sempre tentaram parecer adultos. Por isso que a menina insiste tanto em tentar pegar a maquiagem da mãe (mesmo que não saiba como usar) e meninos já pensam logo em suas profissões. Todo mundo quer crescer, ser maior, fazer mais coisas sozinho sem depender dos outros. É isso que nos move, que move a sociedade, que move os cientistas e inventores. Fazer mais, fazer melhor. Ir mais longe, como indivíduos e como raça. Uma criança antes da puberdade que quer parecer adulto não está pensando em transar, está pensando em ser independente. Como, no fundo, todos nós fazemos até hoje quando chegamos à noite e deitamos na cama.

Mas porque então de repente tudo que os adolescentes fazem parece estar ligado ao sexo? O maior problema é o alcance. Antigamente, tudo que acontecia entre dois adolescentes ficava entre eles, ou um grupo de amigos em comum. No máximo no máximo toda a escola ficava sabendo de alguma bobice que eles fizeram quando não tinha ninguém vendo. Agora, qualquer bobice está ao alcance de qualquer pessoa com 3G na mão – e isso é muita gente. Não precisa conhecer uma pessoa pra ver suas fotos íntimas circulando no Whatsapp, não precisa ir ao clube pra ver aquela garota de biquíni – e não precisa ser amigo de ninguém pra saber quanta gente essa pessoa já pegou. É tudo domínio público já – talvez a noção do fim da vida privada que assuste mais os mais velhos do que as bobices feitas pelos ouvintes do Jonathan da Nova Geração (que já tá bem antiguinho, por sinal) – mas fazer bobice sempre foi mainstream.


(5) Essa geração não sabe o que quer!

Antigamente, você terminava o que começava. Entrava numa faculdade, não gostava? Ia até o final, oras. Vai fazer coisa malfeita? Entrava num namoro, tava ruim? Tentava melhorar. Arrumava um emprego que o chefe é chato? Lidava com isso. Hoje não: todo mundo quer desistir de tudo. A pessoa começa 5 faculdades e não completa nenhuma, porque não gostou. Namora e separa três meses depois porque descobre incompatibilidade de gênios. Qualquer carão que leva do chefe já tá com a carteira de trabalho na fila da Caixa pedindo seguro desemprego.

Engraçado essa falta de direito ao arrependimento. Não gostei de um curso na faculdade vou ter que ficar mais três, quatro, cinco anos estudando algo que detesto pra trabalhar numa coisa que odeio só porque aos 16, 18 anos eu não sabia direito o que ia querer da vida (se é que houve escolha)? Descobri que namoro uma pessoa completamente insana e tenho que ficar com ela porque, oras, porque sim? A liberdade de hoje incomoda quem já foi muito preso – não porque acha que todos precisam sofrer como as gerações anteriores sofreram, mas porque tiveram sonhos, desejos e vontades tão oprimidos que começaram a acreditar naquilo que seus opressores diziam.

Quando alguém da velha guarda diz que esses jovens precisam é de uns sopapos pra consertar a vida, é porque levou tanto tapa na cara quando novo que só sabe reproduzir o sistema. É por isso também que é um absurdo pra alguém com mais de trinta anos abandonar a faculdade – ou pior, trocá-la por um curso técnico de outra área. O diploma é sagrado (vide item 03), o relacionamento também e tudo que você pensar em fazer precisa necessariamente cumprir, senão algo de muito ruim pode acontecer (e acredite, vão usar qualquer coisa, qualquer mesmo)!


O aprendizado é simples: da mesma forma que você não é tão bobo quanto seu tio acha que você é, seu sobrinho não é tão besta assim. Vocês viveram contextos diferentes durante a juventude – por mais que você tenha vontade de falar juventude leite com pêra (leite com pêra deve ser horrível por sinal), para quem nasceu nos anos 70 você parecia bem mimadinho. Se quem nasceu nos anos 2000 é piá de prédio, você era chamado de moleque do asfalto.

Opinião

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O patinho feio ficou bonito. A órfã pobre se tornou princesa. Crescemos e amadurecemos ouvindo histórias sobre pessoas completamente perdidas, no fundo do poço, que se reergueram. O adolescente que sofria bullying e era trancado no armário da escola se tornou um multi-milionário. A mulher com obesidade quase mórbida que é triatleta. Nos inspiramos nessas histórias do ensino básico ao superior. O jovem advogado que pegou uma causa milionária quase perdida e fez sua fortuna de primeira. O gestor que revolucionou a empresa onde trabalha e quadruplicou seus ganhos pessoais numa trajetória ascendente fenomenal. O ator de uma peça da esquina que tropeça e cai num musical da Broadway.

À nossa volta as pessoas estão sempre ganhando, vencendo. Perdeu 35kg usando Herbalife e foi pago por isso. Investiu 100 dólares no eToro e hoje tem retornos semanais que beiram os quatro dígitos. A riqueza, a beleza, a vitória, todas elas ao nosso alcance. O mito capitalista da meritocracia vive forte, mas vive tão forte a ponto de fazermos questão de fingirmos que acreditamos nele – e de tando fingirmos que acreditamos, acabamos acreditando mesmo. Acreditamos piamente que tenhamos que vencer, independente do que seja esse algo, e que uma vez vencendo, seremos melhores daqueles que nós ultrapassamos pelo caminho. Na riqueza, na beleza, na santidade, nos relacionamentos.

Nos enganamos dizendo que iremos começar a dieta, que iremos economizar dinheiro, que iremos fazer isto ou aquilo, mas no fundo no fundo, ficamos chateados por não estarmos lá no fundo do poço para podermos subir na vida. Se não somos ricos, pelo menos é mais belo ser miserável do que ser medíocre. O miserável conseguiria se reerguer, o medíocre tem medo de perder o que já conquistou na tentativa de ganhar mais.

Conseguimos tornar a mediocridade o pecado mais sujo da pós-modernidade. É mais feio ser o cristão de banco do que o cristão glutão, ou o cristão prostituído – um apelo contra a rigidez da igreja consegue muito mais adeptos do que um apelo contra a insensatez de seus membros, ou contra a violência doméstica. Porque mais do que ter medo que descubram nossos defeitos, temos medo de sermos reconhecidos como conformados.

Nessa gincana pela vida mais bonita, mais vencedora, alçamos à cargos maiores na igreja, buscamos ir mais profundamente nos nossos relacionamentos, damos voltas e voltas para conseguir uma melhor posição no mercado de trabalho, fazemos dívidas para ir um pouco mais longe na viagem de férias (mesmo que tenhamos que vender quase metade dessas férias) e acabamos largando mão das frivolidades da vida.

Na busca pela vida melhor que a dos meus vizinhos, um sorvete não é apenas um pote de sorvete. São 17 reais a menos na conta poupança, são 3cm a mais na cintura, são 18 likes a mais no instagram. Ao postar uma foto de namoradinhos, são cento e tantos likes, uns 16 comentários e 3 ou 4 pedras do recalque alheio das inimigas. Uma foto de estudos, já são pelo menos umas 80 curtidas e 7 ou 8 mensagens de força, além de todos os pontos ganhos em respeito e confiança alheios. Vivemos uma vida de RPG. Fazemos nossas escolhas frente ao nosso destino como rolamos os dados para o Mestre que comanda o que acontecerá. Fazemos escolhas baseadas em benefícios e retornos sociais. Esquecemos que somos, vivemos, convivemos, namoramos e criamos seres humanos. Não estatísticas. Não reais. Não quilômetros viajados. Não memórias – muito menos as falsas, que insistimos em plantar em nós mesmos.

Um apelo à mediocridade, como única salvação em contraponto a uma sociedade utilitarista. A uma sociedade de vencedores. A uma sociedade de vidro.

Um apelo à mediocridade, como única reveladora do nosso verdadeiro caráter. Da nossa verdadeira face. E que uma vez reconhecidos como medíocres, possamos nos ajudar a caminhar, uns aos outros, uns com os outros, uns como os outros. Todos os patinhos feios que não eram cisnes, mas apenas patos de péssima aparência física. Todos os quatro-olhos espinhentos que não eram gênios, nem se tornaram milionários, mas quatro-olhos com rostos esburacados e famílias comuns. Todos os advogados com carro popular que, advogando, conquistaram novos carros populares com o passar dos anos. Todos atores suburbanos que apresentaram peças não-tão-boas assim para um público não-tão-grande-assim e não-tão-refinado-assim. Mas que consigamos olhar a vida que temos com orgulho do que fazemos. Das pipas que soltamos, quando pequenos, mesmo que por 5 minutos. Das vezes em que não perdemos de maneira nã0-tão-humilhante assim no MMORPG, e da fase 78 no Candy Crush. Da paçoquita de sobremesa e das mãos que nos recebem quando encontramos alguém que nos tem como queridos. As amizades conquistadas, todas tão medíocres como nós, e o passado que não-nos-dá-tanto-orgulho-assim.

Sejamos felizes conosco mesmos. Pelos 100 gramas que perdemos em dois meses. Pelo bombom da Erlan que ganhamos de um tio. Pelo lugar vago no coletivo. Pela linha de código que salvou o dia no trabalho. Pelos sorrisos conquistados entre a saída de casa e o retorno. Sejamos felizes com nossa mediocridade. E que ela nos leve aonde nós vamos, e queiramos de fato, ir. Não empurrados, constrangidos. Mas livres.


Utilidade Pública

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Semana anterior eu comentei aqui da treta envolvendo Luciano Huck, com sua afirmação muito descabida sobre tráfico sexual e como faltou não só tato, mas olfato, visão, audição e qualquer outro sentido que seres humanos tenham no apresentador e sua equipe de assessoria. Fazer só o post parecia pouco, até meio perdido no meio de tantas informações aqui do blog, então resolvi voltar ao assunto de uma maneira pouco convencional para o blog.

Trago aqui dois casos que saíram na mídia mas não foram tão explorados quanto poderiam. O primeiro, mais próximo, ainda é sobre ela mesma, a Copa do Mundo:


(1)

Foto: Ivan Pacheco / Veja.COM

Enquanto tentava se aventurar sem ingresso no Castelão, Dantas, do jornal O Povo, deu de cara com uma situação… complicada. Ele diz:

Um homem se aproxima de Larissa. “E aí, mudou de ideia?”, pergunta. “Você podia vender seu ingresso baratinho para mim, mas você não vende”, responde a garota.
Fica claro que o homem, usando uma camisa da seleção brasileira e um relógio aparentemente caro no pulso havia assediado Larissa anteriormente. “Não te vendo, mas te fiz uma proposta. Você topa?”. “Não quero namorar, não. Não vou ficar com você”, respondeu a menina. A resposta do homem não podia ser mais cruel: “então não posso te dar os ingressos”, e saiu sorrindo e mostrando os bilhetes para a garota.

Não vou entrar em detalhes de exploração sexual/prostituição, ou sobre quem ganha quem perde com a venda de seu próprio corpo, mas soa no mínimo estranho que em plena luz do dia, num dos eventos mais vigiados que já foram realizados nesse país (tá, no Maracanã deu treta com os chilenos, mas a presença ostensiva de policiais é intimidadora), um sujeito tenha a audácia de tentar cooptar uma mulher, se aproveitando da sua situação financeira, para vender seu corpo – em troca de um ingresso que pode ter valido.. R$30.

Mas aí você me diz que prostituição não é crime. Pois é, amigo. Prostituir-se, seja você homem ou mulher na sua carteira de identidade não é crime. Mas a história não termina aí. Diz o menino Código Penal lá pro art. 228:

Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Trocando em miúdos: se uma prostituta se oferece pra você, na lei tá tudo certo, tudo tranquilo. Mas se você joga a ideia para uma pessoa, meu amigo – xilindró. Não vou ser hipócrita com o Dantas, comprar briga naquelas alturas do campeonato seria contraproducente para ele, para o trabalho dele e até para a garota.

Mas chega a ser surreal que alguém cometa um crime que tem mais que o dobro que a pena de desacato (alegação que levou milhares para a cadeia durante as manifestações, cuja pena máxima é DOIS ANOS) no meio de tantos policiais e profissionais de mídia. Não se levante de raiva ainda não – tome um chá, pegue esse comprimido e acompanhe esse outro caso que te trago.


(2)

Foto: Governo Malaio

Talvez não tão impressionantemente assim um caso que chocou o mundo não saiu na mídia brasileira, nem online, nem de papel, nem mesmo em blogs. Digo ainda mais: nem mesmo uma postagem pública no Facebook foi feito no Brasil noticiando esse tema. Chato, né?

Vou resumir a parada toda: Dia 9 de maio, sexta-feira. O diplomata da Malásia na Nova Zelândia, Muhammad Rizalman bin Ismail, achou que seria uma ideia sensacional seguir uma mulher, nove anos mais nova que ele, estuprá-la e assaltá-la. Questionado pela Justiça, alegou imunidade diplomática e fugiu de volta pra casa. Simples assim.

A situação é tão esdrúxulam que o Ministro de Relações Exteriores da Malásia (país do diplomata) foi obrigado a dizer o óbvio para redes internacionais: “Só porque ele é um diplomata não quer dizer que vai sair impune, imunidade diplomática não serve para cometer crimes”. O governo malaio, embora possa se tornar responsável pelo processo em seu país está pensando seriamente (notícia divulgada hoje, pelas mãos do Ministro de Relações Exteriores, está pensando seriamente em devolver o diplomata para que o processo judicial corra na Nova Zelândia – e olha que isso envolve extraditar um cidadão nacional e que, se não bastasse isso, ainda é de alta hierarquia do governo federal.


A questão é que não dá mais para discutir abuso sexual como se fosse algo da cultura de países distantes, como a Índia, ou discutir prostituição como se fosse algo apenas brasileiro. Os trilhões que o tráfico de seres humanos movimenta começa aqui nos R$30 de um ingresso pra ver um jogo qualquer da Copa e deixar um irmãozinho mais feliz, e permeia toda uma sociedade que aparenta não ligar e não ter limites.

Não é possível se discutir sobre liberdade sexual quando pedir sexo em troca de qualquer outra coisa se torna corriqueiro – ninguém consegue se tornar sexualmente livre sob essa demanda. Essa cultura precisa, urgentemente, ser combatida. Precisamos, desesperadamente, integrar quem vende o corpo para sobreviver à sociedade. É um ser humano. Parte de uma família. Despedaçada, abusada, transtornada – mas gente como a gente. Que corre, que dá um jeito e faz o que pode e o que não pode para viver um dia depois do outro. E não merece ser usada como mercadoria para lucro alheio, sob hipótese alguma.

E se isso acontece, a culpa é cada vez mais minha e sua, que não presta atenção no que acontece no mundo – nem do outro lado dele, nem do nosso outro lado.