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É difícil saber quem são amigos e quem não são. É complicado olhar pra tela do computador e decidir o que compartilhar e o que guardar. Por um lado, despejar informações desnecessárias num extremo oversharing que vai ser prejudicial; por outro, afastar pessoas que não estão, por diversos motivos, tão perto da gente quanto gostaríamos – que ponto perdido no meio disso deveríamos nos encontrar?


(1) Redes de confiança

A questão sobre o compartilhar ou não compartilhar é um pouco mais antiga que as redes sociais ou o botãozinho “público/só para amigos” de “sites de relacionamento da internet”. Na verdade, toda a complexidade de relacionamentos interpessoais está exatamente nessa questão – o que compartilhar com fulano? Até onde me abrir? O que ele pode saber?

Ora, o problema não é necessariamente Fulano saber de X – o problema é o que ele faria com X; seria Fulano meu amigo suficiente para, sabendo de X, não frustrar a minha confiança e se aproveitar da minha abertura emocional? Não temos como saber. Mas, se parássemos aí, estaríamos num roteiro de dramaturgia mexicana, não nessa vida que é um pouquinho mais longa e mais complexa que os roteiros de “Amor a Mais de 100 Por Hora”, aquela novela da BAND que ninguém mais lembra.

Quando começamos a nivelar pessoas entre as que contamos segredos e aquelas que não contamos, não estamos apenas afastando aquelas que não são dignas de confiança – estamos criando barreiras entre elas. Explico: se eu conto toda a minha vida para A e B, parte dela para C e só mantenho aparências para D, eu me afasto parcialmente de C e completamente de D. Mas, ao fazer isso e manter A e B perto de mim, eu as afasto de C e D por consequência. Quando contamos segredos para algumas pessoas estamos as afastando de outras de sua convivência. Se A e C tinham uma amizade profunda, eu estou instigando A, para não trair a minha confiança, a manter os meus segredos escondidos de C, por mais prejudicial que isso seja a ambos.

Seria pois, culpa exclusiva de A compartilhar todas histórias com C, se este era seu amigo e confidente há muito mais tempo do que eu com o próprio A? Tenho eu como saber as intenções de A ou fazê-lo, ou, considerando que A tenha agido de boa-fé, a reação de C, mesmo que não o conheça? Confiando em A e B, não estou necessariamente confiando e ratificando suas amizades e redes de confiança próprias, que independam de mim?


(2) Aumento dos círculos de amizade

O problema é que quando acrescentamos o fator “redes sociais”, nós estamos complicando ainda mais a vida. Porque não se basta apenas a compartilhar com 5 ou 6 pessoas que podem replicar a notícia ou história para quem não queremos – é não poder quantificar a quantas pessoas eu estou disponibilizando a história X. O maior ponto positivo das redes sociais é o pressuposto para a sua pior face: hoje não precisamos estar fisicamente próximos de alguém para continuarmos íntimos.

Se estar afastado de alguém não significa perder a intimidade que já tive com essa pessoa, as redes sociais mudam completamente o paradoxo de intimidade e relacionamento. Porque, com o tempo, os locais que frequento e as cidades que moro, eu tendo a aumentar cada vez mais o círculo de pessoas íntimas, que não terão um relacionamento entre si (o que tende a ampliar o problema diagnosticado no ponto (1), Redes de Confiança). Se meus amigos íntimos não tem intimidade entre eles, tendem a conversar sobre o que digo com pessoas que me são estranhas – ampliando ainda mais o número de pessoas que terão acesso àquela informação.

Se essa dificuldade por si só já não fosse um problema, a forma que utilizamos as redes sociais para manter intimidade (ou uma aparência de intimidade) com meus amigos já distantes fisicamente, torna tudo ainda mais complicado. Quer dizer, já estou conversando assuntos íntimos com um número cada vez maior de pessoas, que irá replicá-los para um número ainda maior de amigos – e isso não é tudo.

Como vou manter essas pessoas todas informadas da minha vida, e como vou me informar delas? Haja e-mail ou MSN para falar de tudo. Mas se tivéssemos uma maneira de informar várias pessoas que passei no Exame de Ordem de uma só vez… Exato! Atualizamos status no Twitter, no Facebook, até mesmo no Google+, contando, de uma só vez, pra todos esses nossos amigos íntimos que, sim, agora somos advogados.

“É seu status, não o seu diário”

(3) E quando a bolha estoura?

Mas a vida é um pouquinho mais irônica. Pense comigo: você está então, mantendo a intimidade com diversas pessoas de uma só vez, porque a internet te permite isso, certo? Errado. Quando você tenta ser íntimo “em lote” ou a atacado, você não está sendo íntimo com ninguém. Aquelas suas notícias e as notícias dos seus amigos passam a ser mais um monte de informações que não tem tanta relevância pra você. Tudo bem, aquele sua amiga da 5ª série entrou no mestrado em Análise Macrobiótica de Sêmen Bovino, puxa, que legal. Dá um curtir ali. Mas as opiniões dela sobre a política econômica do governo Paes são sofríveis – sem contar aquele senso de humor das páginas que ela compartilha. E afinal, quem quer saber mesmo que a sua melhor amiga do ensino médio começou o quinto relacionamento e já tem fotos com o novo namorado como se estivessem juntos desde sempre?

Sem contar com a mãe daquele bróder da faculdade, que te ajudou a superar uma ex-namorada, aguentou seus porres de madrugada e foi uma mãe pra você (até organizando sua festa surpresa de aniversário quando você estava longe de casa) tentando te convencer de que o Silas Malafaia é sim, um cara legal, mas incompreendido pela sociedade e governo.

“-Eu saí com alguns amigos semana passada
-É, eu vi no Facebook.
-E eu vou lá naquele lugar em breve
-Vi no Facebook.
-Você tá me stalkeando?
-Não, você que posta demais.”


(4) O que fazer agora?

Admita: você não tem mais intimidade com essas pessoas. Dói, eu sei. Não é fácil perceber que amizades se perderam ou foram embora com o tempo. Mas é melhor lembrar das amizades que você já teve do que sofrer pra manter uma sobrevida numa intimidade que já se perdeu. Se foque nos novos amigos, em outros amigos ou em fazer novas amizades. Não é uma questão de abandonar o seu passado, mas se tocar de que a vida dá voltas, as coisas fluem e as pessoas (inclusive você mesmo) mudam; mudam de cidades, de prioridades, de objetivos, de estilos e de sentido.

Agora, quanto às suas redes sociais, segredos e com quem compartilhar histórias, eis um breve conselho: pode ser mais fácil, ser simplesmente quem é. Se for dar treta de qualquer maneira, prefiro ser detestado pelo que sou – de fato, eu já afirmei algumas vezes: Detesto mal-entendidos. Prefiro que as pessoas me odeiem pelos motivos certos. Não se preocupe tanto assim, afinal, haters gonna hate. Encontre em si mesmo, e em alguns amigos, ponto de equilíbrio. Se lembre que você não é personagem de uma série de TV e não precisa estar envolvido o tempo todo em tretas e histórias cheias de tensão. Você não precisa salvar o mundo de alguém e pode, simplesmente, caminhar para longe da confusão.


boo


Ciúmes é uma coisa engraçada. Tem aparência de bonitinho, quem sente sempre diz que é uma forma de amar, e às vezes, é até uma consequência obrigatória de amar. Ciúmes é uma coisa fofa, que nos faz desconfiar e duvidar da pessoa que a gente ama até a última instância (e sempre guardar os casos na memória).

Até porque, de fato, ciumentos confiam nos seus respectivos cônjuges e namorados. Só não confiam no senso de normal deles, nem no senso crítico de amizade que eles têm. Ciúmes é uma insatisfação gostosa, uma maravilhosa sensação de achar que a pessoa que amamos é profundamente retardada por não ver o óbvio, ou quiçá, cretina, por estar se aproveitando de uma situação e se fazendo de besta.

Ah, o ciúmes. Como é bom ser ciumento, acreditar que nosso relacionamento é perfeito (desde, é claro, que a pessoa saiba fazer exatamente o que queremos, da forma que queremos e quando queremos).

O ciúmes nada mais é do que a nossa derradeira tentativa de não se meter no problema dos outros. A última chance que temos de acreditar que todos os outros seres humanos são frios e babacas, e nós somos pobres inocentes azarados em matéria de amor. Afinal, se ele(a) está de conversinha com outra pessoa, é claro que está nos traindo ou fazendo algo que não poderia fazer na minha frente.

Ciúmes é uma coisa maravilhosa. É o que nos deixa distante daquela pessoa que juramos amor eterno (desde que…) e que nós queremos pra sempre na nossa vida (até que…) porque no fundo, no fundo, não queremos mesmo depender de ninguém.

Afinal, crescemos acreditando que os outros só servem para zoar conosco.

História do Sorvete


Você está exagerando, Yashar Ali. Sem correr o risco de ser rude ou cínico, você realmente exagerou em alguns pontos do seu texto – e esse é apenas um contraponto, para entrar na discussão.

Yashar Ali publicou, essa semana, um texto intitulado Por que as mulheres não estão loucas, a íntegra você encontra no Papo de Homem (e realmente indico a leitura). O texto entra numa discussão importante (como várias postagens do site) dentro dos relacionamentos – o choque entre pessoas emotivas e pessoas racionalistas. Combati, também há pouco tempo, o posicionamento racionalista que está na moda – os sentimentos e emoções são afogados e tidos como fracos aqueles que simplesmente não engolem algumas coisas.

Mas digo que você exagerou, Ali, porque muito (aliás, quase tudo) do que você disse é verdade (tecnicamente é isso que significa a frase, embora não seja bem esse o uso) – muitas mulheres são, de fato, oprimidas ao expressarem pensamentos e opiniões que não são importantes não só diante de seus namorados/maridos, mas diante de todas as outras pessoas, inclusive outras mulheres já calejadas pela pressão em ser racionalista (por gaislateadores) – você está exagerando, tem que focar no que é importante, no seu objetivo.

Esse pensamento maquiavélico (como eu descreveria o gaislatearismo proposto por você) pode ser fruto de uma sociedade patriarcal? Pode, mas eu não acredito nisso. Não é o patriarcalismo o culpado – assim como não são apenas mulheres que sofrem com as consequências dele. A meritocracia faz muito mais o seu dever ao impor objetivos e metas inalcançáveis de maneira sã, e é aí que entra a morte das emoções.

Mulheres não só podem ser, como de fato já têm sido, em número cada vez maior, responsáveis por essa mesma pressão sobre homens – sejam seus homens ou seus filhos.  A pressão para ser racionalista, ser objetivo e por uma miopia seletiva é um apelo social, não sexista.

 Quando digo que você está exagerando, Ali, é porque às vezes, as pessoas simplesmente estão exagerando. Não sei eu outra forma de alertar pessoas sobre comportamentos inconvenientes a não ser com este aviso (posso estar mal-acostumado), mas pensemos então na seguinte hipótese:

Um homem (só para variar um pouco e provar este ponto) tem uma crise em relação à mulheres. Acredita entrar em todas friendzones possíveis, e se considera vítima de um movimento feminino que visa apenas usar os bons homens como ele como alicerce entre um relacionamento falido e outro.

Casos assim estão cada vez mais comuns na sociedade, nos quais homens, emotivos, põem seu pensamento/bem-estar acima do das outras pessoas – um tanto quanto inconveniente, e que gera brigas, confusões, perdas de amizades e muita treta. Como mostrar para a pessoa a inconveniência de suas atitudes sem falar Cara, você está exagerando? Eu realmente não sei.

Da mesma forma, se fosse uma mulher – peguemos um caso tão comum quanto. Digamos que uma mulher ultrapassa qualquer limite saudável dentro de ciúmes. Coloquemos ainda um background: ela saiu de uma casa em que o pai traía a mãe repetidas vezes, viu seu irmão mais velho pisar em várias garotas que o amavam de verdade e com isso, desenvolveu uma postura amargurada em relação aos homens (um fator externo que pode tê-la oprimido, de fato, sem ser diretamente relacionado à ela).

Oprimida já quase que por natureza, em todos seus outros relacionamentos, ela entra em um namoro com uma postura passivo-agressiva como você descreveu em seu texto. O namorado, um dia, pega no celular e vai falar com uma garota qualquer, e ela explode em ciúmes – independente de ser a irmã ou prima dele. Como conversar com essa garota sem começar com um Calma, você está exagerando?

Concordo contigo, Ali, não se engane: existe uma forte opressão contra pessoas emotivas (independentemente de sexo), e o Você está exagerando é mal empregado (geralmente as pessoas usam sozinhas, sem dar uma justificativa ou entrar numa conversa mais profunda sobre os sentimentos e fatos relacionados ao suposto exagero) – mas não é o vilão da história, assim como mulheres não são as únicas vítimas.

Um abraço, Ali!


Culpar a novela pela desestabilização da família é como culpar o excesso restaurantes fast-food nos shoppings pela obesidade da população. Assim como os fast-foods são maioria absoluta nas praças de alimentação porque há público para eles, as novelas contém cenas desestabilizadoras porque existe público pra isso.


O maior exemplo disso é a audiência pífia dos programas que tentaram trazer uma história politicamente correto (no bom sentido) tem audiências que beiram… zero. É o caso da TV Cultura, TV Brasil e mais algumas outras iniciativas culturais e educativas. Tem um fast food de saladas aqui que nunca vi um cliente passeando por lá – mas se ele fechar é a sociedade que não oferece opções, por isso todo mundo hoje é gordinho.

Não entendo porque ver a Nazaré roubar bebês é algo extremamente absurdo, ou ver práticas espíritas numa novela é algo quase herético, mas ver Dexter assassinar a sangue frio é uma coisa linda de Deus – ou mesmo ver o Avatar fazer magias com as forças da natureza, ver os Super Sayajins divievoluindo ao invocar espíritos em línguas estranhas… peraí. Porque novela é do mal e alienadora? Ficar 5 episódios esperando o Goku dar um ataque é o que? Esperança de um mundo melhor?

A desestabilização da família começa muito antes de se ter um parente homossexual, uma TV no centro da família ou um perfil em rede social; começa antes da criança começar a sofrer influências externas, antes dela começar a ter aula de religião na escola ou de a ter amiguinhos estranhos e diferentes.

Não é ver uma família desestabilizada que torna as pessoas desestabilizadas; assim como não é ver um assassino no jornal que nos faz começar a pensar e agir como ele. Se as famílias estão desestabilizadas e se refugiam nos problemas de famílias fictícias, talvez para aprender a solucionar os seus problemas, talvez para tentar entender o que acontece, ou só pra fugir de tudo por alguns segundos – o problema é interno, não externo.

Desculpem, mas não é uma novela que vai desestabilizar uma família. Criticar um parente (pai, mãe, irmão) que vê novela só mostra que a sua família está desestabilizada – e talvez quem assiste novela não seja exatamente o ponto de instabilidade, se é que você me entende.