Utilidade Pública

É tão comum ter uma farmácia ao alcance das mãos que se virar sozinho sem ir em um médico tornou-se um hábito não só aceitável pelos seus amigos como recomendado. Você se queixar de uma dor de cabeça é um convite pra receber uma listagem de nomes incompreensíveis de remédios e fórmulas de laboratórios que você nem imaginava que existiam. Resfenol, Doril, Paracetamol, Neosaldina, Dorflex, Advil, Aspirina, Tylenol, Naldecon (que não é bem dor de cabeça mas serve) e mais uma infinidade de nomes bisonhos.



Cheguei na farmácia esses dias porque já estava há mais de 48h com uma dor atrás do ouvido e fui apresentado a um cardápio tão completo de remédios que me deixou até perdido – até que eu resolvi perguntar pra atendente qual daqueles remédios não tinha cafeína. Ué. Sim, a cafeína funciona como um estimulante, um catalisador da reação que faz o remédio ter efeito mais rápido, mas… a minha dor de cabeça era exatamente por falta de dormir. Tomar um remédio que vai me impedir de dormir por uma dor de cabeça que chegou porque não consigo dormir é, pelo menos, contraproducente.

No fim, consegui um. A velha dipirona – “vai demorar de uma a duas horas pra fazer efeito”, me alertou a moça como se eu fosse mergulhar numa piscina de água oxigenada depois de sofrer um acidente de moto.

Parando pra pensar, o aviso dela até faz sentido. Parte da auto-medicação é a necessidade urgente de se sentir melhor agora – nesse momento. Com as filas gigantescas para uma consulta médica pública, as dores de cabeça com convênios e os constantes atrasos em clínicas particulares, é compreensível que ninguém queira se submeter a uma consulta pra receber o mesmo diagnóstico do seu amigo hipocondríaco – é uma dor de cabeça (eu sei que é uma dor de cabeça, por isso que vim aqui!), e pegar a receita de um analgésico para tomar de 8 em 8 horas.

Você sabe que auto-medicação mata – tá, não é um Diazepam uma vez na vida que vai te dar esquizofrenia – mas vocês já ouviram os dados algumas vezes na vida:

  • 50% dos remédios vendidos no mundo são dispensáveis ou inadequados para o tratamento (OMS/2002               *);
  • Os medicamentos são os maiores responsáveis por casos de intoxicação no Brasil, seja pela superdosagem ou pela adesão a tratamento não-indicado por especialista (SINITOX/2000*);
  • 70% dos pacientes de UTI não conseguem absorver completamente os princípios ativos ministrados por terem se submetido à automedicação durante toda a vida (Fleury/2010*)
  • 20 mil pessoas morrem anualmente no Brasil por complicações decorrentes da automedicação (CASA GRANDE et al/2004*)

E, porque não, um vídeo feito pelo Conselho Federal de Farmácia sobre automedicação:

 



Referências (por ordem de aparição no texto):
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas sobre medicamentos. Ginebra, 2002;
SINITOX – Sistema Nacional de Informações Tóxico – Farmacológicas. Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento: Brasil, 1999. Fundação Oswaldo Cruz/ Centro de Informação Científica e Tecnológica. Rio de janeiro, 2000;
FLEURY, Marcos. Os riscos da automedicação. Disponível em: <http://marcosfleury.wordpress.com/2010/01/23/os-riscos-da-automedicacao/>. Acesso em 02 de julho de 2012;
CASA GRANDE, E.F., GOMES, E.A., LIMA, L.C.B., OLIVEIRA, T.B., PINHEIRO, R.O. Estudo da utilização de medicamentos pela população universitária do município de Vassouras(RJ).Infarma,v.16, n.5/6, p. 86-88, 2004;

Opinião



Vivemos impelidos a fazer as coisas pelos resultados. Não basta aprender, precisamos passar no vestibular. Não basta passar no vestibular, precisamos passar em primeiro. Não basta passar em primeiro no vestibular, precisa ser da melhor faculdade. Precisamos estar na melhor escola. Fazer o melhor curso de inglês. Comer o melhor e mais saudável lanche. Ter o melhor relacionamento, com a melhor pessoa – se alguém falhou conosco, não podemos continuar juntos, não podemos perder tempo. A nossa diversão precisa ser a melhor, não há espaço para frustração ou erros quando se trata de nosso tempo livre, nós precisamos ser a vitória. E nós estamos matando o esporte.

Primeiro, porque queremos torcer sempre pro vencedor – se alguém perde demais, não basta abandonar, nós precisamos odiá-lo. Aprendemos a odiar Rubinho Barrichelo simplesmente porque ele não era o bastante. Desprezamos Felipe Massa, temos asco do Anderson Silva. Meligeni foi um breve desapontamento pra nós, que nunca mais lembramos que saibro era um tipo de quadra de tênis.

Segundo, porque cobramos demais. Cobramos demais a nós mesmos, e aqueles por quem torcemos – nós somos o time, o lutador, a equipe que torcemos. E se alguém ganha de nós, ah meu amigo, coitado de quem ganha de nós, ou fica feliz quando estamos derrotados. É nosso adversário. Nosso rival. Arqui-rival. Inimigo.

Aparentemente, os times com torcida mais sanguinária são os times mais vitoriosos – e que conseguem mais adeptos e novos religiosos radicais, também conhecidos como torcedores. Não adianta culpar a instituição das organizadas – é como culpar a Igreja pelos pecados de seus membros. Não adianta culpar o Ministério Público. A polícia. O resultado. O futebol.

Terceiro, porque nem tudo é lado A ou lado B. A vida não é um baile funk dividido ao meio cinco segundos antes da porrada comer. Votar no partido A ou B, acreditar em um ou em outro, não é tão grave como parece ser. Quantas das nossas convicções políticas, religiosas e ideológicas em geral não vieram da vontade única de estar certo e fazer as coisas do que acreditamos ser nosso jeito (por menos que tenhamos algo a ver com a construção desse ideal que compramos).



Só precisamos levar a vida menos no preto-e-branco. Lembrar que nem tudo é uma disputa, nem tudo merece tanta atenção assim. A pretensa melhor faculdade nem é tão boa assim. O já estigmatizado melhor time nem consegue se sustentar vitorioso por tanto tempo. A nossa obrigação, nosso sofrimento pode ser apenas parte do que era pra ser nossa diversão.E talvez, apenas talvez, estejamos errados acerca da correta quantidade de água necessária para salvar alguém do inferno.

Daí quem sabe, possamos ter amigos menos falsos, relacionamentos mais duradouros e sermos mais auto-confiantes nas nossas escolhas.

Opinião

Os aposentados querem sobreviver com seus trocados. Os funcionários querem ter aumentos salariais. Os universitários querem trabalhar. Os estudantes de Ensino Médio querem passar no vestibular. Os alunos do Ensino Fundamental só não querem repetir de ano. Queremos ser especiais fazendo nada além do esperado. Queremos brilhar fazendo nada além do mínimo. Queremos ser notados por sermos mais um no meio da multidão. Não é preciso ser nenhum especialista no assunto pra saber que não vai dar certo.

É meio chato, mas sem foco, a única coisa que vamos conseguir é andar em círculos enquanto somos empurrados por uma multidão que sabe tanto do destino quanto adolescentes de 18 anos sabem de logaritmos – e não se engane, quase ninguém no Ensino Médio sabe de logaritmos. Então, na boa? Aproveite, e mude logo!

Então, para se organizar, seguem algumas ideias que, se no ano que estiver chegando não te ajudarem, você pode aplicar no seu dia-a-dia – afinal são simples regras de organização pessoal que todos já cansamos de ouvir. Mas atenção: essas ideias não são pra quem tem uma grana disponível ou que não tem obrigações. Só pessoas que tem que dar os corres pra chegar no fim do mês, que precisam fazer trabalhos e estudar pras provas enquanto tentam algum freela em alguma área do universo, podem compreender essa lista.



(1)    Estabeleça prioridades

Não é aquela lista de quatrocentas coisas que você quer fazer da vida. Você não vai conseguir ir pra Paris, comprar um carro e passar no concurso público que quer no mesmo ano enquanto faz as coisas que precisa fazer – você precisa ter apenas um grande objetivo e um ou dois de médio alcance. Escolha despreocupadamente – sempre dará tempo de mudar de ideia ou fazer coisas novas nos próximos dias; não se precipite em objetivos profissionais.

Viajar, conhecer uma língua ou aprender alguma outra coisa (qualquer coisa, por sinal) é um um objetivo interessante. Sinceramente, não perca muito sono pensando no que fazer. Ponha um foco, pode ser até o sonho infantil que perdeu um pouco do sentido, tá valendo.

(2)    Planeje

Não, não é um cronograma pra tentar alcançar aqueles objetivos em tanto tempo – esqueça prazos, esqueça deadlines. Só vai gerar pressão e angústia quando a ideia é exatamente o contrário, o prazer.

Planeje como vai conseguir o que precisa conquistar aquele objetivo. Você precisa de quê? Dinheiro (quanto?), horas de estudo (quando?), treinamento (onde?), contatos (quem?), tudo isso precisa estar pelo menos rascunhado pra você não sair batendo a cabeça pelas paredes.

(3)    Força, foco e fé

Com o tempo vai ficar difícil dedicar aquele horário sagrado, mil coisas e oportunidades vão aparecer e você vai querer desistir tantas vezes quanto um gordinho de dieta deseja um cupcake de chocomenta. Até aqui foi brincadeira de criança, qualquer um pode fazer sem comprometimento. Então, algumas vezes na semana, nem que seja meia hora por dia, finja que está na academia e repita o mantra daquela galera estranha da academia – mas não precisa postar foto no instagram todo dia não, tá? Na moral.

(4)    Não desista

A maioria das pessoas desiste ali entre o terceiro e o sétimo mês de planejamento. Já passaram de ano, passaram de período na universidade, muita coisa andou e ainda não conseguiram atingir aquele objetivo que queriam.

Não seja tão impulsivo. A impulsividade, o desejo de ter tudo agora é que nos faz ser medíocres – aceitamos o médio, o comum porque não queremos esperar, treinar e lutar pelo melhor, com medo de perder. Se você definiu um sonho, corra atrás dele, não faça com ele com faz com o resto da vida. Deixe pra procrastinar nas outras 23h30 do dia.



Opinião

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“Essa geração é a geração mais burra de todos os tempos. Não sabem fazer nada sozinhos, dependem sempre de alguém ou alguma ferramenta que faça por eles. Não sabem se virar, estão cada vez mais dependentes da tecnologia e de alguém para ensiná-los. Cadê a curiosidade? Cadê a vontade de ser independente? Mas não, eles só pensam neles mesmos e naquelas coisas que carregam para todos os lados”


Virou lugar-comum falar dos jovens. São dispersos. Não respeitam nada. Não querem aprender. Se esqueceram do que é importante. Eu imagino que isso deve ter acontecido várias vezes durante a história da humanidade, e, por incrível que pareça, essas novas gerações cada vez mais burras têm sido cada vez mais eficientes. Quer dizer, o homem descobriu técnicas novas de conseguir energia que não precisasse transformar todas as árvores do mundo em lenha. Descobriu maneiras diferentes de guardar um texto escrito sem precisar transformar toneladas de madeiras vivas em papel (com uma durabilidade muito maior!). Como chegar mais longe, mais rápido de maneira mais segura e gastando menos combustível. Como alimentar mais pessoas, produzindo mais comida num menor espaço que agride ainda menos o meio ambiente.

Quer dizer, toda vez que uma geração se torna mais burra, na verdade ela está se adaptando a um novo paradigma e os reclamões – que nem sempre são mais pessoas velhas, apenas pessoas novas apegadas a velhos conceitos, não vejam o panorama geral – e a gente pode desenhar cinco situações simples pra compreender como isso funciona hoje (e como provavelmente funcionou alguns anos atrás), se liga comigo:

(1) Essa geração não sabe escrever!

Novas reformas ortográficas, contrações, aportuguesamentos de palavras estrangeiras que já existiam no Brasil ou seriam facilmente adaptáveis com um pouquinho de boa-vontade dão calafrios nos níveis intelectuais mais altos. No anúncio desses eventos, algumas pessoas tendem a agarrar o seu primeiro exemplar de Camões e a chorar no cantinho escuro do quarto, em posição fetal.

O engraçado (ou pelo menos interessante dessa história toda) é que as línguas nunca foram estáticas. Quer dizer, o latim não foi pra UTI do dia pra noite, quando deu luz à diversas linguazinhas que seriam suas descendentes. O latim foi sendo estrupado com o passar do tempo, através de péssima ortografia, falta de semântica e uma provável conjugação verbal de matar o latino dono da padaria (afinal, o português, ao menos linguisticamente falando, é latino).

Mas essa geração que escreve akivc, tu vaiqq se kerqqr um está matando a indústria panificadora inteira de uma vez só – e isso não necessariamente é ruim. Imagino a cara dos grandes fazendeiros ao ver seus filhos transformarem o vosmecê em você, assim, sem nem pedir autorização nem completar a palavra. VOCÊ, cara. Que palavra horrível. Mais ainda: imagino a cara dos colonizadores portugueses vendo aquele bando de filhos de seus compatriotas com as índias, se achando completamente europeus e falando vosmecê como um bando de caipiras tentando falar vossa mercê. Um bando de analfabetos funcionais.

E não pára por aí – não basta não conseguirem falar direito, esses moleques não sabem escrever direito! Quer dizer, eles mal conseguem usar papel e caneta, tudo eles fazem com ajudinha do computador. Não tem memória nenhuma, por isso não aprendem nada. Querem tudo fácil, tudo na mão, tudo digitando e escorregando o dedo no Swype. Exatamente a mesma coisa que o pajé, analfabeto, pensava do português que, pra não esquecer de algo, precisava ficar escrevendo e escrevendo e escrevendo. Onde já se viu um povo sem tradição oral? Sem que todo mundo soubesse sua história, de cabo a rabo, puxando pela memória de viver e de ouvir falar? Os portugueses, esses sim, eram um povo mais frágil, sem todo o desenvolvimento intelectual de um aborígene americano. Não conseguiam nem lembrar de uma conversa se não dependessem de um pedaço de papel higiênico, quem dirá achar o caminho de casa depois de uma batalha – inúteis. Sempre dependentes de papéis. Carregam pra lá e pra cá e vivem entretidos com aqueles montes de blocos em branco enquanto a vida acontece à volta deles.


(2) Essa geração tem tudo na mão!

Tudo. tudo tudo – exatamente tudo está na internet. Fritar um ovo? Tá lá, em textos, imagens e vídeos. Dar um presente? Tá lá, em diversos tamanhos, preços e prazos de entrega. Fazer um curso? Tá lá, em diversos sites, quantidades de vídeo-aulas e certificados de quantidades impressionáveis. Satisfazer o sexo oposto? Tá lá, das maneiras mais conservadoras (fazendo um chocolate) até as mais ousadas (se colocar morango vira sorvete napolitano). Eles não encontram dificuldades, por isso não vão saber lidar com problemas na vida futura – imagine que a crise de um pré-adolescente hoje é ficar sem celular – ou pior ainda, sem internet (celulares sem internet são inúteis pra essa galera).

Por isso tanta gente mimada. Não precisou fazer um curso de datilografia. Quer dizer, de caligrafia. Quer dizer, aprender o ofício com o pai. Quer dizer, plantar e colher no mato, com as mãos nuas. Quer dizer, a caçar sua própria comida – não, pera! As necessidades mudaram. Ninguém nas cidades precisa, há um bom tempo, saber fazer fogo com duas toras de madeira pra fazer uma refeição. Na verdade, há alguns anos, ninguém precisa fazer fogo com um fósforo em muitos lugares do planeta. São seres menos desenvolvidos por nunca terem esfregado dois galhos secos de uma árvore? Terão depressão por nunca terem gastado uma caixa inteira de fósforos até que a lenha perdesse a umidade e pudesse pegar fogo?

Acho difícil. Os desafios são outros. O caminho para a liderança da matilha é outro. A forma de dominação e subjugação é outra. Nos anos 90, você chegava ensanguentado depois de apanhar do coleguinha mais forte. Nos anos (dois mil e)10, você chega sabendo que é a pessoa mais escrota do universo e não conseguirá nunca ser alguém na vida. Além de ser gordo, idiota, burro, feio, babaca e retardado mental. Mas para as crianças que já nasceram velhas, isso tudo é frescura. Não existe bullying. Bullying é apanhar na escola. Bullying é ser morto pelo lobo-alfa da matilha. O resto é frescura.


(3) Essa geração não dá valor em nada!

Não se faz mais as coisas importantes na vida (seja lá quais forem). As pessoas não tem mais rituais de passagem. Anos atrás, você tinha a passagem para a puberdade, que o pai, carinhosamente ensinando ao filho as relações familiares de afeto, carinho e o que prezar num relacionamento, levava o filho a uma casa de tolerância para entender o que realmente é uma mulher de verdade. Não é mesmo?

Antigamente, as crianças passavam a noite inteira, soltas na selva, molhados, nus e só com uma lança e só eram aceitos de volta na sociedade se voltassem após matar um tigre ou um urso, o que parecesse mais aterrorizante.  Hoje esses meninos estão aí, sem saber o que fazer com suas genitálias, sem saber chegar numa mulher por causa disso! Saudades Piteco, ele sim sabia lidar com o sexo feminino como ninguém.

Meninos não viram homens, meninas não viram mulheres e essa geração não respeita nada.  Não tem um pingo de discernimento entre o divertir e o trabalhar. Querem trabalhar se divertindo, querem divertir-se trabalhando. Onde já se viu isso? Trabalho precisa ser chato, por isso começa com TRA de TRAnstorno por um motivo, amiguinho! Trabalho, pra última geração, precisa ser chato, precisa ser tedioso, precisa ser maçante – pra dar dinheiro. O trabalho que dá pouco dinheiro, mas é divertido, é sagaz, nos faz bem não vale. Essa nova geração tem um racha gigantesco entre pessoas que querem ganhar dinheiro desesperadamente, pulando de um emprego pra outro e acumulando freelas e pessoas que só querem ter… bom, na verdade nem estão tão preocupados assim em ter, é mais aquela coisa de trabalho-barzinho-cinema-casa. Sabe, de gostar da rotina, economizar pra viajar uma vez por ano? Então, quem tá acostumado a bater ponto no escritório não consegue entender esses estilos de vida.


(4) Essa geração só pensa naquilo. É isso aí mesmo, que você tá pensando!

Cresceram sexuais. Usam maquiagem desde pequenas (às vezes até desde pequenos), dançam funk até o chão em festas de aniversários que o cajuzinho ainda é aquele docinho feito realmente de caju e só querem conhecer e pegar alguém – com certeza irão engravidar antes dos 15. Aparentemente quem fala isso pulou direto de 1930 para 2014, porque não viveu o É o Tchan nos anos 90 ou Menudo nos anos 80, com letras e coreografias que passavam bem longe da moral e dos bons costumes – e não adianta falar que era restrito a uma classe social.

Crianças sempre tentaram parecer adultos. Por isso que a menina insiste tanto em tentar pegar a maquiagem da mãe (mesmo que não saiba como usar) e meninos já pensam logo em suas profissões. Todo mundo quer crescer, ser maior, fazer mais coisas sozinho sem depender dos outros. É isso que nos move, que move a sociedade, que move os cientistas e inventores. Fazer mais, fazer melhor. Ir mais longe, como indivíduos e como raça. Uma criança antes da puberdade que quer parecer adulto não está pensando em transar, está pensando em ser independente. Como, no fundo, todos nós fazemos até hoje quando chegamos à noite e deitamos na cama.

Mas porque então de repente tudo que os adolescentes fazem parece estar ligado ao sexo? O maior problema é o alcance. Antigamente, tudo que acontecia entre dois adolescentes ficava entre eles, ou um grupo de amigos em comum. No máximo no máximo toda a escola ficava sabendo de alguma bobice que eles fizeram quando não tinha ninguém vendo. Agora, qualquer bobice está ao alcance de qualquer pessoa com 3G na mão – e isso é muita gente. Não precisa conhecer uma pessoa pra ver suas fotos íntimas circulando no Whatsapp, não precisa ir ao clube pra ver aquela garota de biquíni – e não precisa ser amigo de ninguém pra saber quanta gente essa pessoa já pegou. É tudo domínio público já – talvez a noção do fim da vida privada que assuste mais os mais velhos do que as bobices feitas pelos ouvintes do Jonathan da Nova Geração (que já tá bem antiguinho, por sinal) – mas fazer bobice sempre foi mainstream.


(5) Essa geração não sabe o que quer!

Antigamente, você terminava o que começava. Entrava numa faculdade, não gostava? Ia até o final, oras. Vai fazer coisa malfeita? Entrava num namoro, tava ruim? Tentava melhorar. Arrumava um emprego que o chefe é chato? Lidava com isso. Hoje não: todo mundo quer desistir de tudo. A pessoa começa 5 faculdades e não completa nenhuma, porque não gostou. Namora e separa três meses depois porque descobre incompatibilidade de gênios. Qualquer carão que leva do chefe já tá com a carteira de trabalho na fila da Caixa pedindo seguro desemprego.

Engraçado essa falta de direito ao arrependimento. Não gostei de um curso na faculdade vou ter que ficar mais três, quatro, cinco anos estudando algo que detesto pra trabalhar numa coisa que odeio só porque aos 16, 18 anos eu não sabia direito o que ia querer da vida (se é que houve escolha)? Descobri que namoro uma pessoa completamente insana e tenho que ficar com ela porque, oras, porque sim? A liberdade de hoje incomoda quem já foi muito preso – não porque acha que todos precisam sofrer como as gerações anteriores sofreram, mas porque tiveram sonhos, desejos e vontades tão oprimidos que começaram a acreditar naquilo que seus opressores diziam.

Quando alguém da velha guarda diz que esses jovens precisam é de uns sopapos pra consertar a vida, é porque levou tanto tapa na cara quando novo que só sabe reproduzir o sistema. É por isso também que é um absurdo pra alguém com mais de trinta anos abandonar a faculdade – ou pior, trocá-la por um curso técnico de outra área. O diploma é sagrado (vide item 03), o relacionamento também e tudo que você pensar em fazer precisa necessariamente cumprir, senão algo de muito ruim pode acontecer (e acredite, vão usar qualquer coisa, qualquer mesmo)!


O aprendizado é simples: da mesma forma que você não é tão bobo quanto seu tio acha que você é, seu sobrinho não é tão besta assim. Vocês viveram contextos diferentes durante a juventude – por mais que você tenha vontade de falar juventude leite com pêra (leite com pêra deve ser horrível por sinal), para quem nasceu nos anos 70 você parecia bem mimadinho. Se quem nasceu nos anos 2000 é piá de prédio, você era chamado de moleque do asfalto.

Mean

É difícil saber quem são amigos e quem não são. É complicado olhar pra tela do computador e decidir o que compartilhar e o que guardar. Por um lado, despejar informações desnecessárias num extremo oversharing que vai ser prejudicial; por outro, afastar pessoas que não estão, por diversos motivos, tão perto da gente quanto gostaríamos – que ponto perdido no meio disso deveríamos nos encontrar?


(1) Redes de confiança

A questão sobre o compartilhar ou não compartilhar é um pouco mais antiga que as redes sociais ou o botãozinho “público/só para amigos” de “sites de relacionamento da internet”. Na verdade, toda a complexidade de relacionamentos interpessoais está exatamente nessa questão – o que compartilhar com fulano? Até onde me abrir? O que ele pode saber?

Ora, o problema não é necessariamente Fulano saber de X – o problema é o que ele faria com X; seria Fulano meu amigo suficiente para, sabendo de X, não frustrar a minha confiança e se aproveitar da minha abertura emocional? Não temos como saber. Mas, se parássemos aí, estaríamos num roteiro de dramaturgia mexicana, não nessa vida que é um pouquinho mais longa e mais complexa que os roteiros de “Amor a Mais de 100 Por Hora”, aquela novela da BAND que ninguém mais lembra.

Quando começamos a nivelar pessoas entre as que contamos segredos e aquelas que não contamos, não estamos apenas afastando aquelas que não são dignas de confiança – estamos criando barreiras entre elas. Explico: se eu conto toda a minha vida para A e B, parte dela para C e só mantenho aparências para D, eu me afasto parcialmente de C e completamente de D. Mas, ao fazer isso e manter A e B perto de mim, eu as afasto de C e D por consequência. Quando contamos segredos para algumas pessoas estamos as afastando de outras de sua convivência. Se A e C tinham uma amizade profunda, eu estou instigando A, para não trair a minha confiança, a manter os meus segredos escondidos de C, por mais prejudicial que isso seja a ambos.

Seria pois, culpa exclusiva de A compartilhar todas histórias com C, se este era seu amigo e confidente há muito mais tempo do que eu com o próprio A? Tenho eu como saber as intenções de A ou fazê-lo, ou, considerando que A tenha agido de boa-fé, a reação de C, mesmo que não o conheça? Confiando em A e B, não estou necessariamente confiando e ratificando suas amizades e redes de confiança próprias, que independam de mim?


(2) Aumento dos círculos de amizade

O problema é que quando acrescentamos o fator “redes sociais”, nós estamos complicando ainda mais a vida. Porque não se basta apenas a compartilhar com 5 ou 6 pessoas que podem replicar a notícia ou história para quem não queremos – é não poder quantificar a quantas pessoas eu estou disponibilizando a história X. O maior ponto positivo das redes sociais é o pressuposto para a sua pior face: hoje não precisamos estar fisicamente próximos de alguém para continuarmos íntimos.

Se estar afastado de alguém não significa perder a intimidade que já tive com essa pessoa, as redes sociais mudam completamente o paradoxo de intimidade e relacionamento. Porque, com o tempo, os locais que frequento e as cidades que moro, eu tendo a aumentar cada vez mais o círculo de pessoas íntimas, que não terão um relacionamento entre si (o que tende a ampliar o problema diagnosticado no ponto (1), Redes de Confiança). Se meus amigos íntimos não tem intimidade entre eles, tendem a conversar sobre o que digo com pessoas que me são estranhas – ampliando ainda mais o número de pessoas que terão acesso àquela informação.

Se essa dificuldade por si só já não fosse um problema, a forma que utilizamos as redes sociais para manter intimidade (ou uma aparência de intimidade) com meus amigos já distantes fisicamente, torna tudo ainda mais complicado. Quer dizer, já estou conversando assuntos íntimos com um número cada vez maior de pessoas, que irá replicá-los para um número ainda maior de amigos – e isso não é tudo.

Como vou manter essas pessoas todas informadas da minha vida, e como vou me informar delas? Haja e-mail ou MSN para falar de tudo. Mas se tivéssemos uma maneira de informar várias pessoas que passei no Exame de Ordem de uma só vez… Exato! Atualizamos status no Twitter, no Facebook, até mesmo no Google+, contando, de uma só vez, pra todos esses nossos amigos íntimos que, sim, agora somos advogados.

“É seu status, não o seu diário”

(3) E quando a bolha estoura?

Mas a vida é um pouquinho mais irônica. Pense comigo: você está então, mantendo a intimidade com diversas pessoas de uma só vez, porque a internet te permite isso, certo? Errado. Quando você tenta ser íntimo “em lote” ou a atacado, você não está sendo íntimo com ninguém. Aquelas suas notícias e as notícias dos seus amigos passam a ser mais um monte de informações que não tem tanta relevância pra você. Tudo bem, aquele sua amiga da 5ª série entrou no mestrado em Análise Macrobiótica de Sêmen Bovino, puxa, que legal. Dá um curtir ali. Mas as opiniões dela sobre a política econômica do governo Paes são sofríveis – sem contar aquele senso de humor das páginas que ela compartilha. E afinal, quem quer saber mesmo que a sua melhor amiga do ensino médio começou o quinto relacionamento e já tem fotos com o novo namorado como se estivessem juntos desde sempre?

Sem contar com a mãe daquele bróder da faculdade, que te ajudou a superar uma ex-namorada, aguentou seus porres de madrugada e foi uma mãe pra você (até organizando sua festa surpresa de aniversário quando você estava longe de casa) tentando te convencer de que o Silas Malafaia é sim, um cara legal, mas incompreendido pela sociedade e governo.

“-Eu saí com alguns amigos semana passada
-É, eu vi no Facebook.
-E eu vou lá naquele lugar em breve
-Vi no Facebook.
-Você tá me stalkeando?
-Não, você que posta demais.”


(4) O que fazer agora?

Admita: você não tem mais intimidade com essas pessoas. Dói, eu sei. Não é fácil perceber que amizades se perderam ou foram embora com o tempo. Mas é melhor lembrar das amizades que você já teve do que sofrer pra manter uma sobrevida numa intimidade que já se perdeu. Se foque nos novos amigos, em outros amigos ou em fazer novas amizades. Não é uma questão de abandonar o seu passado, mas se tocar de que a vida dá voltas, as coisas fluem e as pessoas (inclusive você mesmo) mudam; mudam de cidades, de prioridades, de objetivos, de estilos e de sentido.

Agora, quanto às suas redes sociais, segredos e com quem compartilhar histórias, eis um breve conselho: pode ser mais fácil, ser simplesmente quem é. Se for dar treta de qualquer maneira, prefiro ser detestado pelo que sou – de fato, eu já afirmei algumas vezes: Detesto mal-entendidos. Prefiro que as pessoas me odeiem pelos motivos certos. Não se preocupe tanto assim, afinal, haters gonna hate. Encontre em si mesmo, e em alguns amigos, ponto de equilíbrio. Se lembre que você não é personagem de uma série de TV e não precisa estar envolvido o tempo todo em tretas e histórias cheias de tensão. Você não precisa salvar o mundo de alguém e pode, simplesmente, caminhar para longe da confusão.


Opinião

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A Copa nem começou e já ganharam a Copa. Os croatas dançando Ai se eu te pego numa laje em SP, o mexicano que pegou ônibus no sentido errado e acabou fazendo um tour em Fortaleza, o guri de escola pública em Salvador que conheceu Podolski, o jogador alemão que foi homenageado em seu aniversário por Pataxós, os cariocas que viram os holandeses apanharem do mar em Ipanema. Já são milhares de histórias que ao contrário dos gritos de protesto, mostram que sim, a Copa é pra todo mundo.

A Copa do Mundo não é da FIFA, por mais que ela queira – a Copa é de todo mundo. E essa Copa acontecer no meio desse caos todo dentro da FIFA justo no Brasil é uma importante lembrança de que os cartolas não são donos do futebol. Seja os R$40 do Criciúma vs Chapecoense de quarta-feira seja dos R$5000 da final da Copa, o último lugar que o futebol é jogado é dentro de campo, me perdoem os narradores. O futebol não é a loja de shopping vendendo camisas oficiais do time por uma fatia gigantesca do salário mínimo.

O futebol é jogado dentro dos bares, o futebol é o camelô com a camiseta que nem disfarça ser pirata vendida a R$25 no camelódromo do centro da cidade. É o amarelo do sorriso sujo de cigarro do senhor de idade vendendo um apito verde-e-amarelo, é o vermelho da timidez de um chileno com a bandeira do seu país perdido no interior do Mato Grosso do Sul há mais de cinco anos e que é zoado por todos brasileiros à sua volta mas mantém orgulho das suas origens, é o grito de alegria do uruguaio que foi encontrar seu cachorro 2 mil km longe de casa.

Me desculpem os protestantes que dizem que não vai ter copa, mas já teve copa pra mais de metro. O que for feito dentro de campo é mero detalhe perto de tudo que já aconteceu e ainda vai acontecer entre um jogo e outro. Obrigado ao cobrador de ônibus que não sabe falar espanhol, ao camelô que toca vuvuzela incessantemente, aos protestantes e a todas as presepadas que estão tornando essa copa a Copa mais sincera.

Vai ter Copa, inclusive nas cidades em que vai ter copa.


Opinião

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Esqueça o viver de glória em glória. O máximo que a gente faz hoje, é escorregar de treta em treta, tentando sobreviver e não fazer muita besteira no meio desse caminho. A vida feliz, completa, satisfatória que nos prometeram mostrou ser mais do que um simples caminho estreito. É uma ponte bamba, escorregadia e sem nenhuma cordinha lateral para se equilibrar – e a queda, além de perigo constante, provou-se humilhante.

Pode ter sido por influência da TV, como sempre tem uma galera ávida por culpar algo superior e exterior por todos os problemas do universo, mas nos acostumamos a viver como se estivéssemos dentro de seriados. Vivemos uma vida cheia de dramas, pontos altos e baixos, numa montanha-russa inebriante que precisa constantemente de atualização e reformas para não ficar repetitiva e cancelarem no meio da terceira temporada por falta de audiência. Queremos viver Californication. Queremos ser a pária de The O.C. ou a mente malévola de Revenge.

É estranho perceber que em boa parte do tempo as pessoas estão preocupadas com problemas que já foram resolvidos ou que não podem ser solucionados. É impressionante a quantidade de voltas que damos para evitar um simples constrangimento de foi mal, cara, eu realmente não curto o que você escreve, então vou te dar unfollow, mas a rua é nóiz. Tudo, para nós, precisa ter algo a mais.  Nos tornamos os paranoicos que veem ameaças escondidas em notícias de jornal.

Precisamos de segundas, terceiras opiniões – e de segundas opiniões sobre as terceiras opiniões que nos deram. Somos o centro do universo: tudo conspira para nos derrubar. Fulano não deu bom dia com sorriso? Tem treta aí.

Devo dizer que minha vida melhorou bastante quando eu percebi que eu não era um personagem de série. Quando me disseram que eu não precisava me meter em todos os problemas, eu não entendi. Mas quando eu vi que as tretas só vinham até mim porque eu era o personagem principal da trama, eu abri mão do roteiro e abandonei o estúdio de filmagem.

Você não é Jackson Teller. Você não é Ryan Atwood. Você não está apaixonada Hank Moody, nem é Louis Lane. Então tire esse peso das suas costas e perceba que você não precisa salvar o mundo. Não a atacado.  Comece a viver isso, o pouco, e você verá que existe um viver de glória em glória. Provavelmente não te dará uma coroa de louros, mas te dará uma família pela qual vale a pena lutar.


Respeite seus limites, saiba que brigas comprar, e principalmente: saiba quando você está lutando uma batalha perdida, e como sair dela. Se existe uma série que você poderia atuar, é Community. Mas só pelas guerras de paintball.

Meu avô dizia que o mundo andava muito estranho – e eu preciso concordar com ele. Tenho visto muitas coisas nesses dias que dá vontade de jogar tudo pra cima e esquecer que um dia eu fiz direito e aprendi alguma coisa naquela faculdade.


Saí da faculdade em 2011 – não faz muito tempo, mas pelo menos até lá, a gente podia acreditar em uma coisa: bizarrices aconteciam, muitas, na primeira instância, mas no Tribunal e nos Tribunais Superiores as coisas eram diferentes, e tudo se acertava por uma lógica jurídica que fazia sentido, a despeito dos entendimentos no mínimo intrigantes dos juízes de primeira instância.

Aprendemos que o processo é aquele pré-adolescente que faz coisas que ninguém entende porque (juiz de 1º grau), mas alguns anos depois adquire certa maturidade e passa a ser um jovem processinho, com ideias melhores na cabeça (2º grau) e, às vezes, precisa de amadurecer um pouco mais para se tornar um processo razoável, digno (3º grau). O STF é um órgão político, desde cedo a gente aprende isso nas aulas de Teoria Constitucional. O porquê de sê-lo, para que sê-lo e como ele, assim como todo o poder Judiciário é destacado dos demais, acessível apenas por concurso público ou através de indicações depois de extensos exames e sabatinas, nas quais comprovar-se-ia o notável saber jurídico de seus membros.

O judiciário seria a luz da sanidade enquanto o legislativo continua cheio de representantes com interesses diversos do povo e o executivo bateria cabeça tentando ver se faria alguma coisa antes das próximas eleições. 

Mas nos últimos dias, tantas coisas tem acontecido, partindo de tantos lugares que a gente fica meio bobo – e perde a fé no sistema jurídico. E o que um advogado deve fazer quando perde a fé no judiciário? Eu não sei.

É construtora que exige assinatura de uma cláusula de não modificação do imóvel porque sabe que ele foi mal-construído e não pode mexer na sua estrutura senão tudo cai (e tá tudo bem); é policial prendendo pessoas por estarem de máscaras e juiz dando a liberdade provisória com exigência que não é estendida nem aos acusados de homicídio; é deputado querendo penalizar o uso de máscaras de maneira mais forte que é penalizado o estupro; é policial usando a força porque sim e proibindo a filmagem porque não; é juiz que não dá liminar contra plano de saúde porque a decisão poderia causar ruína à empresa a mesma que faturou R$33 bilhões ano passado; é casa do governo federal com fiação insuficiente pegando fogo em todos os cantos da comunidade e ninguém é responsável por nada, tá tudo uma loucura.

E tá tudo normal. Vou falar o quê pro cliente?

Você tá no prejuízo, foram injustos com você, e você pode perder a sua casa? Olha, a gente pode entrar com um processo, mas… é como rodar o peão do Silvio Santos. Você pode ganhar o que tomaram de você de volta ou pode perder tudo que tem e mais um pouco. Como? Justiça, senhor? Fazer o quê, é a vida…


Nós não ensinamos os homens. Depois de rebater vários argumentos feminazis, de entrar em discussões que sempre achei sem nexo e relativizar muitas questões, cheguei à mesma conclusão que todas as feministas já chegaram:  nós não ensinamos os homens.

Foi a pesquisa “Chega de Fiu-Fiu” feita pela Karin Hueck, editora da Super Interessante, que me fez repensar um pouco e algo, que considerava exceção vi tornar-se a esmagadora maioria. Quem corre por aqui e pelo twitter já viu diversas discussões sobre a falta de postura dos homens, em relação, principalmente ao contexto evangélico e relacionamentos – mas mesmo assim, estamos falando de 20% do total de homens desse país – e mesmo nesse meio nós vemos abusos à torto e à direito cometido por membros que são abafados dentro da própria comunidade.

Se aos homens evangélicos falta iniciativa construtiva – no sentido de construir um relacionamento, de lidar com os problemas dele e de assumir suas responsabilidades, no homem-médio brasileiro não falta iniciativa destrutiva. O papo aqui nem é sobre relacionamento, responsabilidades ou cristianismo: é sobre vida mesmo.

Eu, pessoalmente, achei que quando o verbo pedreirar fora atribuído ao ato de mexer com desconhecidas todos nós (ou pelo menos a maioria de nós) já tivéssemos entrado em consenso que isso não se faz – apesar de todas implicações e generalizações más que isso traz com a classe dos pedreiros. Caso não tenha ficado claro, cantar, dar em cima ou elogiar desconhecidas não é algo agradável. Não deveria nem ser discutido isso mais.

Não é errado cantar uma amiga sua. Não é errado elogiar uma conhecida sua. Não é errado dar em cima de alguém. Claro que não. O problema é exatamente a contextualização da situação. Não é só com contextos literários que as pessoas tem problema, e não sabem interpretar um texto completamente – muitos tem problemas em contextualização social.

Mas por que exatamente pedreirar? Por que não lavrar, frentistar ou advogar? É simples: temos num imaginário social, o pedreiro como o nível mais baixo de moral – é aquele homem bárbaro, que anda sujo, não tem bens, ensino nem cultura. Ok, antes desse texto sair completamente do estilo de escrita do blog e recair numa vala de feminismo exagerado ou de politicamente correto (sobre o qual eu realmente acho que vocês deveriam ler esse texto), concluo: o pedreiro, assim como outros operários manuais, é aquele cara que não tem nada a perder.

Socialmente, ele não tem para baixo – tudo que vier é lucro. A figura do pedreiro, então, como aquele cara sujo, inconveniente e tarado é a visão que todo homem tem de seu próprio nível mais baixo. Porque mesmo que pedreirar seja o pior nível que um homem pode chegar, ele ainda é um nível tido como viável, dependendo das circunstâncias.

Ora, o que teria eu a perder ao elogiar uma garota bonita que passou por mim na rua? Nada, afinal, minha namorada, meus pais nunca saberiam – essa mina nem me conhece. Vai que ela sorri. O que teria eu a perder ao passar relando na guria no ônibus? O ônibus tá cheio mesmo, acontece, tô no lucro. Esse pensamento, meus caros, evolui.

Como uma mulher, indo sozinha do ponto de ônibus pra casa, à noite, se sente quando passa um homem e fala que delícia! (e olha que “que delícia” nem é tão mal visto assim)? Ela é um objeto pra ele – algo que ele gostaria de ter, que ele poderia ter se quisesse pra se satisfazer, e o que ela tem como garantia que aquilo é somente um elogio e ele não vai decidir que ele merece ter um pouco de prazer? Exatamente: nada. Por que? Porque ela não faz ideia de quem seja aquele cara.

O ser humano – e acrescento agora as mulheres nesse balaio – evoluiu? Nem um pouco. Fazemos o que é socialmente certo porque somos socialmente obrigados. E machucamos, exploramos e tornamos a vida para os outros o mais difícil possível o máximo que pudermos.

Afinal, para muitos homens, a mulher nada mais é que um cuspidor de esperma.

O capitalismo leva em conta um fator natural muito prático, mas que outros modelos econômicos não previam: a merda. O sistema sempre dá um jeito de se auto-regular, não tem muito saída individual sem se isolar da sociedade. Independente do estado que você esteja, a vida vai dar uma zoadinha contigo.

Não precisa ser rico pra ser feliz, e não precisa ter muitas coisas pra estar tranquilo, isso é uma verdade mais do que batida em toda conversa sobre vida, auto-ajuda e outras coisas afim. Mas quando você tá tranquilo, respira fundo, está acostumado com uma rotina que não te estafa e você basicamente não quer mais nada do mundo, acontece a tal zoadinha pra te balançar.

Living in the car


A zoadinha não é inerente ao capitalismo, são coisas da vida. Você perde o emprego, acontece uma crise econômica, uma doença mais forte, um assalto, qualquer fato que abale sua situação financeira pode acontecer – a diferença no capitalismo é que o sistema está pronto pra isso.

Você precisa (por algum motivo, muitos nem sempre tão egoístas quanto possa parecer) retornar à condição financeira anterior, e acaba dando o sangue pra conseguir um pouco mais de dinheiro pra chegar lá; a gente sempre se vira. É nesse se virar que o capitalismo aposta – e é aqui que está o segredo da manutenção do sistema até hoje.

Quando você está se virando pra voltar à situação econômica antes da sua crise (que pode ser pessoal, local, regional ou até nacional), você aceita condições que anteriormente não aceitaria: mais trabalho, mais peso, menos remuneração, mais esforço e então o dinheiro continua a girar.

Algumas dessas crises são naturais. Chuvas, enchentes e doenças que muitas vezes não havia como prever ou se proteger. Outras, nem tanto – o próprio sistema faz questão de garantir que elas aconteçam pra sua manutenção, e a mais clara delas é a existência do abismo social.

Por maior que seja a classe média, sempre haverão pobres e miseráveis – e a vida não é nem um pouco tranquila pra quem nasce/cresce nessa situação, por vários fatores, causados por um emaranhado de pressupostos que é quase impossível vencê-los:

  1. Trabalho mal-remunerado: o salário recebido nunca vai ser suficiente para manutenção da família sem sacrifícios. Seja ambos pais trabalhando por muitas horas incluso finais-de-semana, seja com filhos trabalhando ou se virando (muitas vezes ilegalmente) para conseguir sustentar a casa e atingir o estado de rotina (quando estamos tranquilos;
  2. A repulsa social: não adianta. Você pode até ter dó e comprar um doce pra ajudar uma criança ou uma adolescente a chegar no estado de rotina – mas quanto mais velhos ficam, a compaixão vira raiva. Independente de mendicância ou comércio ambulante, a gente pega raiva daqueles jovens (principalmente homens) que não arrumam um emprego.
  3. O estado de risco: os maiores esforços para conseguir dinheiro realizado pelas classes econômicas mais baixas se concentram num único objetivo: conseguir morar/viver em um lugar melhor. Isso quer dizer que essas pessoas geralmente moram em lugares perigosos, dominados pelo tráfico e outras instituições paraestatais que se levantam como uma forma de se virar dos outros. O problema é que quando o se virar de alguém dá certo, aquele alguém vira exemplo – pelo bem ou pelo mal.
  4. A meritocracia: a maior consequência do ego no capitalismo – quem chegar primeiro ou mais longe merece mais, independente dos fatores da equação. As vagas nas faculdades públicas, que disputam os desiguais. As vagas no mercado de trabalho, que geralmente são pessoas mais capacitadas se virando num emprego um pouco pior e o não-tão-preparado assim, que busca se manter na rotina.
  5. A corrupção (no setor público ou privado): o lado mais negro do ego se manifesta aqui, e influencia todos os fatores anteriores. A corrupção é a tendência de querer ter um pouco a mais do que se tem – nem que seja um pouco mais de controle sobre as coisas. Ela pode se manifestar no sistema público e provocar o abismo social que traz o estado de risco (3); ou no QI, colocando uma pessoa no trabalho pelos favores que ela pode trazer.

O sistema sempre se encaixa, e sempre se fortalece. Toda vez que acontece uma rachadura, ele é auto-regenerativo – a abolição da escravidão foi uma rachadura, que logo foi cimentada pela marginalização dos ex-escravos. A instituição de políticas públicas como a criação de universidades públicas, com a federalização de várias instituições foi tapada pela meritocracia e criação de vários cursos preparatórios para o ingresso no ensino superior. A criação dos programas habitacionais foi suplantada pela maior especulação imobiliária que se teve notícia desde a reinstituição da democracia no país.

Não importa quem você seja, ou quão importante e confortável seja a sua posição – você é mais uma peça nesse tabuleiro que é um jogo de damas – não de xadrez.