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Provavelmente você pode substituir CTBC por qualquer outra empresa que você tenha um SAC via telefone, assim, qualquer outra mesmo. Mas dentre todas as opções que eu já tive, até mesmo dentro da telefonia, a CTBC consegue quebrar todos os limites e parâmetros de ridículo já pré-estabelecidos em call-centers.

A saga começa quando você tem algum problema em qualquer um dos produtos da empresa: TV a cabo/satélite, telefonia fixa/móvel ou internet fixa/móvel. Como toda boa empresa coronelista, a CTBC faz questão de estabelecer um padrão medíocre de prestação de serviços, na qual a resolução de problemas não é vista como mera obrigação, mas a concessão de um presente especial a um usuário atencioso e paciente.


A primeira medida ao ligar para a CTBC é: esqueça. Simplesmente esqueça todos atendimentos prévios e tudo que você conhece sobre leis.

Tá certo, um ponto nós temos que dar para a empresa: você não vai ser transferido de atendente para atendente num ciclo infinito. Simplesmente porque você não vai conseguir falar com um atendente fácil assim.

Já no primeiro toque, você precisa escolher uma opção. A ou B. Fale com um atendente? Ainda não, rapazinho. Ah, mas a lei… Procure um concorrente – ou melhor, se mude para uma cidade há mais de 300km, porque, bom, não há concorrentes. Você escolhe uma opção. Ouve o protocolo de atendimento. Passa para a segunda fase: parabéns!

Até aí a voz de Google Translator da máquina não é tão incomodativa assim. E aí você tem mais uma escolha pra fazer: sete opções + um bônus de fale com nosso atendente. Como um bom jogador iniciante de RPG, você não desconfia da opção mágica por trás, e tecla OITO com uma ferocidade tão grande que parece que está escolhendo a resposta certa no Show do Milhão.

Com um sorriso estampado no rosto, você já prepara todo o discurso que vai fazer pro atendente, como será recebido, o que responder e já tem até as ameaças de cancelamento ou denúncia no Ministério Público na ponta da língua, quando é surpreendido por uma outra voz do Google Translator (deve rolar uma parceria aí, não é possível), que te diz os locais que eles estão tendo problemas técnicos (como se já estivessem pedindo desculpas antes mesmo de você reclamar), e todo aquele blá-blá-blá de solucionaremos o problema, a equipe técnica (quase um semi-deusa, de tão mística que essa equipe é) resolverá os problemas e a cidade de Townsville estará segura novamente.

Depois disso, uma nova transferência e… VOCÊ TEM MAIS UMA OPÇÃO PRA ESCOLHER! Você olha para os cinco caminhos que têm a escolher e… ué, não tem minha opção, e agora? Quero retornar ao menu inicial, quero falar com alguém, quero fazer alguma coisa – e tudo que você ouve é a primeira voz do Google Translator, com um tom quase malévolo de dígito não verificado. Opção não encontrada. Você é um trouxa, se fodeu e vai ter que ligar aqui de novo e começar do zero. há-há-há. Dígito não…NÃÃÃÃÃÃÃO!

Você desliga o telefone. Respira fundo. Lembra que a culpa não é do aparelho, e não adianta jogá-lo na parede. Se fizer isso, eles ganham. É uma guerra – uma guerra sua contra eles. Igual dos filmes de ação, que o Jack Bauer precisa enganar todo mundo e destruir o inimigo. Só que você precisa fazer isso pelo telefone.

Com esse pensamento Rocky na mente, você liga mais uma vez. Se lembra daquele vídeo (abaixo) dos belgas que deram o troco numa empresa telefônica de lá, e começa a pensar em como fazer isso lá na sede da Algar Tecnologia. Dando pulinhos em aquecimento, você liga de novo.

Não completa a ligação. Confere o número digitado – é aquele mesmo. Liga mais uma vez. Pronto, a primeira bifurcação. Como um atleta nos níveis inferiores de competição, você passa tranquilamente, com a certeza do seu caminho. Ouve o protocolo da ligação, e escolhe rapidamente a opção que quer (qualquer uma MENOS falar com um atendente). Ouve mais um menu, concentrado. É agora. Agora que você vai decidir se é ou não é. Pra ter certeza, espera a mulherzinha do Google Translator repetir as informações pra você marcar com sabedoria, com classe, com amor. Vai ser gol de letra.

Confiante, você escolhe a opção – e vai entrando cada vez mais nesse labirinto de sebes que é o tele-atendimento da CTBC (caso vocês tenham esquecido o nome da empresa local, tai a chance de lembrar), você se sente quase o Harry Potter em busca do Cálice de Fogo (sem a opção de que alguém pudesse alcançá-lo primeiro e resolver o problema de todo mundo) e vai se embrenhando naquele mundo obscuro. Quando pensa que não PUMBA!: aparece um atendente.

Conta todos os seus problemas pra ele. De como sua vida mudou antes da CTBC. Como você vivia num moquifo abandonado, com lixo subindo pelas paredes, e com cabelo desgrenhado. Assim que recebeu o serviço, você tomou banho, penteou o cabelo e não fez a barba porque as gatinha gosta, sabe, né, moço. Mas a sua vida mudou. Você já estava até pensando em comprar uma camisa da Hollister e um perfume Ferrari Black daquele seu ex-colega de sala muamb importador, que faz um precinho bacana. Mas agora, você está quase de abstinência. A desorganização voltou. A amargura voltou. As caspas voltaram.

Eu era um bêbado…

E tudo que você obtém como resposta é: enviaremos um técnico, quando ele chegar ao local, se não houver ninguém para atendê-lo ou se o serviço estiver funcionando normalmente, será cobrada uma multa.

Apesar da insensibilidade que parte seu coração, você entende. Entende que é apenas um mero mortal, descartável, uma colher de plástico no meio de uma grande galinhada beneficente – e quem te usa está fazendo um favor ao mundo.

E assim que você desligar, o serviço volta a funcionar.

MEU DEUS, TEM QUE LIGAR PRA CANCELAR A VINDA DO TÉCNICO! E começa tudo de novo…

(ressalva: eu adoro o pessoal das redes sociais da CTBC – são os únicos que resolvem os problemas, inclusive os problemas com o próprio callcenter.)


Um dia de aventura: Lidando com o Tele-Atendimento da CTBC

Categoria: Contos de Domingo
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