Leia a Parte I pra esse texto fazer sentido, cara.

Eu andei, cara. Como eu andei. Na verdade, eu fiz o trajeto da Rodoviária de Posadas até a praia de água doce praticamente em linha reta. Segundo o Google Maps o trajeto dá um pouco menos de 7km, com 8kg de coisas nas costas. Cheguei lá, esbaforido, cansado, com os bofes pra fora, e acabei encontrando um Mirante, à beira-rio, com alguns bancos. “É aqui mesmo”, pensei, joguei a mala no banco, deitei em cima dela, abracei a mochila e dormi.

Já dizia o sertanejo, deitei no banco da praça...


Não, não foi um cochilo. Eu dormi mesmo. Dormi de acordar duas vezes e voltar a dormir. Dormi das 9 da manhã até as 13 horas naquele banco – e foi aí que minha barriga começou a roncar e o sol começou a arder. Sentei e pensei com meus botões o que raios que eu vou fazer?

Não tinha um peso no bolso. Não tinha encontrado um buteco aberto. Dificilmente encontraria um que passasse cartão. Quando a barriga começou a apertar mais uma vez, e eu reparei que não era bem por fome que ela estava roncando, eu desesperei. Vamos procurar um banheiro público, ou qualquer coisa aberta por aqui, pensei. E fui seguindo a Av. Costanera. Andei, andei, andei até encontrar, pelo menos encontrar um guarda que pudesse me ajudar. Daí veio a minha maior dúvida: Como pedir informação pra alguém naquele dia sem falar que eu estava DESESPERADO pra cagar?

Não sei como, mas ele me indicou uma rua mais turística, onde se tivesse alguma coisa aberta, ali seria o lugar. Apertei um pouco mais os nós do intestino, juntei todas minha forças e comecei a entoar mentalmente qualquer música que viesse à minha cabeça, tudo pra não pensar que eu poderia ter que jogar minha calça fora (afinal, só ia poder lavá-la depois de 24 horas, se eu conseguisse me localizar bem em Santa Fe) e fui.

Nada nos três primeiros quarteirões da rua. Já quase desesperado, pensando em abaixar em uma das portas recuadas das lojas e soltar o barro, ouvi uma música de longe. Incrivelmente, não era reggaeton nem nenhum outro ritmo maldito dessa América Latina – era o bom e velho rock.

O som de Pink Floyd nessa hora do desespero foi pra mim mais do que um sinal divino, de que ainda haveria esperança de uma latrina melhor. Segui o som assim como os personagens de desenho animado vão levitando seguindo o cheiro de comida – e dei de cara com uma lanchonete/bar que tinha acabado de abrir. Não pensei duas vezes. Joguei minhas coisas na mesa mais do fundo e dando a desculpa de que precisava lavar as mãos, encontrei o banheiro.


Eu estava mais ou menos assim, só que mais bonito. E desesperado.

Cheguei lá e deu até dó. O banheiro tinha ACABADO de ser lavado – e provavelmente pela mocinha que tinha sido gentil suficiente pra entender meu portunhol e me mostrar o lugar. Ela tinha me dado um sorriso tão sincero, coitada. Mas a minha dó só durou uns três segundos, que foi o tempo necessário pra uma pontada me lembrar que eu não estava ali para dar nota à limpeza do banheiro.

Rapaz. Eu acho que eu nunca fiz um serviço de maneira tão rápida e tão profunda quanto esse. Em poucos segundos eu perdi boa parte dos líquidos do meu corpo (se fizessem um exame eu teria aproximadamente 55% de água no corpo, ao invés dos 70 normais) e uma grande parte dos sólidos (mais pra gelatinoso, se é que vocês me entendem). Meio rolo de papel higiênico depois, e só alegria.

Saí do banheiro com aquela cara de quem tinha acabado de ganhar na Loteria Esportiva, e, me sentindo saudável pela primeira vez em muitos anos, pedi um suco de laranja e algo que parecia ser um X-Salada. Quando a moça-do-sorriso-gentil-que-tinha-acabado-de-limpar-o-banheiro-quando-eu-caguei-nele-todo estava chegando no balcão pra passar meu pedido eu lembrei de um detalhe, meio assim… essencial.

“Pasas la tarjeta?” (no mais lindo portunhol do universo)

Ela fez uma cara de pena, e disse que não.

Não passava cartão.

MEU. DEUS. DO. CÉU.

(assim)

Eu não acreditei que tinha feito aquela BELEZURA no banheiro no lugar recém-aberto e não ia nem ter como recompensar aquela galera tomando um café (apesar de serem quase 15 horas) supimpa e deixando uma gorjeta interessante.

Eu devo ter ficado vermelho na hora, e comecei a gaguejar um pedido de desculpas, ao mesmo tempo que tentava disfarçar a minha vergonha –e a menina sem entender nada, dizendo que tava tudo tranquilo e acontecia.


Mal sabia ela o acontecimento que a esperava mais tarde. E mal sabia eu que tava só no começo dessa história.

Um gênio atravessando a fronteira (Pt. II)

Categoria: Sem categoria
93 views