Leia a Parte I pra esse texto fazer sentido, cara.
Aproveite e leia a Parte II também, pra não ficar boiando.

Saí de lá com o rabo entre as pernas, até meio cabisbaixo, pensando no mal que tinha acabado de fazer pra alguém que, além de trabalhar no domingo, ser garçonete, limpar banheiros, ainda era argentina. Já não bastasse uma vida ferrada dessas, ainda fui eu lá, pisei e amassei o resto do dia dela (que tinha acabado de começar).

A cara da menina ao ver o que eu tinha feito com o estabelecimento comercial que ela trabalha.


Mas não deu muito tempo pra sentir dó dela, porque o meu intestino começou de novo. DE NOVO. Eu não conseguia acreditar que ia ter que achar algum outro estabelecimento (ia ser muita cara-de-pau voltar lá, né, na moral) pra tentar não estragar muito o banheiro (e dessa vez perguntar se passava cartão antes, só pra constar).

Dois quarteirões depois, achei uma praça, com banheiro público. Eu já estava preparado pra louvar pela graça concedida quando vi que ele tava trancado de corrente – e só funcionava em horário comercial COMOASSIM, SÓ FUNCIONAVA EM HORÁRIO COMERCIAL, MEU DEUS?

Suspirei (mas não muito forte, sabe como é), e continuei a andar. Passei por mil lojas fechadas, trancadas e acorrentadas (como o banheiro) e por um café com cara de café de hotel. Olhei lá pra dentro e passei reto. Foi só no próximo quarteirão que eu me dei conta de que ali provavelmente era o único (outro) lugar da cidade aberto –e que pela cara de hotel chique, seria o único que passaria cartão de crédito (e ainda tinha Wi-Fi!).

Voltei, escondi minhas coisas no canto, e sentei. Parecia uma delicatessen, ou qualquer saguão de docerias daqueles filmes chiques, com garçons de camisa e gravata borboleta, uma profusão de pães e doces cujo nome eu não sei pronunciar e preço minha memória não conseguiu gravar, de tão absurdos – e fui atendido prontamente, por um senhor que não me julgou pelo meu estado físico.


Seria no mínimo interessante ser atendido por um garçom assim.

Sim, eles passavam cartão. Sim, eles tinham wifi, e a senha era xis. Sim, ele podia me trazer um menu. Sim, eles cobravam 16 pesos (hoje R$6,60) por um copo de suco de laranja. Sim, era o mais barato que eles tinham para servir. Sim, ele traria o meu copo de suco de laranja –é só isso, senhor?

Assim que chegou meu suco de laranja de quase sete reais, tomei um gole e perguntei onde era o banheiro. Quando cheguei lá, rapaz. Me senti numa rodoviária no interior de Minas (não chegava às rodoviárias do Nordeste/Rio, mas era bem a cara de Minas). Que banheiro bizarro, pensei eu.

E fiquei lá por exatamente 25 minutos (que eu contei no relógio). Desci as escadas praticamente segurando as calças (que não estavam mais tão justas quanto na noite anterior) e tentando não desequilibrar com a repentina baixa na minha pressão, se bem que pelo tanto de peso (não a moeda) que eu perdi, eu deveria levitar, e não cair.

Bebi o resto do meu suco, e me sentindo quase saudável, voltei pra rua, em busca da Rodoviária Perdida.


Um gênio atravessando a fronteira (Pt III)

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