Foi fundado o Partido Pirata do Brasil. Estive lá, pessoalmente, e pude conferir tudo que aconteceu nos últimos momentos para a solenidade de sábado, na Igreja da Soledade. Sim, um partido pirata fundado nas dependências de uma Igreja – no Centro Social, mais especificamente. E este é apenas um detalhe dos tantos que compuseram essa história que já vem se desenhando há mais de cinco anos.

Não sei como eu me sentia ao comprar a passagem para ir à Recife, conferir esse evento, ou o que eu esperava ao me inscrever como fundador. Era ao mesmo tempo o ápice de algo que eu acompanhava há pelo menos dois anos, sem agir, como um receio de lidar com muita coisa que eu não gostaria de ter visto – como acontece direto na política.

A composição de pessoas me deixava com alguns pés atrás em relação ao PPBr – não que eu desconfiasse de seus interesses e atitudes, mas imaginava que não seria muito bem recebido, afinal, não bastasse ser cristão, ainda sou protestante e evangélico, o que não é uma combinação muito bem vista em meio a ateus e agnósticos (a maioria que eu conhecia ou tinha ouvido falar).

Para piorar, quase todos eram ligados à áreas de computação ou Ciências Sociais, e novamente eu era de uma área não muito bem vista, o Direito. Bendita hora que fui ouvir meu bisavô, pensei. Ele já deveria estar delirando na cama do hospital quando soltou uma coisa dessas, mas foi isso que eu resolvi fazer.

Quando cheguei na Igreja já estavam acabando os debates dos GTs – estatuto, programa, diretrizes e captação de recursos. Para quem não sabe, todo o texto base vinha sendo discutido de maneira ampla e geral há pelo menos 15 meses no que é conhecido como SIM Pirata, uma plataforma de discussão e debate utilizada pelo Movimento que viria a fundar o Partido – e foi através da construção geral e colaborativa, chegaram aos textos-base que estavam sendo debatidos e reconstruídos. Os GTs eram abertos, e tínhamos a presença de membros do PT, PSTU e de vários outros observadores que participavam das discussões.

Quando cheguei no GT do Estatuto, começava um tema feito para mim – Estado Laico. É claro que eu não iria chegar na hora que se discutia direitos autorais, acesso à educação, composição estrutural do partido, não, não. Tinha que chegar no Estado Laico.

O Allan, meu contato no Piratas! já estava lá, e me apresentou pro resto do pessoal – e enfronhamos na discussão de um jeito que de Estado Laico fomos parar nas Juventudes Partidárias, complicações do interior do NE e o coronelismo da região. Quando vi, estava numa mesa de bar, fortalecendo o imperialismo (= bebendo coca-cola) e conversando animadamente com várias pessoas que eu tinha conhecido há o quê? Duas horas?

Fui bem recebido, apesar de ser cristão protestante evangélico ungido. Fui bem recebido, apesar de ser formado em Direito – e até encontrei um advogado, que me ajudou a explicar que algumas coisas no Direito não eram bem assim, de vamos mudar e pum, tudo lindo! E por incrível que pareça, todos entenderam.

E com isto, decretamos encerrados os trabalhos de sexta. E se aproximava o grande dia.

 

Sábado pela manhã, cheguei quando começavam a explicar como se procederia a votação do Estatuto. Discutiríamos todas as propostas feitas pelo GT e votaríamos pela adoção delas ou manutenção do texto original (discutido previamente via SIM), logo depois faríamos o mesmo com o Programa e Diretrizes.

Eu não estou brincando quando digo que uma discussão durou mais de hora e meia, com mais de 40 outros pontos de pauta pela frente, mas creio que todos saíram minimamente satisfeitos com o que estava sendo feito ali – mesmo que tenham perdido a votação, a discussão existiu. Muitas propostas passaram com pouco menos de 10 votos separando a proposta vencedora da perdedora, o que mostra a base multifacetada do partido.

Alguns temas como drogas (o Partido Pirata debaterá sobre a descriminalização do usuário, mas não apoiará nem conversas acerca da legalização destas) e formas de arrecadação geraram um pouco de desconforto entre alguns presentes, mas tudo foi resolvido sem muitas delongas.

Aprovou-se o estatuto, o programa e as diretrizes – e começaram as assinaturas. Fizemos a solenidade, gravada em vídeo e transmitida em streaming via Twittcam, e meus senhores, somos Piratas!

Estava oficialmente fundado o Partido Pirata do Brasil. Olhávamos uns para os outros, batendo palmas, comemorando, sem acreditar que finalmente aquilo tudo fora construído. Muitos deram sangue praquela reunião acontecer, outros atravessaram o país pra participar daquela reunião – era gente de Porto Alegre, de São Paulo, de Minas, do Maranhão, da Bahia. Mais de 100 pessoas de vários lugares do país, de várias religiões (e da ausência delas), de várias cores e orientações sexuais, todos juntos, comemorando o começo de uma nova era. Uma era nas nossas vidas, e que queremos levar para todo o país.

É com orgulho que eu digo –Eu sou Pirata! Sou fundador do Partido Pirata do Brasil!


Um relato da Fundação do Piratas!

Categoria: Utilidade Pública
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1 comment

  • rapaz, lido de mais…vejo você falando do partido pirata, de todas as divergências ideológica que temos, e cada vez mais me sinto orgulhoso de ter aberto as portas da minha casa para a primeira sede do partido pirata no Brasil. gostaria de lembrar a todos que eleiam esse texto o partido pirata é isso diversidade de pensamento, de ideias, de tudo… diversidade, precisamos da sociedade construindo e se respeitando e mandando de verdade nesse país. o partido pirata não está interessado em dinheiro, em poder, está interessado em compartilhar tudo isso com todos. somos o partido da diversidade em sentido amplo. lindo relato

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