História do Sorvete


Você está exagerando, Yashar Ali. Sem correr o risco de ser rude ou cínico, você realmente exagerou em alguns pontos do seu texto – e esse é apenas um contraponto, para entrar na discussão.

Yashar Ali publicou, essa semana, um texto intitulado Por que as mulheres não estão loucas, a íntegra você encontra no Papo de Homem (e realmente indico a leitura). O texto entra numa discussão importante (como várias postagens do site) dentro dos relacionamentos – o choque entre pessoas emotivas e pessoas racionalistas. Combati, também há pouco tempo, o posicionamento racionalista que está na moda – os sentimentos e emoções são afogados e tidos como fracos aqueles que simplesmente não engolem algumas coisas.

Mas digo que você exagerou, Ali, porque muito (aliás, quase tudo) do que você disse é verdade (tecnicamente é isso que significa a frase, embora não seja bem esse o uso) – muitas mulheres são, de fato, oprimidas ao expressarem pensamentos e opiniões que não são importantes não só diante de seus namorados/maridos, mas diante de todas as outras pessoas, inclusive outras mulheres já calejadas pela pressão em ser racionalista (por gaislateadores) – você está exagerando, tem que focar no que é importante, no seu objetivo.

Esse pensamento maquiavélico (como eu descreveria o gaislatearismo proposto por você) pode ser fruto de uma sociedade patriarcal? Pode, mas eu não acredito nisso. Não é o patriarcalismo o culpado – assim como não são apenas mulheres que sofrem com as consequências dele. A meritocracia faz muito mais o seu dever ao impor objetivos e metas inalcançáveis de maneira sã, e é aí que entra a morte das emoções.

Mulheres não só podem ser, como de fato já têm sido, em número cada vez maior, responsáveis por essa mesma pressão sobre homens – sejam seus homens ou seus filhos.  A pressão para ser racionalista, ser objetivo e por uma miopia seletiva é um apelo social, não sexista.

 Quando digo que você está exagerando, Ali, é porque às vezes, as pessoas simplesmente estão exagerando. Não sei eu outra forma de alertar pessoas sobre comportamentos inconvenientes a não ser com este aviso (posso estar mal-acostumado), mas pensemos então na seguinte hipótese:

Um homem (só para variar um pouco e provar este ponto) tem uma crise em relação à mulheres. Acredita entrar em todas friendzones possíveis, e se considera vítima de um movimento feminino que visa apenas usar os bons homens como ele como alicerce entre um relacionamento falido e outro.

Casos assim estão cada vez mais comuns na sociedade, nos quais homens, emotivos, põem seu pensamento/bem-estar acima do das outras pessoas – um tanto quanto inconveniente, e que gera brigas, confusões, perdas de amizades e muita treta. Como mostrar para a pessoa a inconveniência de suas atitudes sem falar Cara, você está exagerando? Eu realmente não sei.

Da mesma forma, se fosse uma mulher – peguemos um caso tão comum quanto. Digamos que uma mulher ultrapassa qualquer limite saudável dentro de ciúmes. Coloquemos ainda um background: ela saiu de uma casa em que o pai traía a mãe repetidas vezes, viu seu irmão mais velho pisar em várias garotas que o amavam de verdade e com isso, desenvolveu uma postura amargurada em relação aos homens (um fator externo que pode tê-la oprimido, de fato, sem ser diretamente relacionado à ela).

Oprimida já quase que por natureza, em todos seus outros relacionamentos, ela entra em um namoro com uma postura passivo-agressiva como você descreveu em seu texto. O namorado, um dia, pega no celular e vai falar com uma garota qualquer, e ela explode em ciúmes – independente de ser a irmã ou prima dele. Como conversar com essa garota sem começar com um Calma, você está exagerando?

Concordo contigo, Ali, não se engane: existe uma forte opressão contra pessoas emotivas (independentemente de sexo), e o Você está exagerando é mal empregado (geralmente as pessoas usam sozinhas, sem dar uma justificativa ou entrar numa conversa mais profunda sobre os sentimentos e fatos relacionados ao suposto exagero) – mas não é o vilão da história, assim como mulheres não são as únicas vítimas.

Um abraço, Ali!


Você está exagerando, Ali.

Categoria: Opinião
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