Foi aquele dia que viraram pra mim e falaram: “Você vai trabalhar com o Henrique”. Beleza, tranquilo. Olhei pro Henrique, um senhor já, com seus cinquenta anos, usa sempre a mesma camisa social, cabelos mais brancos que grisalhos penteados, uma postura de servidão que só não era maior porque ele era chato – foi o que me disseram.

Henrique em sua juventude divertida.

Já preparado para encontrar o chato, na primeira semana de trabalho nós tivemos um problema: e realmente era chato. Mas não era pouco. Quer sacar qual a vibe da chatice dele? Sente o som:

Ia ter um evento, que a chefia ia organizar – e o prédio que a gente trabalhava tinham duas entradas, por duas avenidas. Não existia uma entrada principal – eram entradas diferentes para pessoas diferentes.  Eu ia ficar na entrada de lá e o Henrique na entrada de cá.

_Mas eu que tenho que ficar na entrada de cá. Eu conheço fulano, beltrano, conheço todo mundo. Você fica na entrada de lá, e eu fico na de cá.

_Henrique, quem mandou foi o Chefe. Quer discutir com ele a portaria que você vai ficar?

_Não, eu só vou ficar na de cá, e você na de lá.

_Peraí, eu vou ligar pra ele e você diz isso – eu não tenho paciência mais pra ele, sério.

Cada dia é um problema – e se alguém me pediu pra ficar do lado de cá, porque raios eu não posso ficar no lado de lá? Se ele quer comprar briga, que compre. Quando o Chefe atendeu, Henrique falou baixinho, pra eu não ouvir todos os principais e obscuros motivos que obrigariam-me a ficar na outra porta. É claro que o Chefe disse não, e ele resmungou pra mim

Meia hora depois, ele vira e diz:

_Eu vou ficar de cá, então.

Crônicas de um Colega de Trabalho

Categoria: Contos de Domingo
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