Uma das maiores maravilhas da internet é trazer à tona discussões com uma aparência inútil, mas cujo conteúdo consegue ser mais irrelevante do que a gente pensava – e, a cada argumentação, perde mais um nível no ranking de salvabilidade do tema.

Talvez pela revolta social, pelas manifestações que foram pra rua e voltaram pra casa, reacendeu-se,  por incompreendidos que cursaram cadeiras sociais como por aqueles bacharéis em direito que se orgulham em ser do povão, da esquerda e de lutar em movimentos sociais, aquela velha, chata e que ninguém (fora eles) tem saco mais para isso.

Se fosse só isso, tudo bem, sem problemas, por mim você é livre suficientemente para pular no esterco e passar a tarde nele falando como é legal estar num mar de cocô, realmente não me importa – mas chamar de hipócrita, babaca e pedante quem não quis pular no esterco com você é mau-caráter. Então, vamos avaliar essa situação de uma vez por todas, pra não ficarem dúvidas.


1)      Existe uma norma editada por D. Pedro I em 1827 que dá o título de Doutor a todos os bacharéis de direito.

Sim e não. Existe uma norma de 1827 que fala isso? Existe. Mas o título de doutor só é válido para os bacharéis em direito que, após obter o diploma, defendem uma tese na forma especificada naquela norma.

Ah, mas defendemos a monografia no final do curso. O problema é que a monografia é uma defesa de tese feita antes de obter o diploma de bacharel em direito, e não após ela. Os bacharéis de hoje, portanto, não estão, segundo o decreto imperial, cientificamente aptos a serem chamados de doutor.

E não só isso, ignorando a tempestividade da defesa de tese, considerando que a monografia sim, serviria como tese para a obtenção deste título de doutor, independente da data ou objetivo de sua defesa, em 1996, quase 170 anos depois do decreto de D. Pedro I, surgiu a LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, a qual define, entre outras coisas, a quem cabe o título de doutor – e adivinhe, bacharéis em direito e medicina não se qualificam.

Não há, portanto, justificação legal ou jurídica para manutenção do pronome Doutor na sociedade brasileira – embora Portugal conceda o título de doutor à concluintes de vários cursos de licenciatura.

2)      O título doutor não se refere apenas à titulação científica. No país, o termo ganhou um significado além, como pronome pessoal.

No cotidiano, doutor não é quem tem doutorado. Por mais que a raiz etimológica da palavra, linguisticamente, nos leve a esse raciocínio lógico, o seu uso social evoluiu, e doutor tem uma carga totalmente diversa da descrita originalmente, sendo utilizado para referir-se a pessoas de uma forma reverente, seja em relação à sua posição social ou econômica. Pessoas com subempregos, em posições econômicas mais baixas costumam referir-se aos seus chefes ou pessoas hierarquicamente superiores na estrutura empresarial como doutores.

Da mesma forma, quando você utiliza o pronome senhor ao se referir a uma pessoa, não está dizendo que aquela pessoa é sua dona ou tem a posse de sua vida, mas que considera-a digna de um tratamento respeitável, seja pela sua idade, status social ou posição de importância pontual, naquele momento.

Assim como senhor, portanto, o uso de doutor tornou-se uma convenção social, independente de lei, e cabe a cada um, na sua etiqueta social, utilizá-lo ou não.

3)      Conclusão: tanto faz, tanto fez.

Não é obrigatório ou proibido chamar alguém que não tem doutorado de doutor. É um tratamento de respeito que cabe a cada um avaliar as situações em que deve utilizá-la ou não.

Se fulano exige que lhe chamem de doutor, tendo ou não título de doutorado, o fato é que fulano é um babaca, e não existe nenhuma lei que proíba pessoas de serem babacas. Doutor, como tratamento de respeito, é concedido (dado por terceiros) não adquirido (conquistado por esforço próprio).

Numa discussão dessas no facebook, um guri sugeriu que a OAB e o CFM decretassem normas que proibissem advogados e médicos de serem chamados de doutor. Sinceramente, esse argumento conseguiu ser mais babaca do que quem exige ser chamado de doutor.


Doutor ou não: a resposta final.

Categoria: Utilidade Pública
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