John Noarms gosta de medir os riscos. Não prestou vestibular pra um curso que as chances de passar eram poucas, segundo seus hábitos. Nunca pulou de pára-quedas, porque sua vontade de aventura não era tão grande quanto o medo. Medo de altura, de morrer? Não, medo das prestações do curso, caso ele perdesse o emprego, ou alguém ficasse doente. John calculava o tempo para pegar transporte público ou táxi, conferia a previsão do tempo e ainda andava com o twitter ligado para receber informações sobre o trânsito, a lotação da linha violeta da CPTM e a linha vermelha carioca, sempre ligado e construindo mentalmente rotas alternativas.

Não comia palmito de feira, nem maionese de lanchonete. Desistiu dos cachorro-quentes de carrinhos quando pesquisou sobre doenças, parou de beber sucos concentrados quando descobriu o processo de produção e parou de usar plástico quando lhe falaram sobre câncer. Não passa nem perto de microondas, se sente incomodado de estar perto de torres de celular e tem arrepios em passar por raios-X de tanto que ouve falar em radiação.

Celular só com fone de ouvido, fone de ouvido nunca intraauricular e mesmo assim com volume abaixo de 50%, afinal, John não quer ficar surdo. Não sai depois das 22h, porque tem medo de assaltos, se esconde da polícia porque tem medo do noticiário, paga os impostos e anda com cinto de segurança pra não ter problemas. John calculou todos os riscos. Não quer se surpreender.

John, quando se apaixona, é frio, é racional. Segue toda a lista de recomendações dos mais variados especialistas, psicólogos e sexólogos. Faz listas de prós e contras, busca conhecer os valores (cristãos ou não) da pessoa e ainda procura saber todos interesses e gostos musicais e artísticos (afinal, não quer correr o risco de ficar preso numa sala de cinema alternativa com filmes iraquianos, ou pior, numa comédia romântica do Adam Sandler).

Ao começar um relacionamento, segurou as demonstrações de amor, foi comedido nas palavras e não se entregou a tudo aquilo que sentia, com medo de ter seu coração despedaçado. Segurou-se, não se entregou, e nas primeiras brigas e discussões, já refez todos aqueles cálculos do começo. Valia a pena? Ele estava disposto a passar por aquilo? Não sabia. Reviu todos os vídeos e entrevistas. Reavaliou seus valores. Refez as listas. Continuava sem saber. Consultou seu terapeuta, que não deu respostas conclusivas. Assistiu palestras no Youtube, releu os livros e fez testes da Capricho, pra descobrir se estava apaixonado e se ela era sua cara-metade. Nenhuma resposta conclusiva.

Entrou em crise – estava em dúvida. Nunca tinha passado por isso, nem mesmo na hora de escolher o curso da faculdade, ou o emprego. Não teve dúvidas na hora de escolher um parceiro no estágio, ou em qual mictório se satisfazer no banheiro do shopping. Escolhia sabonete com uma precisão mecânica, e tinha a marca de shampoo que nunca iria deixá-lo com caspas, problemas de calvície ou ainda com cabelo seco. Tinha quatro escovas de dentes estrategicamente posicionadas para situações de emergência, e sempre tinha uma lista com telefones de restaurantes que entregavam (os melhores motoboys, condições de higiene e refeições que não estragariam sua flora intestinal). Tinha planejado seu futuro até depois de sua morte, com o seu lugar no cemitério reservado, lápide escrita e caixão construído. O testamento estava escrito em quatro vias, um lacrado com o advogado, outro registrado em cartório, um terceiro num cofre e o quarto em um arquivo criptografado na nuvem.

Mas não conseguia decidir se deveria continuar naquele relacionamento. E não estava acostumado com a dúvida. Por fim, desistiu. Largou todos os planos, todo o futuro construído com ela, e jogou fora. Reuniu todos os manuscritos, tudo aquilo que pensara, imaginara e guardara para si e fez a única coisa que ninguém esperava – disse para ela.

John Noarms arriscou-se como nunca tinha arriscado na sua vida, e descobriu que ficar sem ar de tanta expectativa podia ser bom.

Claro, levou o maior fora da sua vida. Mas viciou-se em assumir riscos. A partir dali, ficou conhecido como John Armstrong. Não era mais o pobre Joãozinho sem-braço que estavam acostumados a ver.

John Noarms não gostava de se arriscar

Categoria: Contos de Domingo
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